'VOU FICAR EM CIMA QUE NEM MOSCA DE BOI'

Graça diz que não tolerará atrasos de empresas que têm contrato com estatal

IRANY TEREZA, SABRINA VALLE, SERGIO TORRES / RIO, O Estado de S.Paulo

26 Fevereiro 2012 | 03h06

Graça Foster garante que nunca participou, no governo, de nenhuma discussão sobre controle inflacionário por meio de congelamento de preços de gasolina e diesel. E não considera que a empresa esteja encurralada entre a política econômica do governo e a própria estratégia comercial. "A Petrobrás não fica em sinuca de bico. Se alguém fica, não é a Petrobrás", rebate a presidente da companhia. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Como a alta de preço do petróleo vai impactar a política de preços da Petrobrás?

Preço de petróleo alto abre oportunidades para atividades exploratórias com bases econômicas de outras fontes de combustíveis, que não só as fósseis. Nosso negócio fica com uma base muito mais sustentada do que já era. A política de preços é de longo prazo. O País vem desenvolvendo sua economia e cada vez mais consumindo combustíveis, o que é muito bom para nós, que vendemos combustíveis. Trazer toda essa volatilidade em tempo real para o consumidor é impraticável. É absurdo pensar que isso possa acontecer. A gente trabalha para que esse consumidor que está consumindo mais possa continuar consumindo muito mais por conta de investimentos de bilhões de dólares no nosso parque de refino. Não só melhorando a qualidade dos nossos derivados, mas mudando completamente a lógica do negócio. As refinarias eram para exportação e passaram a atender ao mercado interno, que cresce. Agora, que tem de repassar preço, tem. Esse é o ponto, tem de repassar.

A sra. fala em não transferir volatilidade do preço do petróleo. Mas um novo patamar de preços já foi estabelecido.

A média/mês de US$ 100, US$ 110 (o barril de petróleo) começou a se configurar no segundo semestre. O que não é patamar são esses picos provocados pelas questões geopolíticas que hoje estão efervescendo. Quando eu olho os US$ 123 (de sexta-feira passada), isso é um sinal do dia, que traduz as pressões políticas nos países grandes produtores de petróleo. Mas esse patamar vem se definindo e nós precisamos, sim, passar para preço, não a volatilidade, mas esse novo patamar, esse novo degrau, que é de câmbio, preço e consumo.

E se esse pico de US$ 120 por barril se mantiver?

A defasagem entre os preços internacionais e os preços nacionais abre-se, essa diferença fica bastante pronunciada e os efeitos são maiores para a Petrobrás. Aí teria de ter uma escala muito maior para acomodar essa diferença de preço. Mas estamos falando agora sobre um pico que aconteceu hoje, dez minutos antes de eu sentar aqui. Esse pico tem uma razão geopolítica e pode ser atenuado de uma forma muito rápida.

O reajuste de novembro, absorvido pela Cide, já vinha sendo pleiteado com base em outro patamar. Esse reajuste repôs aquela perda?

Tem momentos em que se tem uma vantagem maior ou menor. Em 2009, retroagimos e diminuímos o preço da gasolina. Em 2010, ainda tínhamos uma vantagem muito grande em relação à paridade internacional. Em 2011, aquela vantagem foi consumida em um volume maior de combustíveis sendo usados, então a desvantagem é maior ainda quando não tem a paridade internacional com o preço interno. Na média geral, entendemos que, no longo prazo, no fluxo de caixa a gente tem resultados positivos. Agora, se você me pergunta: é para corrigir preço? É lógico que é para corrigir preço, a perdurar os patamares vigentes nos últimos seis meses. Não esse de US$ 123, porque isso ainda não é patamar. Precisamos, sim, corrigir preço.

Correção de preços ainda neste primeiro semestre?

Não sei se no primeiro semestre. Mas não faz sentido imaginar que quem vende - qualquer coisa que seja, uma xícara, um caderno, gasolina, diesel - não repasse ao mercado as suas vantagens e as suas desvantagens: aumento de custo, matéria-prima, custo de pessoal. Isso é a lógica do negócio. O que não podemos esquecer é que temos um investimento pesadíssimo em refino. E esse mercado, novo, é uma joia para nós. Vai nos tirar da guerra de preço internacional, em que se caminhava para entregar combustível a 5 mil milhas de distância, sujeito às diversidades que existem na política internacional. Os efeitos de crises geopolíticas entre esses grandes produtores nos exporiam à situação do dia. Para nós esse mercado novo é nosso. Praticamente todo o investimento do Brasil em refino e em infraestrutura de internação e exportação de derivados é da Petrobrás.

Mas isso só vai compensar o custo a partir de 2013?

Hoje a gente olha para o nosso portfólio de refino e a ansiedade é muito intensa para que a gente traga essas refinarias a operar o mais rápido possível. Se considerar um crescimento da economia de 3% ao ano, lá em 2020, estaremos produzindo, somente em óleo e líquidos de gás natural, sem o gás, em torno de 4,6 milhões de barris de petróleo por dia. Sem o refino novo, teríamos de exportar em torno de 3 milhões de barris por dia. Vamos aumentar nossa capacidade de refinar em mais 1,5 milhão de barris de petróleo por dia. Vou exportar mais petróleo, mas vou ter mais 70% de refino novo no Brasil. Nenhum país de grande consumo do mundo importa mais do que 10% de seus derivados. Se eu fosse exportar 3 milhões de barris, estaria sujeita à exposição dupla: na exportação de petróleo e na importação de derivados.

Hoje a nossa situação é essa? Estamos importando gasolina, exportando petróleo e no limite de capacidade das refinarias.

