Hélvio Romero/Estadão-14/03/2019
Pablo Di Si diz ajustes terão de ser feitos para adequar produção à demanda Hélvio Romero/Estadão-14/03/2019

VW quer estender MP 936 para 'ter um fôlego' antes de adotar medidas como corte de vagas

Presidente da empresa não vê reação do mercado no curto prazo e diz que a indústria precisará se adequar à nova demanda

Cleide Silva, O Estado de S. Paulo

07 de julho de 2020 | 19h10

A direção da Volkswagen do Brasil se reúne nos próximos dias com dirigentes sindicais nas quatro cidades onde tem fábricas para negociar a prorrogação da MP 936. A medida que permite redução de salários e jornada e suspensão temporária de contratos durante o período mais agudo da pandemia do coronavírus venceria neste mês para os cerca de 15 mil funcionários do grupo no País.

A extensão por mais dois meses do corte de salários e da jornada, em vigor na Volkswagen desde maio, dá um fôlego maior até que a empresa tenha de decidir medidas mais drásticas, como corte de pessoal, caso o mercado não apresente recuperação.

“Nossa preocupação maior é com o médio e longo prazo pois parece que o mercado não vai reagir tão rápido”, disse na tarde desta terça-feira, 7, o presidente da Volkswagen América do Sul, Pablo Di Si. Um dos indicadores é que nos primeiros seis dias de julho as vendas totais de automóveis e comerciais leves apresentaram queda de 50% em relação ao mesmo período do ano passado.

No primeiro semestre a queda foi de quase 40%, porcentual que a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) estima para o ano todo no segmento.

As vendas da Volkswagen caíram um pouco menos no período (34%), “mas nós e toda a indústria vamos ter de estar preparados para adequar nossa estrutura à demanda e não será fácil para nenhum de nós”, afirmou Di Si, que também promete discutir alternativas com os sindicatos de trabalhadores.

Vendas por assinatura

A empresa também tem buscado alternativas para manter as vendas, como o lançamento, ao logo deste semestre, de vendas de carros por assinatura. A modalidade está em teste desde o ano passado e consiste em permitir ao cliente a opção de ficar com um carro por períodos de até um ou dois anos, pagando uma mensalidade no estilo de uma assinatura de canal de TV, sem ter de arcar com custos como seguro e manutenção.

Outra medida em estudo, segundo Di Si, é estender a vida útil de alguns modelos que deveriam sair de linha em breve, como Gol e Fox, caso o consumidor se volte mais para a compra de modelos compactos e mais baratos. “Qualquer carro que temos em linha e que o consumidor deseje vamos continuar vendendo.”

Fábrica em dois turnos

A fábrica de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, a maior da companhia, opera em dois turnos de trabalho desde a semana passada principalmente para atender a demanda pelo recém lançado SUV Nivus, cujas primeiras 2,2 mil unidades oferecidas em pré-venda pela internet, com alguns incentivos, esgotaram-se em menos de uma hora.

Com a prorrogação da MP 936, as empresas poderão reduzir salários e jornada por mais dois meses e, 25%, 50% ou 70% ou suspender contratos por mais um mês. A renovação exige a manutenção do emprego pelo mesmo tempo do acordo.

O governo banca até R$ 1.813 do corte salarial. Na primeira fase, algumas empresas, como a Volkswagen, assumiram a diferença para que o trabalhador continue recebendo o salário líquido integralmente. Procurado, o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC afirmou que aguarda ser procurado pela empresa para discutir o assunto.

Mesmo empresas que fizeram o acordo, como a Nissan, anunciou no mes passado 400 demissões na fábrica de Resende (RJ) e bancou o valor que os funcionários receberiam se continuassem na fábrica. Em todo o setor ocorreram 1,1 mil demissões no mês passado, segundo a Anfavea. As montadoras, incluindo as de máquinas agrícolas, emprega atualmente 124 mil pessoas.

