Wall Street vai mal, mas economia dos EUA vai bem

Wall Street vai mal. Mas a economia americana está a caminho de uma robusta recuperação. Uma explicação para a desconexão entre o mercado de ações e a economia real é que o impacto da perda do valor das ações está sendo compensado pela queda da taxa de juros de longo prazo e pela depreciação do dólar. Outra razão, apontada pelos economistas, é que mais americanos têm dinheiro investido em casa própria do que em ações de empresas - e a valorização contínua desse mercado mantém as propriedades imobiliárias como a principal fonte de riqueza da grande massa de consumidores. Em seu depoimento ao Congresso, no início a semana passada, o presidente do Federal Reserve Board (Fed, o banco central dos Estados Unidos), Alan Greenspan, disse que a economia americana está em posição para decolar. "Os fundamentos estão dados para um retorno a um crescimento saudável e sustentado", disse ele, em seu depoimento semestral perante a Comissão de Finanças do Senado. "Os efeitos das recentes dificuldades continuarão por algum tempo", acrescentou Greenspan, referindo-se aos ataques terroristas de 11 de setembro do ano passado e às revelações mais recentes sobre corrupção na administração das empresas, que minam a confiança dos investidores. "Mas, uma vez que eles passem, e salvo um novo choque adverso, a economia dos EUA está aprumada para crescer a uma taxa de 3,5% a 4% até o fim do ano que vem." Esses números representam uma significativa revisão para melhor em relação à previsão de fevereiro, quando o Fed estimou a expansão do PIB americano em 2,5% a 3%, no mesmo período. Em seu depoimento, Greenspan procurou afastar a noção de que o declínio do mercado acionário poderá levar a economia americana para o buraco. O efeito dos escândalos sobre a atitude do investidores poderá afetar o ímpeto da retomada, mas não a recuperação em si mesma. O presidente do Fed, que denunciou a "ganância infecciosa" por trás das fraudes na administração das empresas, acrescentou que a rapinagem do dinheiro dos acionistas por altos executivos de grandes empresas é produto da fraqueza humana e não da fragilidade da economia. "Não é que os seres humanos tenham se tornado mais gananciosos", disse ele. "(O problema) é que os meios para expressar a ganância aumentaram enormemente." A conseqüência disso no mercado está à vista. Depois de cair pela nona semana consecutiva, o índice Dow Jones da Bolsa de Nova York fechou em 8.019,26 na última sexta-feira, seu ponto mais baixo desde outubro de 1998. A perda acumulada em 2002 supera 20%. Os escândalos fizeram três vezes mais mal ao mercado do que os atentados de 11 de setembro do ano passado. Depois dos ataques, o Dow Jones caiu 6,8% antes de achar o chão e voltar a subir. A perda das últimas nove semanas já soma 21,6%. Não há expectativa de melhora em Wall Street no futuro imediato. "Na minha opinião, o mercado continuará em queda e não iniciará nenhuma recuperação por algum tempo", disse James A. Harmon, ex-presidente do banco de investimentos Schroeder Wertheim & Co., que presidiu o Eximbank dos EUA durante parte da administração Clinton. Steven Rattner, da gestora de fundos Quadrangle Group, acha "plausível que a confusão continuará nos mercados financeiros e eles cairão ainda mais". Segundo ele, "esse é um período excepcionalmente difícil para fazer previsões com qualquer grau de confiança". FalhasUm estudo recente do Banco da Reserva Federal de Atlanta sobre prognósticos econômicos confirma a avaliação de Rattner. O levantamento, feito com base em 16 anos de previsões de um grupo de economistas reunidos a intervalos regulares pelo Wall Street Journal constatou que seus palpites são particularmente falhos nos momentos de transição da economia, como o atual. Por exemplo, nenhum dos autores de prognósticos ouvidos pelo Journal em dezembro de 2000 dizia que o Fed reduziria os juros de curto prazo de forma tão agressiva, como fez no ano passado, para responder à desaceleração econômica. Apenas um punhado anteviu a recessão de 2001 e nenhum previu que a economia cresceria a 6% ao ano no primeiro trimestre, como aconteceu. As informações sobre a economia real sugerem que os economistas que adotaram uma posição de otimismo cauteloso, como o experiente Greenspan, têm as maiores chances de acertar desta vez. No mês passado, os consumidores começaram a voltar às lojas e as vendas no varejo aumentaram 1,1% depois de terem declinado em maio. O números de novas casas em construção, um dado vital para se medir o vigor da economia americana, também aumentou de forma significativa. Os primeiros relatos indicam a recuperação do mercado de carros novos, graças, em parte, às ofertas de venda a prazo, sem juros, feitas pelas montadoras para vender os estoques de modelos 2002 antes dos lançamentos de 2003, que chegarão às concessionárias nas próximas semanas. As medidas de gastos dos consumidores, que arrefeceram no segundo trimestre, também estão dando sinais de recuperação. As estatísticas oficiais apontam para uma recuperação vigorosa já em curso no setor industrial, onde a produção aumentou em 0,8% em junho e o setor de manufaturas, sozinho, deu um salto de 0,7%. A produção do setor registrou um aumento de 4,2% nos três meses encerrados em junho, o maior ganho trimestral em dois anos. A razão por trás da recuperação industrial, segundo os economistas, é que as empresas reduziram seus estoques de forma tão drástica durante a recente recessão que estão arriscadas a perder vendas e fatia de mercado. Um outro forte sinal de que a economia real está reagindo, apesar de Wall Street, está no crescimento dos estoques. Em maio, eles voltaram a crescer, na indústria, no comércio atacadista e nas lojas, pela primeira vez em um ano e meio.

Agencia Estado,

20 de julho de 2002 | 23h50

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