Volta Redonda sente efeitos da crise

Berço da industrialização brasileira, cidade da siderúrgica CSN vive clima de pânico com onda de demissões

Daniele Carvalho, O Estadao de S.Paulo

10 de janeiro de 2009 | 00h00

No pátio do Sindicato dos Metalúrgicos do Sul Fluminense em Volta Redonda (RJ), 100 trabalhadores se aglomeravam na última terça-feira em silêncio. Eles estavam ali para homologar as demissões anunciadas na segunda quinzena de dezembro pela Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). Naquele dia, 175 dos 300 funcionários dispensados oficializariam o comunicado. Outros 3 mil receberam férias coletivas, que se encerram amanhã.Pelos corredores do sindicato, as poucas conversas ouvidas demonstravam preocupação de um futuro incerto. Muitos temem não conseguir uma recolocação no curto prazo. O fato de desempenharem funções extremamente técnicas - o que até há alguns meses os tornava disputados a peso de ouro no mercado de trabalho - agora restringe as alternativas na busca de um novo emprego. "Com toda essa crise, não sei onde vou arrumar emprego na minha área. Acho que vou ter que partir para serviços de biscate. Minha mulher também vai ter de voltar a trabalhar", lamenta Júlio Jorge da Cruz, operador de esteira rolante. Aos 49 anos, ele tem dois filhos pequenos, Ruan e Rayane, de 3 e 2 anos. Cruz foi pego de surpresa. Seu maior medo agora é não honrar o financiamento imobiliário que contraiu em meados do ano passado. "Ainda faltam umas 20 prestações de R$ 500. Estou muito preocupado", disse. Cruz recebia da CSN um salário de R$ 1,8 mil. Ainda sentindo-se um pouco anestesiado pela rapidez dos acontecimentos, Cruz questiona: "Trabalhei lá por mais de 20 anos e, em todo esse tempo, tenho visto a empresa ter lucro atrás de lucro. Agora, diante de uma primeira dificuldade, eles já demitem? E todo o lucro dos últimos anos?"Há também quem não se preocupe tanto. Ricardo Ramos Vilela, de 48 anos, operador de sistemas de informática acredita que pode ter uma nova ocupação em quatro meses, apesar da crise. "Estou fazendo contatos para dar aulas", disse. As demissões na siderúrgica também afetaram os jovens. Claudiney Batista, de 25 anos, era um dos que aguardavam na fila. Há dois anos e meio na empresa, ele manobrava locomotivas no pátio e tinha planos de se casar em 2009. "Agora vou ter de esperar. Acho que vai ser difícil encontrar outro emprego na área industrial." Formado em magistério, o jeito vai ser mudar de área, prevê.ARREDORESA apreensão e o desânimo também rondam os arredores da CSN. O ambulante Samuel Francisco trabalha na passarela que dá acesso à entrada principal da usina e diz que nunca vendeu tão poucos doces, guarda-chuvas e pilhas. "Estou aqui há dez anos. As vendas já caíram 30%. Ninguém quer gastar dinheiro com nada." O receio, conta ele, também já afeta o topo da cadeia de vendas. "Não sou apenas eu que estou vendendo menos, não. O atacadista me confessou que está vendendo menos e que, se continuar assim, vai ter de dispensar funcionários."Não muito distante dali, em frente à praça que abriga o monumento em homenagem aos mortos da greve histórica dos funcionários da CSN em 1988, o salão de beleza cooperativado Unhas, Cabelos e Cia também sentiu a mão pesada dos cortes e das férias coletivas. "Tivemos um fim de ano muito ruim. O movimento caiu 50%", narra Giordiana Alves da Silva. Se preparando para o pior, a cooperativa já procura um novo endereço. "Uma sala menor e mais barata para que ninguém seja demitido", diz ela.FÉRIAS FORÇADASO Natal foi decepcionante para um funcionário posto em férias coletivas na segunda semana de dezembro. "Foi um Natal magro. Não fiz dívidas e comprei presentes bem baratos. Claro que a gente fica com a pulga atrás da orelha. Acha que vai ser o próximo a ser demitido", diz sem se identificar, por temer retaliações. O sindicato dos metalúrgicos acredita que mais 1,8 mil pessoas possam ser dispensadas ainda em janeiro. "Fomos surpreendidos pelo anúncio das demissões. Tínhamos pedido à empresa que se reunisse conosco para discutir com mais calma e com um cenário um pouco mais claro. Mas isso não ocorreu", diz o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do Sul Fluminense, Renato Soares Ramos. "Temos grandes empresas aqui na região, mas nenhuma delas é tão complicada e problemática para se dialogar e negociar", comenta Ramos.O fantasma da demissão na siderúrgica, âncora da indústria na região, também ronda funcionários de prestadoras de serviços. O medo é que os cortes na CSN provoquem um efeito dominó no mercado de trabalho na cidade. Na Delegacia Regional do Trabalho (DRT) de Volta Redonda, tem sido grande o número de pessoas em busca de informações. O chefe do departamento de Trabalho da delegacia, Luiz Felipe Assunção, explica que, por conta do recesso de fim de ano, muitas companhias colocaram em férias coletivas seus funcionários sem cumprir a obrigatoriedade legal de duas semanas de antecedência."Acredito que mais duas mil pessoas, além da CSN, estejam em férias coletivas. Eles vêm até aqui preocupados e querendo saber sobre o que receberiam em caso de demissão", conta Assunção. Procurada pelo Estado, a CSN não quis se pronunciar e afirmou, por meio de sua assessoria de imprensa, que "as demissões feitas fazem parte de um turn over (rotatividade) normal da empresa, bem como de funcionários que estavam aposentados ou prestes a se aposentar", informou.. O argumento, no entanto, é questionado pelo sindicato: "Isso não é verdade. Vemos funcionários de perfis muito diferentes aqui", afirma Ramos.

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