Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

XP eleva projeção para o PIB de 2021 para 4,1%, apesar de vacinação 'turbulenta e incerta'

Estimativa anterior era de avanço de 3,2%; novas projeções estão apoiadas na economia global mais forte, com a alta do preço das commodities e juros baixos, e aumento na demanda interna

Aline Bronzati, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2021 | 08h59

A XP está mais otimista quanto ao desempenho da atividade brasileira neste e no próximo ano. Ainda que considere a vacinação "turbulenta e incerta", a maior corretora do País espera que o Produto Interno Bruto (PIB) local cresça 4,1% neste ano em relação a 2020, contra projeção anterior de expansão de 3,20%, conforme relatório publicado na segunda-feira, 10, e obtido com exclusividade pelo Estadão/Broadcast.

Para 2022, a XP espera que a economia brasileira avance 2,2%. Antes, projetava expansão de 1,80%. As novas projeções estão ancoradas, de acordo com o economista-chefe da XP, Caio Megale, em uma economia global mais forte, com a alta do preço das commodities e juros baixos, e uma demanda interna firme, a despeito das medidas de restrição para conter a piora da pandemia por aqui.

"Apesar da vacinação turbulenta e incerta, a economia foi bem. A demanda interna se mostrou muito mais resiliente ao fim do auxílio emergencial e em meio à segunda onda da covid-19 do que se esperava. Daqui para frente, vão entrar o auxílio, antecipação do 13º salário, programas de emprego e crédito", enumera ele, em entrevista ao Estadão/Broadcast.

Se por um lado o empurrão externo, com a alta do preço das commodities, e um ambiente local mais resistente a choques favorece o PIB, esses também são os principais fatores de risco para a inflação neste ano, segundo Megale. Diante disso, a XP elevou sua projeção para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a inflação oficial, e vê o indicador fechando 2021 em 5,40%, e não mais em 4,90%. Ou seja, assim como outras casas, já projeta inflação acima do teto da meta do Banco Central (BC) para este ano, que é de 5,25%.

E, a depender das chuvas - que estão fracas neste ano, o índice oficial brasileiro pode ir além disso. "Ainda tem um fator incerto (para a inflação). Não tem a ver com a atividade nem com o cenário externo: é a energia elétrica", alerta Megale.

O economista diz que a tendência lembra o "fatídico" ano de 2014, quando o setor de energia atravessou um ano de alerta. Se as chuvas não se intensificarem e a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) deixar a bandeira vermelha por mais tempo, o IPCA pode ser afetado. Na visão de Megale, esse cenário poderia acrescentar de 0,25 ponto porcentual a 0,50 pp na inflação deste ano. Para 2022, manteve os 3,50%.

A XP também revisou sua expectativa para os juros básicos do País, diante da inflação maior e do ritmo de crescimento mais acelerado. Assim, espera que a Selic encerre o ano de 2021 em 5,50% e não mais em 5,00%. Na projeção, estão implícitas mais duas altas de 0,75 ponto porcentual, uma na reunião de junho e outra no início do segundo semestre. Para finalizar, uma última de 0,50 ponto no encontro do Comitê de Política Monetária (Copom) de setembro.

"A economia está mais normal. Então, a normalização do juro tem de vir antes. Isso não é ruim. Na realidade, é bom", avalia Megale. Para ele, a Selic chega a 6,5% em "algum momento" do ano que vem e, em 2023, caminha mais para o "neutro", com a economia em um ritmo mais normal.

Sem avanço nas reformas

As novas projeções da XP não consideram, porém, que o governo Bolsonaro consiga avançar em alguma reforma, segundo o economista-chefe da casa. O que deve andar um pouco mais, diz, é a agenda micro. Nesse sentido, cita os novos marcos legais da cabotagem e de ferrovias e concessões, que têm avançado.

"No nosso cenário base, não colocamos isso (as reformas). Estamos sentindo um otimismo um pouco maior com a (privatização) da Eletrobrás. A reforma tributária, a administrativa e os Correios não vêm. Mas a Eletrobrás pode ser uma surpresa", diz Megale. "Pode ser a surpresa positiva."

Para o economista, ainda que o risco agudo fiscal, com o qual o Brasil flertou em março, tenha ficado para trás, há uma "situação crônica" e que tem de ser endereçada. O desfecho da batalha do Orçamento para 2021 foi importante para isso, na sua visão, protegendo o teto de gastos, mas há uma compressão "muito grande" das despesas discricionárias, aquelas sobre as quais o governo tem algum poder de decisão. E o cenário, adverte, pode piorar a depender dos ajustes adicionais do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira.

Em relação à CPI da covid-19, que tem roubado a cena, o economista avalia que, "curiosamente", o movimento pode ajudar a equipe econômica. De quebra, contribui para a permanência de Paulo Guedes à frente da Economia. Para Megale, a CPI tira o foco da economia e joga os holofotes na política. "O estoque de tensão é meio constante no setor público. Só vai mudando de ministério. Tira um pouco o foco (do ministério da Economia)", avalia Megale.

Ele, que já fez parte da pasta, acha que Guedes fica. Do contrário, diz, as pessoas alvo das recentes mudanças no ministério não teriam topado os novos cargos.

Sem a aprovação de reformas no front, a XP manteve sua projeção para o câmbio neste ano em R$ 5,30. "O risco fiscal crônico continua. Com uma dívida-PIB alta e a dificuldade de avançar nas reformas, a gente não pega a experiência completa positiva que o mundo está nos oferecendo", avalia Megale.

Para o economista, se o Brasil estivesse "mais arrumadinho", o câmbio poderia estar mais para R$ 4,40, R$ 4,30, com uma inflação muito mais baixa e a economia se recuperando muito mais rápido. "Além do risco crônico fiscal, tem também o tempero político. Ali, a partir do momento que a pauta eleitoral ficar mais clara, começa a trazer volatilidade e mais incerteza", conclui.

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