Felipe Telles
Felipe Telles

Douglas Gavras e Raquel Brandão, O Estado de S.Paulo

20 Agosto 2018 | 05h00

A gaúcha Júlia Mendonça, de 32 anos, hoje dá dicas de finanças pessoais em seu canal no YouTube, mas já chegou a dever R$ 80 mil. “Eu era uma superendividada. Quando meu namorado, hoje marido, e eu começamos a trabalhar, ganhávamos muito bem e não estávamos prontos para lidar com tanto dinheiro.”

Ela conta que eles não tinham o menor planejamento financeiro. O casal ganhava não guardava o dinheiro que entrava. Eles saíam para jantar fora todos os dias, fizeram curso de mergulho, compraram instrumentos musicais e viajavam todo ano.

“Quando a gente percebeu, tínhamos entrado no cheque especial, atrasado as prestações do apartamento que estávamos comprando – e que quase perdemos. A gente não tinha nem R$ 50 no bolso.”

Quando ficaram sem saída, Júlia resolveu se informar e fazer cursos de finanças pessoais. Colocaram todas as pequenas despesas no papel e fizeram um plano para quitar as dívidas em até três anos. “A gente acabou ficando no azul em um ano e meio e troquei uma empresa de comércio exterior pela consultoria financeira, em 2015.”

No começo, ela prestava consultoria para clientes e fazia vídeos amadores no Facebook, até começar um canal no YouTube, no fim de 2016, hoje com mais de 130 mil inscritos. “Antes, o foco eram as pessoas endividadas, falava de planejamento financeiro e dava exemplos práticos de coisas que eu fiz para sair do vermelho. Hoje, a maior parte dos vídeos é para quem quer investir.”

Ela conta que, apesar de o número de canais na plataforma que dão dicas para investidores ter aumentado nos últimos anos, é preciso sempre alertar os seguidores sobre os cuidados com o endividamento. “Tenho um pouco de receio de esse interesse por investimentos ser um amor de verão. As pessoas tendem a entrar de cabeça em novas possibilidades para investir e se esquecem que saber o básico de finanças é muito importante.”

Mais conteúdo sobre:
inadimplência

Encontrou algum erro? Entre em contato

Brasil tem ‘uma Itália’ de inadimplentes

Total de pessoas com contas atrasadas, que atingiu 63,4 milhões, é quase equivalente à população do país europeu; embora mais pobres ainda representem maior parte dos afetados, índice de inadimplência cresce nas faixas de renda superior

Douglas Gavras e Raquel Brandão, O Estado de S.Paulo

20 Agosto 2018 | 05h00

O Brasil nunca teve tantos inadimplentes. Em julho, o total de brasileiros com dívidas em atraso chegou a 63,4 milhões, segundo o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), contingente quase equivalente à população da Itália. O número assusta, porque a série histórica mostrava uma melhora na inadimplência de março a setembro de 2017, diz Marcela Kawauti, economista-chefe do SPC Brasil. No entanto, a reversão das expectativas da economia afetou essa trajetória. 

Os mais pobres ainda são os que mais devem, mas é entre as famílias de maior renda que a inadimplência tem resistido, indica a mais recente pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Enquanto o porcentual de famílias de menor renda com dívidas pendentes caiu de 29%, em julho de 2017, para 26,7%, agora, no grupo com renda superior a dez salários mínimos, o índice de inadimplentes alcançou 10,8%, ante 10,6% do mesmo mês do ano passado.

 

Sempre emprego

A paulistana Júlia H.P., que pediu para não revelar o sobrenome, espelha essa classe mais alta que está com contas atrasadas. Autônoma, recebia cerca de R$ 15 mil na empresa em que trabalhava, mas perdeu o emprego quando engravidou. 

A situação piorou quando Júlia foi abandonada, durante a gestação, pelo pai de seu filho. “Foram cinco meses sem trabalho e sem licença-maternidade. Como tinha acesso fácil a crédito, usei tudo. Fiquei devendo condomínio, internet, cheque especial, empréstimo bancário, carta de crédito… tudo.” 