Gostaria que o aumento do parque tivesse sido desde... A última refinaria veio em 1983, se não me engano. Evidentemente que nem todas as refinarias precisariam estar agora operando, mas estamos importando uma média de 420 mil barris/dia de derivados, em números do ano passado. Se tivéssemos mais uma refinaria com perfil para diesel e gasolina, estaríamos com uma importação bastante diminuta.

Aí seria realmente uma situação de autossuficiência?

Seria.

Hoje não estamos?

Não estamos porque tomamos a decisão tardia de fazer crescer o nosso parque de refino. Acreditávamos num crescimento da economia, mas veio mais crescimento e mais distribuição de renda. Não somos um refinador isolado, somos uma empresa verticalizada, que detém 95% do que está em pé, fazendo sombra (no refino). Temos orgulho disso, mas temos obrigação de remunerar o capital investido pelo controlador, pelo acionista minoritário, pelos empregados dessa empresa. Mais do que orgulho, é meu dever buscar remuneração para esse capital. E quando se fala desse mercado novo, é um prêmio para quem investiu tanto em infraestrutura durante toda a vida da companhia.

Como fica a Petrobrás na sinuca de bico, entre remunerar o investimento e ajudar no controle da inflação, por causa do controle majoritário do governo?

A Petrobrás não fica em sinuca de bico. Se alguém fica, não é a Petrobrás. Essa empresa tem donos: o controlador e o acionista minoritário. A gente trabalha o tempo inteiro com a vocação de resultado positivo. Não somos chamados... até outro dia fiz essa pergunta. Não conversei com o presidente (José Sergio)Gabrielli, mas com as pessoas que trabalhavam com ele: 'Mas o presidente foi chamado alguma vez para alguma reunião para discutir inflação?' Não. Então, essa vocação para corrigir a inflação, para segurar a inflação, não é uma vocação da Petrobrás. Ponto. Sistematicamente, com base em dados, números e fatos estamos o tempo todo na discussão intensa com o governo. E mensalmente, nas reuniões do conselho, apresentamos a política comercial da companhia.

Mesmo sem discussão explícita de inflação, o presidente do conselho é o ministro da Fazenda, que orienta a política de metas de inflação. Ele referenda o pedido de reajuste. Não há mesmo nenhuma influência?

Nós não fomos chamados para absolutamente nenhuma decisão sobre (inflação). E perguntas como essa - com todo o respeito à sua pergunta, que têm lógica - só podem ser respondidas pelo ministro. Eu não posso falar por ele.

A sra. está há 11 dias presidente. A sra. arrisca dizer o que mudou?

O que muda são os estilos. Só. Estive como diretora quatro anos e quatro meses. Participei dos grandes momentos desta companhia. São duas pessoas diferentes responsáveis pelos resultados da mesma forma porque estavam juntas. Mas são estilos diferentes. Sou extremamente ansiosa, quero tudo para ontem, acho que as pessoas também não precisam dormir, essas coisas todas. Eu como aqui. É isso. E gosto de ser convencida de forma qualificada.

A Petrobrás trabalha com perspectiva de atraso das 33 sondas construídas no Brasil?

Não trabalhamos com perspectiva de atraso. Temos de trabalhar firme. É aí que entra o estilo de cada um. Tem de pegar em cima. Se eu trabalhar com atraso... Segunda-feira já tenho uma reunião com a Sete Brasil. Em 11 dias, serão três. Para não soltar a linha. Conhece mosca de boi? Vou ficar em cima de quem tem contrato.

Quando a sra. fala que vai ficar no pescoço de estaleiros e de fornecedores, o que pode acontecer?

Eles têm penalidades. Mas penalidade para mim não é resultado. Resultado para mim é óleo produzido. Para produzir tenho de perfurar, para perfurar, tenho de completar. Completo, interligo, está lá o óleo. Somos uma empresa que tem óleo descoberto. Agora com 43 sondas. Faço conta de padeiro, olha. Não bate, ligo e digo, a conta não bateu. Está tudo no caderninho. Preenchi o caderno, tem um mês mais ou menos. Taxas diárias, valor total do contrato, está tudo aqui. Boto canetinha verde, rosa...

A sra. destacou no discurso a fidelidade à presidente Dilma. É ilimitada mesmo? Em que nível isso vai se dar?

Quando se é indicado pela presidente da República, aprovado pelo Conselho de Administração para conduzir uma empresa com esse peso, não vejo porque restringir minha fidelidade. Conheço a presidenta Dilma, conheço a cidadã Dilma Rousseff. Sei do dever dessa empresa perante não só seu País, mas perante o mundo, e não tenho como restringir a fidelidade à ela.

Os interesses dela não podem confrontar eventualmente com os dos minoritários?

Não sei. Só sei é que o que eu defendo pode eventualmente não convergir ao que ela pensa sobre determinada matéria. E se chamada for, discutiremos dentro da disciplina que o cargo exige de forma intensa. Vou abrir minha agenda e vou colocar os dados para a discussão.

Como a sra. avalia o receio de analistas em relação à ingerência do governo na Petrobrás?

Existe uma discussão intensa, que vocês acompanham na imprensa, pelos presidentes que nos antecederam. (...) É histórica a relação do controlador sobre a empresa controlada. Intensas discussões em favor da companhia e, consequentemente, em favor dos acionistas minoritários e do controlador. Não perdemos a oportunidade de fazer uma defesa objetiva dos interesses da companhia. A Petrobrás não teria resistido ao longo de seus 58 anos sem um quadro técnico, uma diretoria técnica determinada a apresentar os melhores resultados. Agora, existe o outro lado. Também vejo benefícios que advêm de termos como controlador o governo federal. (...) O controlador reconhece em nós o potencial técnico e a determinação na defesa de suas causas. Então, creditou a nós a condição de operador único do pré-sal.

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