Mais importados para atender normas

Di Si afirmou ainda que as negociações com o governo federal para adoção de medidas que ajudassem o setor a  garantir liquidez nesse momento de crise, por exemplo um programa de financiamento às autopeças e liberação de créditos tributários retidos, fracassaram e isso terá “consequências no curto, médio e longo prazos”.

Uma delas é o atraso ou redução de investimentos em novos projetos. “O setor gastou R$ 40 bilhões nos últimos meses, o equivalente a investimentos de cinco anos e não vai ter dinheiro para tudo”, informou o executivo, que concorda com a decisão da Anfavea de discutir com o governo a extensão dos prazos estabelecidos em programas de redução de emissões dos novos veículos e obrigatoriedade de novos itens de segurança.

O presidente da Volkswagen diz que, se as datas forem mantidas (a partir de 2022), a empresa poderá atender as normas com o aumento da importação de carros elétricos e híbridos da Europa. “Porém, isso pode causar um problema de emprego violento aqui no País.” Para ele, a decisão tem de ser ponderada, mas a Volkswagen vai se adequar ao que for decidido, mas o governo tem de entender qual será o impacto em toda a cadeia produtiva.

 

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Encalhe de carros usados nas concessionárias é o dobro do considerado 'saudável' para o negócio

Só as revendas ligadas à montadoras têm estoques para mais de dois meses de vendas; a média para uma boa gestão, segundo especialistas, é de 30 dias

Cleide Silva, SÃO PAULO

07 de julho de 2020 | 20h54

A queda nas vendas de veículos novos, de 38,2% no primeiro semestre, puxa para baixo também os negócios de modelos usados. O segmento apresentou no período desempenho menos ruim, com queda de 34,7% em relação ao mesmo período de 2019, mas ainda assim preocupante, de acordo com dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) divulgados nesta terça-feira, 7.

As vendas de automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus usados somaram, no acumulado do ano, 3,347 milhões de unidades, enquanto a de novos totalizou 808,8 mil unidades. A proporção é de quatro modelos usados para cada zero quilômetro comercializado, mesma média verificada na primeira metade do ano passado.

“Este mercado sofreu durante o primeiro semestre, assim como o mercado de novos, pela retração nos negócios e pela dificuldade dos registros nas transações pelo fechamento dos departamentos estaduais de trânsito (Detrans)”, diz Alarico Assumpção Júnior, presidente da Fenabrave. “Outro fator relevante foi o período em que as concessionárias permaneceram fechadas, durante a quarentena mais restritiva.”

Estoques elevados

O que diferencia os dois segmentos são os estoques. As concessionários têm parados em suas lojas volume de carros usados superior a 60 dias de vendas, segundo estudo da consultoria MegaDealer. De novos, entre revendas e fábricas, há estoques para 45 dias de vendas. Levando-se em conta que a maioria das montadoras suspendeu produção por cerca de três meses, o número também é preocupante, dizem as empresas.

“Os estoques de usados chegaram a níveis alarmantes pois uma boa gestão é de um mês ou um pouco mais (de carros parados)", afirma Fabio Braga, sócio da MegaDealer. “Os lojistas ficam sem liquidez e sem condições de pagar suas contas e os salários dos funcionários.” No ano passado, a média no período era de 39 dias de estoques.

Os dados da consultoria foram coletados em cerca de 3 mil concessionárias de todo o País e não incluem os veículos dos mais de 30 mil lojistas independentes. As revendas autorizadas respondem por cerca de 40% do mercado de usados, informa a MegaDealer.

O valor médio dos carros usados vendidos nas últimas semanas é de R$ 46,1 mil, acima portanto da média verificada no ano passado, de R$ 42,1 mil. “O consumidor que comprava carros mais baratos, e com isso jogavam o tíquete médio para baixo, saíram do mercado”, explica Braga. Segundo ele, quem não foi tão impactado pela crise provocada pela pandemia do coronavírus continua comprando. 

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