De volta ao mercado de trabalho, ela tenta agora se reestruturar, apesar do salário mais baixo. Refinanciou o carro e fez novo empréstimo no banco para pagar as contas mais urgentes. “Minha dívida no cheque especial ainda é surreal.” 

Comportamento não muda conforme a renda

A economista-chefe do SPC Brasil, explica que, em geral, o comportamento dos endividados não muda conforme a renda. “As classes altas têm mais margem de manobra, mas, em grande parte das vezes, quanto mais a pessoa ganha, mais gasta.” Economista da CNC, Marianne Hanson lembra que as famílias de maior renda têm acesso a crédito de melhor qualidade, com juro menor e prazo maior.

Para os especialistas, no entanto, a crise não ensinou muito aos brasileiros em termos de controle de gastos ou consumo consciente. “A gente achou que a crise promoveria mudanças de comportamento, mas isso só ocorreu no curto prazo. No longo prazo, mais estratégico, nada mudou”, lamenta Marcela, do SPC Brasil.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Deixar de pagar água e luz vira ‘estratégia’

Como os juros das contas básicas são bem mais baixos do que os cobrados pelos bancos, brasileiros passam a fazer ‘rodízio’ desse tipo de pagamento

Douglas Gavras e Raquel Brandão, O Estado de S.Paulo

20 Agosto 2018 | 05h00

Correções: 20/08/2018 | 11h00

Em um momento de aperto, o brasileiro está deixando de pagar principalmente as contas básicas, como as de água e luz. O calote nesses débitos subiu 7,6% nos 12 meses encerrados em julho, segundo o SPC Brasil. No mesmo período, as dívidas bancárias – como cheque especial, empréstimos pessoais e cartão de crédito – subiram 6,9%.

 A decisão sobre qual conta atrasar, segundo o SPC e a Serasa Brasil, está ligada ao fato de que os juros, nas contas de água e luz, serem bem mais baixos do que os cobrados em débitos ligados a instituições financeiras. Além dos juros mais baixos, o reajuste das contas básicas superou – e muito – a inflação. Enquanto o IPCA, principal índice de inflação, subiu 4,48% nos 12 meses acumulados até julho, a inflação da energia elétrica medida pelo IBGE subiu 18,02%. 

Desta forma, o Brasil formou uma legião de “equilibristas” de contas, de acordo com a economista-chefe do SPC, Marcela Kawauti. “O jeito é manter algumas contas em dia, enquanto o orçamento está apertado.”

É justamente isso o que tem feito a viúva Rita A., de 52 anos, que pediu para ter a identidade preservada. Em alguns meses, a conta de luz é a eleita para ser paga depois; em outros, os boletos do condomínio ou do telefone ficam na gaveta. A situação ficou mais complicada há poucos meses, quando uma carta de cobrança chegou com a informação de que ela devia cerca de R$ 9 mil do financiamento de seu apartamento. 

“Meu filho estava na faculdade e precisou sair do trabalho para poder estagiar, então deixei de pagar as parcelas do imóvel e só voltei a pagar quando ele já estava formado e trabalhando. Agora, tenho tentado pagar uma das parcelas atrasadas e uma das atuais por mês.”

Causa. Para Giresse Contini, gerente do Serasa Consumidor, o desemprego é a principal variável que eleva o total de inadimplentes no País. A taxa de desemprego no segundo trimestre ficou em 12,4%, segundo o IBGE. No fim do primeiro trimestre, um trabalhador da Grande São Paulo levava quase um ano procurando emprego, em média, aponta a Fundação Seade e o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

Segundo a economista Juliana Inhasz, do Insper, a inadimplência acaba se tornando crônica pelos altos juros. Desta forma, as prestações atrasadas acabam explodindo de valor.

Correções
20/08/2018 | 11h00

Caro leitor,

O nome do gerente do Serasa Consumidor estava grafado errado: Gireffe. O correto é Giresse Contini. 

 

 

Mais conteúdo sobre:
inadimplência

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.