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Yiwu, o paraíso de bugigangas que atrai brasileiros

A economia da cidade chinesa gira em torno de um megacentro de compras de 4 milhões de metros quadrados, com 62 mil boxes, por onde circulam diariamente 400 mil pessoas

Cláudia Trevisan, YIWU,CHINA, O Estadao de S.Paulo

21 de março de 2010 | 00h00

Desde 2008, Antonio Casimiro Lopes atravessou o mundo três vezes para fazer compras em Yiwu, a cidade chinesa que é a fonte global de bugigangas e produtos populares que alimentam as lojas de R$ 1,99 de todo o Brasil e o comércio popular da 25 de Março, em São Paulo. Na mais recente visita, há duas semanas, ele arrematou cerca de mil itens diferentes, que revende a outras lojas por meio de sua atacadista, a Top Tudo.

Os negócios em Yiwu ocorrem dentro de um megashopping center, cujas proporções superam as de muitas cidades pequenas do Brasil. São 4 milhões de metros quadrados, algo como 30 shoppings Iguatemi, com 62 mil boxes, onde circulam diariamente 400 mil pessoas.

Preço baixo e variedade infinita é o que atrai comerciantes de todo o mundo. Com o aumento do consumo popular no Brasil e o câmbio favorável às importações, o número de brasileiros em Yiwu está em alta. No dia 2 de março, havia pelo menos 26 na cidade, vindos de São Paulo, Fortaleza, Recife, Ouro Preto e Indaial (SC).

No ano passado, as exportações de Yiwu para o Brasil atingiram US$ 67,32 milhões, quase o dobro dos US$ 34,35 milhões registrados em 2008, quando 1.802 brasileiros estiveram na cidade.

O governo local não tem o número de visitantes brasileiros de 2009, mas o salto nas exportações indica que ele aumentou.

No imenso mercado de Yiwu é possível encontrar de tudo, de algemas para sex shops a imagens religiosas vendidas em Aparecida do Norte, cidade de São Paulo. Entre esses dois extremos, há enfeites, bijuterias, botões, zíperes, artigos para casa, canetas, material para esportes, meias, maquiagem, eletrônicos, bolsas, óculos, relógios, embalagens, canetas, brinquedos, acessórios para roupas, lingerie e inúmeras coisas cuja existência é desconhecida pelo comprador até que ele a vê em Yiwu.

"Adorei, adorei, adorei", repetia o paulista Marco Antonio, que se prepara para fechar sua loja de CDs e DVDs _ "verdadeiros", diz ele, para abrir uma importadora. "O preço é mais baixo do que eu esperava", afirmou o comerciante, na sua primeira visita à China.

Colares podem ser comprados pelo equivalente a R$ 2,00. Os mais sofisticados chegam a R$ 5,20. Brincos custam em torno de R$ 0,50. Cartelas com 12 presilhas de pressão saem a R$ 0,12. Com R$ 10 é possível comprar um carrinho eletrônico com controle remoto que dá cambalhotas para todos os lados. O conjunto de roupão com chinelo atoalhado é levado por R$ 14,50. Echarpe de algodão com fios prateados custa R$ 1,68 e 12 pares de meia soquete feminina saem por R$ 11,70.

Caminho inverso. Fabio Caliman tinha uma loja na 25 de Março e viajou pela primeira vez a Yiwu em 2001. Em 2007, decidiu mudar de lado: deixou o negócio no Brasil e se estabeleceu na cidade chinesa, onde abriu uma empresa, a Skiway, para dar apoio aos brasileiros que vão ao local em busca de produtos populares.

No primeiro ano, teve 30 clientes. O número subiu para 45 em 2008 e 60, em 2009. O começo de 2010 foi promissor: nos primeiros dois meses do ano, Caliman já levou 30 brasileiros a Yiwu. "A nossa moeda está estável, o preço aqui é muito baixo e a variedade é fantástica. Não há nenhum outro lugar no mundo com essas características."

No dia 2 de março, Mauro Eduardo Ricciardi fazia sua quarta viagem a Yiwu em um ano. Sua missão era comprar bijuterias e acessórios femininos para sua rede Mil Opções, que tem 15 lojas no Ceará, Rio Grande do Norte e Maranhão. "Cerca de 30% do que vendemos vêm daqui. O resto vem de São Paulo, de importadoras que também compram aqui", afirmou Ricciardi, que fazia parte de um grupo de 12 brasileiros levados a cidade por Caliman.

Os comerciantes não revelam a margem de lucro com que trabalham, mas especialistas no setor acreditam que gira em torno de 100%. Os compradores ressaltam que têm de pagar os impostos sobre entrada das mercadorias no Brasil e arcar com os custos de operação de seus negócios.

Entre os cerca de mil itens comprados por Casimiro Lopes estava um lote de 14,4 mil bibelôs de resina, feitos à mão em uma fábrica familiar que emprega 60 pessoas. A vendedora informa que elas trabalham de segunda a segunda das 7h30 às 23h e recebem por produção - quanto mais bonequinhos fizerem, mais ganham.

O preço de um bibelô pequeno em Yiwu é de R$ 0,36 e Casimiro Lopes acredita que ele pode ser vendido no atacado no Brasil a R$ 1,70 e, no varejo, a algo entre R$ 2,50 e R$ 3,00.

A maioria esmagadora dos compradores de Yiwu é de chineses de outras regiões do país. Mas, a cada dia, quase 10 mil compradores estrangeiros circulam pelos corredores do mercado. A cidade recebeu no ano passado 320 mil visitantes estrangeiros e exportou US$ 2,14 bilhões para 189 países.

O Brasil aparece em oitavo lugar na lista de principais mercados de Yiwu, depois de Estados Unidos, Emirados Árabes Unidos, Alemanha, Espanha, Rússia, Inglaterra e Itália. Outros grandes destinos das exportações são Irã e Índia.

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