Mark Lennihan/AP
Mark Lennihan/AP

Wall Street está de volta, quase com a mesma força de antes

Sete anos após a crise que abalou o mundo, o mercado financeiro parece voltar à velha forma: os salários voltaram a crescer e mais americanos estão empregados

The New York Times

20 Maio 2015 | 20h47

Atualizado às 22h49 

Os maiores bancos de investimento aumentaram seu salário base no primeiro semestre do ano para US$ 85 mil anuais oferecidos aos recém-formados, o primeiro aumento depois de cinco anos nos quais o salário se manteve na casa dos US$ 70 mil.

No complexo de Lower Manhattan antes conhecido como World Financial Center, a proporção de escritórios vagos - que chegou a 41% depois que o Merryll Lynch consolidou seus escritórios após a crise financeira - está agora abaixo de 5%.

E, sinalizando o retorno dos negócios envolvendo apostas elevadas, as grandes empresas americanas realizaram mais fusões e aquisições no ano passado do que no ano anterior à crise financeira global, obtendo para seus conselheiros em Wall Street comissões imensas.

Sete anos após a crise que abalou Wall Street até o núcleo, a marca do setor financeiro recuperou boa parte do prestígio. O número de pessoas trabalhando no setor de valores mobiliários nos Estados Unidos retornou aos níveis de 2007, e o mesmo vale para a diferença entre a compensação dos trabalhadores de Wall Street em relação aos empregados dos demais setores da economia. Como um todo, o setor financeiro está obtendo lucros que representam uma parcela da economia como um todo tão grande quanto no início da década de 2000, e mais que o dobro do nível médio registrado no período de 70 anos encerrado em 1999.

A recuperação dos maiores bancos não foi completa. Executivos dos principais bancos se queixam de novas e invasivas regras que os levaram a fechar divisões e encolher a folha de pagamento, potencialmente prejudicando sua capacidade de ajudar os mercados financeiros a suportar eventuais novos abalos, como alertou recentemente Jamie Dimon, diretor executivo do JPMorgan Chase. Os maiores pacotes de compensação aos executivos são agora mais raros, e as firmas de Wall Street também enfrentam uma concorrência acirrada por parte do Vale do Silício na disputa pelos trabalhadores mais jovens e brilhantes. Mas as medidas gerais do setor financeiro dentro da economia indicam que - mesmo com alguns escritórios individuais e antigos titãs de Wall Street ainda em dificuldades - a indústria financeira como um todo está quase tão grande quanto jamais foi.

A recuperação da indústria é forte e ampla o bastante para indicar que a grande crise financeira do início do século 21 terá um efeito diferente de sua correspondente do século 20. Na esteira da Grande Depressão, a indústria financeira dos Estados Unidos encolheu muito - e permaneceu num estado mais humilde durante a maior parte das quatro décadas seguintes. A economia prosperou nesse período, sem crises financeiras maiores e reduzindo a desigualdade de renda em relação às décadas mais recentes.

Dessa vez, Wall Street retornou de maneira geral a um estado mais semelhante à empolgação dos anos 2000 do que às décadas de meados do século 20. O salário médio por empregado em período integral na indústria de valores mobiliários foi em média 2,2 vezes maior que a renda do trabalhador americano comum durante os 70 anos encerrados em 1999, chegando ao auge de 4,2 vezes em 2007. Recuperou-se para 3,6 vezes a renda do americano médio em 2013, e tudo indica que aumentou ainda mais desde então.

"Todos pensaram que 2008 seria o fim do mundo", disse Noah Schwartz, sócio da empresa de recrutamento de executivos Korn Ferry, especializada na indústria financeira. "Em 2009 e 2010 ainda nos perguntávamos se muitas coisas voltariam a ser como antes. Já se passou bastante tempo, mas, nos 18 meses mais recentes, houve uma sensível mudança para melhor."

Mas nem todos concordam que a recuperação tenha sido positiva. Na semana passada, o Fundo Monetário Internacional divulgou um relatório dizendo que o setor financeiro de muitos países importantes, entre eles os EUA, seria grande demais. Trata-se da mais nova obra de um filão de pesquisas segundo o qual um setor financeiro de grandes dimensões pode ser negativo para a economia como um todo.

Um setor financeiro dominante pode na verdade limitar o crescimento econômico e o padrão de vida da maioria. Pode drenar os trabalhadores mais talentosos, afastando-os do restante da economia, e criar ciclos de prosperidade e crise. Um setor financeiro grande cria muitos novos veículos por meio dos quais os consumidores e empreendimentos podem se endividar, e a alta no endividamento cria um ambiente de vulnerabilidade no qual pequenos choques podem se traduzir em imensas oscilações. 

A função central dos bancos, firmas de investimento e afins é canalizar o capital para o uso mais produtivo, e há poucas evidências indicando que o setor tenha desempenhado melhor essa função quando representava uma fatia maior da economia, como nos anos 1990 e 2000, em relação às décadas anteriores.

Stephen Cecchetti, economista da Faculdade de Administração Internacional Brandeis, estudou a relação entre a dimensão do setor financeiro de um país e o desempenho de sua economia, e descobriu que um setor financeiro demasiadamente grande tende a preceder um crescimento mais fraco na produtividade, que dá vida ao crescimento econômico.

“Quando a remuneração em Wall Street é tão alta em relação ao restante da economia, estamos criando incentivos para que as pessoas procurem trabalhar nessa indústria, sem que isso seja necessariamente o melhor para a sociedade como um todo”, disse Cecchetti.

Pesquisas de Thomas Philippon, da Universidade de Nova York, indicam que a indústria financeira americana se tornou menos eficiente no decorrer dos 130 anos mais recentes no sentido de canalizar o capital para o uso produtivo. E esse mesmo fenômeno pode ser um dos principais fatores contribuindo para a crescente desigualdade.

“Embora não haja dúvida que uma economia desenvolvida precisa de um setor financeiro sofisticado”, disse Luigi Zingales, economista da Faculdade de Administração Booth da Universidade de Chicago, em seu discurso presidencial à Associação Americana de Finanças este ano, “não há motivo teórico nem evidência empírica defendendo a ideia segundo a qual todo o crescimento do setor financeiro nos 40 anos mais recentes tenha sido benéfico para a sociedade”.

O papel adequado que cabe ao setor financeiro está até se convertendo num grande embate político de 2016 e além - por mais que atravesse as habituais divisões ideológicas. Populistas de esquerda e direita argumentam que o setor financeiro ainda é demasiadamente grande e poderoso, pedindo que a legislação busque limitar os voos da indústria, como nas propostas da senadora democrata Elizabeth Warren, de Massachusetts, e do senador republicano David Vitter, da Louisiana, voltadas para reduzir a probabilidade dos resgates para os bancos. Lobistas financeiros e seus aliados no congresso dizem que as regulamentações em fase de adoção representam pesados fardos e obstáculos para o crescimento.

Mais conteúdo sobre:
wall street

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.