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Volver

Talvez seja possível, como mostra a eleição espanhola, reconstruir o centro político e eliminar a radicalização

Monica De Bolle*, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2019 | 04h00

Os temas são sombrios, mas as cores vibram. As mulheres são excêntricas e absolutamente normais na excentricidade. A volta da matriarca que já havia morrido é nada mais do que fato corriqueiro na vida bruta daquelas mulheres. Ao acompanhar os resultados das eleições na Espanha, me veio à cabeça o filme de Pedro Almodóvar. Enquanto o xará Pedro Sánchez liderava seu partido para a vitória, pensava em Volver. Talvez a associação tenha vindo da presença feminina – 65% do ministério de Sánchez fora formado por mulheres após as eleições que removeram Mariano Rajoy do cargo de primeiro-ministro em 2018, o que repercutiu mundo afora na ocasião. No entanto, é mais provável que a associação tenha vindo do título do filme: Pedro Sánchez voltou fortalecido após a rejeição de sua proposta orçamentária que resultou nessas últimas eleições.

A vitória do PSOE de Sánchez e o enfraquecimento do Partido Popular (PP) de Mariano Rajoy, além da ascensão do partido de extrema-direita VOX, ainda serão esmiuçadas à exaustão por cientistas políticos e analistas diversos. Evidentemente, as eleições da Espanha têm marcas profundamente espanholas – os movimentos separatistas da Catalunha, o referendo inconstitucional sobre a independência da região, e tantos outros temas mais tiveram peso sobre o resultado. Contudo, é possível identificar traços mais gerais com implicações interessantes para a política e para a política econômica em tempos de extremismos. No caso da política, a ameaça do radicalismo neofascista do VOX pode ter sido bastante importante para mobilizar os impressionantes 76% de eleitores que compareceram às urnas no último domingo.

Mas tão interessante quanto refletir sobre como a Espanha pode ajudar o centro político a volver é pensar sobre quais as políticas econômicas que podem frear a sanha nacionalista ultraconservadora. Durante o curto governo iniciado em maio do ano passado, o PSOE conseguiu promover alguns avanços importantes no combate às desigualdades – tanto de renda, como de gênero – priorizando o aumento do salário mínimo, do investimento público, e a adoção de medidas para diminuir as disparidades entre homens e mulheres – sem comprometer a sustentabilidade das contas públicas no médio prazo. Não custa lembrar que a população espanhola já estava farta da austeridade, do desemprego elevado, da estagnação da qualidade de vida, da sensação de injustiça social provocada tanto pela crise econômica, quanto pelas revelações de corrupção no PP, tradicional partido de centro-direita. Portanto, a vitória do PSOE levanta a pergunta: seria possível atrair eleitores indignados por meio de políticas redistributivas, porém fiscalmente prudentes, que eliminem a tentação de resvalar para o extremismo? Em que medida pode um partido de linha mais moderada – seja à esquerda ou à direita – oferecer um seguro social atraente por meio da política econômica sem prejudicar a estabilidade do país? Se o nacionalismo ultraconservador for fruto da insegurança provocada pelas inovações tecnológicas, pela globalização, pela imigração, essas perguntas tornam-se extremamente relevantes. Ou seja, talvez seja possível reconstruir o centro político e eliminar a radicalização com um programa econômico fundamentado nessas inseguranças e voltado para a provisão desse seguro social, o que seria uma espécie de reinvenção da social democracia. Por ora, a Espanha serve como exemplo de que isso é possível, ainda que difícil.

Traduzir isso para o Brasil, contudo, não é difícil. Ao que tudo indica, o governo destrambelhado de Bolsonaro pouco ou nada fará pelas redes de proteção social, mas talvez faça algo pela sustentabilidade fiscal caso consiga emplacar a reforma da Previdência. Com taxas de desemprego elevadas, uma economia semiestagnada – a Previdência não é bala de prata para o crescimento – e parcelas da população sem muita esperança de que haverá melhoria de vida, parece claro o caminho para a construção de um centro que seja prudente no manejo fiscal de médio prazo, mas que responda às inseguranças de curto prazo. Quem o fará em meio à balbúrdia tupiniquim tem sido mais difícil de enxergar do que o caminho em si.

Volto ao início. Como a obra cinematográfica de Almodóvar, o resultado das eleições espanholas é ao mesmo tempo unicamente espanhol e profundamente global. Há lições e aliterações importantes para o Brasil. Aos que repudiam o retrocesso radical: há retorno.

*ECONOMISTA, PESQUISADORA DO PETERSON INSTITUTE FOR INTERNATIONAL ECONOMICS E PROFESSORA DA SAIS/JOHNS HOPKINS UNIVERSITY

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