'Vou unir o Ipea, que parece desunido e desmotivado'

Escolhido para dirigir o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o economista carioca Marcelo Neri diz que seu desafio inicial "é unir a instituição, que parece desunida e desmotivada".

Entrevista com

FERNANDO DANTAS / RIO, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2012 | 03h04

Durante a polêmica gestão à frente do Ipea do economista Marcio Pochmann, que se desligou recentemente para concorrer à prefeitura de Campinas, houve críticas ao que teria sido um viés ideológico, que provocou insatisfação em parcela dos pesquisadores.

Com 49 anos, graduação e mestrado na PUC-Rio, e doutorado em Princeton, Marcelo Neri comanda desde 2000 o Centro de Políticas Sociais (CPS) da Fundação Getúlio Vargas (FGV) no Rio. Lá, ele ganhou destaque como um dos principais pesquisadores sobre a nova classe média popular no Brasil, que emergiu com força com o governo Lula.

Neri foi convidado para o Ipea pelo ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), Moreira Franco, com o incentivo de Ricardo Paes de Barros, principal auxiliar de Moreira. Neri e Paes de Barros (conhecido como PB) são considerados os dois principais pesquisadores da área social no Brasil.

Neri, que trabalhou no Ipea antes de ingressar na FGV, substituirá Vanessa Petrelli Corrêa, que está na presidência da instituição desde o desligamento de Pochmann. A seguir, a entrevista.

Como foi o convite para presidir o Ipea?

Há três meses, o Moreira me convidou e disse que ia submeter o meu nome. Anteriormente, me lembro de ter participado com o PB de uma reunião da equipe de transição do governo Dilma. Me lembro de cutucá-lo no meio da reunião: "Você está ouvindo o que ela está falando?". Eu me referia à ênfase nas novas tecnologias sociais, à ênfase na criança. Foi um momento que soou como música para os meus ouvidos.

Houve resistência a seu nome?

Fiquei surpreso com certo debate que houve. "Esse cara é meio de direita". "Esse cara é meio ortodoxo". Não estou entendendo, eu estudo pobreza. Uma pessoa de direita estudando pobreza e desigualdade? Mas não abro mão de eficiência.

Quais foram os seus contatos com Dilma?

Tive contatos em cerimônias públicas, mas uma foi muito especial, em setembro, no Rio. Desenhamos alguns programas no CPS para o Estado e o município do Rio. Nesse evento, o (governador do Rio, Sérgio) Cabral fez referência ao meu nome, e a presidente disse: "Ah, Cabral, o Marcelo está trabalhando com vocês porque ele está mais perto". Acho que naquele momento a ficha (da participação no governo) caiu, tanto para ela quanto para mim.

Como o sr. avalia o seu trabalho à frente do CPS da FGV?

Eu sou muito conhecido pela questão da nova classe média, mas acho que houve trabalhos aplicados até mais importantes, como o trabalho sobre o Crediamigo (programa de microcrédito do Banco do Nordeste) e os programas de complementação de renda do Rio.

Incomoda ao sr. estar tão ligado à ideia da nova classe média?

Não. Por outro lado, dizem que é algo bom só para o governo, e concordo que os resultados dos últimos nove anos são bastante favoráveis. Mas, em 2003, fiz o único trabalho que mostrou que a pobreza aumentou no primeiro ano do governo Lula. Em 2009, idem, quando a crise causou um salto de 6% da pobreza só em janeiro.

Mas o conceito da nova classe média é muito importante.

Acho que foi percebido primeiro pela população de baixa renda. A renda da metade inferior cresceu 550% mais do que a dos 10% mais ricos. É uma realidade de base, agora temos até novela na televisão, a elite demorou a perceber porque não estava vivendo o fenômeno. Os estrangeiros também perceberam, porque numa época de restrição de demanda em termos globais, há essa nova classe de consumidores surgindo.

Qual seu maior desafio inicial no Ipea?

É unir a instituição que, pelo que eu escuto, parece desunida e desmotivada. E isso apesar de os salários estarem altos. É unir o Ipea em torno de um projeto. O Ipea tem linhas diferentes e devemos transformar isso numa virtude.

Por que estão desunidos e desmotivados? Têm a ver com a gestão de Márcio Pochmann?

Acho que, nos últimos anos, de certa forma, o pessoal do Rio se sentiu excluído, esvaziado. Mas não tem de achar que, por eu ser do Rio, vou fazer isso ou aquilo. Quanto à gestão anterior, pode ser, mas prefiro não entrar nisso. Minha agenda não é clubística, ligada ao Rio, nem corporativa. Meu lema não é o que o Ipea pode fazer pelos funcionários, mas o que ele pode fazer pelo Brasil.

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