Vulnerabilidade financeira pode frustrar potencial agrícola do País

A realização do enorme potencial de expansão da agricultura brasileira não enfrenta apenas barreiras e outras distorções ao comércio internacional praticadas pelas nações desenvolvidas, como os mais US$ 300 bilhões anuais em subsídios à produção que elas destinam ao setor. Um obstáculo tão importante e inibidor é a vulnerabilidade financeira do País. Esse argumento permeou as discussões de um painel sobre a agricultura brasileira, na tarde da quinta-feira, durante o Fórum sobre as Perspectivas Agrícolas de 2003, uma grande conferência realizada anualmente pelo departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) num hotel em Crystal City, um subúrbio de Washington. A vulnerabilidade financeira do País foi levantada por Dean Baker, diretor adjunto do Centro de Pesquisa e Política Econômica do USDA na abertura do painel. Numa apresentação fortemente crítica ao acordo de estabilização econômica do País com o Fundo Monetário Internacional - "A Matemática do FMI Fecha?" - , Baker disse que o potencial da agricultura brasileira poderá ser "estrangulado" pela crise financeira. Citando o novo aumento de juros anunciado esta semana pelo Banco Central, ele assinalou que "os juros reais no Brasil hoje são de 13%, enquanto que nos EUA eles são provavelmente negativos nesse momento, o que torna muito difícil para o país a operar na economia internacional". A obviamente falha projeção da atual taxa real de juros pelos próximos dez anos, usada por Baker, sugeriu a possibilidade de seu discurso ter sido calculado como um contraponto ao reconhecimento pelo USDA da importância crescente do Brasil como um ator na produção e no comércio agrícola mundial. Foi tal reconhecimento levou à inclusão, pela primeira vez na história do evento, de uma sessão exclusiva sobre um país no Forum. A decisão de dedicar 90 minutos do evento a uma discussão sobre o Brasil resultou, em parte, da apresentação de um trabalho que os economistas André Pessoa, sócio-diretor da empresa de consultoria Agroconsult, e Marcos Sawaya Jank, da Universidade de São Paulo, prepararam para o Fórum do ano passado sobre os ganhos de produtividades alcançados pela agricultura brasileira a partir do Plano Real, e a modernização, diversificação e expansão do setor. As exposições deste ano detalharam as informações e análises apresentadas no ano passado por André Pessoa, que estava na platéia de mais de 300 pessoas que o evento atraiu. Antônio Sartori, presidente da Brasoja, ofereceu a visão do setor privado. Ele traçou o quadro da produção de grãos no País e enfatizou os planos de expansão da fronteira agrícola no Cerrado. "Ninguém vai nos segurar, está claro?", disse ele. Sartori fez uma veemente denúncia da política de subsídios dos países ricos. Ele disse que, por causa dos efeitos nocivos dos subsídios, os preços internacionais das grandes safras agrícolas derivam hoje menos de fundamentos econômicos do que "da especulação na Bolsa de Chicago". O diretor do novo Instituto Brasileiro para Negociações Internacionais de Comércio, Eduardo Leão de Souza, fez uma exposição detalhada sobre a evolução do mercado de carnes no Brasil nos últimos dez anos e as perspectivas de expansão interna e externa. O economista da USP mencionou o programa Fome Zero como um dos fatores que deverá afetar favoravelmente o consumo de carnes dos próximos anos. No front externo, ele apontou mais dificuldades do que boas perspectivas, apontando como obstáculos o uso de barreiras fitossanitárias pelos países desenvolvidos, que são os grandes mercados importadores, e imposição de cotas pela Rússia às exportações brasileiras de carne de porco. Considerado o maior especialista em logística agroindustrial do País, o professor José Vicente Caixeta-Filho, da Escola de Agronomia Luiz de Queiroz, da USP, explicou a transformação em curso na infra-estrutura brasileira de transportes e a redução de custos que ela vem propiciando - uma tendência que potencializa as vantagens competitivas da agricultura brasileira, líder mundial considerando-se o custo de produção nas fazendas. Numa das poucas menções ao novo governo, Sartori, o presidente da Brasoja, informou à platéia que os interesses dos agricultores brasileiros estão bem representados na administração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo ministro Roberto Rodrigues. Sartori previu que, no que depender do ministro e do setor privado, o País flexibilizará ou abandonará completamente a proibição de sementes geneticamente modificadas.

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