Wall Street espera forte recessão na Argentina

As primeiras projeções dos analistas em Wall Street para a economia argentina em 2002 apontam para um quadro de profunda recessão, maior queda no valor do peso, inflação em disparada e convulsão social. "A recessão vai ser extremamente severa neste ano, o que poderá provocar mais distúrbios sociais", disse à Agência Estado o economista-chefe para América Latina do Barclays Capital, John Welch. Ele prevê uma queda no Produto Interno Bruto (PIB) da Argentina de 5,6%, em 2002. Welch estima que o sistema de câmbio duplo, criado para ficar em vigor nos próximos quatro a cinco meses, não resistirá aos próximos três, com a Argentina sendo forçada a flutuar a moeda. O economista prevê o valor do peso no final deste ano a 2,4 por dólar, mas a taxa poderá superar os 3 por dólar em meados de 2002, num processo de "overshooting" (alta especulativa) na medida em que os limites de saques sejam relaxados. Com a injeção de liquidez na economia, via emissão de mais moeda, a inflação também deverá subir. Welch estima uma inflação de 27% para este ano. Já o economista sênior do banco Bear Stearns, Tim Kearney, estima uma inflação mais elevada para a Argentina neste ano: 45%. "A inflação seria mais alta do que esses 45% se o governo argentino não adotasse controle nos preços para evitar a disparada da inflação", afirmou Kearney. Ele estima um contágio da desvalorização da moeda nos preços de 70%, no primeiro ano da desvalorização. Kearney projeta a cotação do peso a 2,2 por dólar no final deste ano. Ele também prevê um ano de forte contração econômica e elevado desemprego. O PIB argentino, estima o economista do Bear Stearns, deverá cair 5% neste ano. "A confusão dessas medidas e o impacto na confiança dos investidores deverão tornar muito difícil a retomada do crescimento econômico", afirmou. Muitos bancos de investimentos em Wall Street ainda não divulgaram suas estimativas para a Argentina porque se concentram em avaliar o tamanho das perdas com o pacote de medidas econômicas, anunciado no final de semana pelo presidente Eduardo Duhalde. "Estamos ainda avaliando o tamanho do prejuízo que tivemos com a desvalorização", disse um executivo do Santander, em Madri, que preferiu não ser identificado. Ele afirmou que o banco não preparou ainda suas estimativas para a economia argentina em 2002, mas há um consenso entre os economistas no escritório do banco, na Argentina, de que a contração do PIB será bastante forte, especialmente no primeiro semestre. Por conta dessas análises negativas, muitos bancos em Wall Street estão preocupados com o risco político. O diretor de pesquisa econômica para mercados emergentes do ABN-Amro, Arturo Porzecanski, disse que trabalha com dois cenários para a Argentina em 2002, sendo que, um desses cenários prevê a queda do governo do presidente Duhalde até o final deste mês em razão da insatisfação popular com o pacote de medidas econômicas, que desvalorizou o peso em quase 29%.Leia o especial

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