Youtuber, mas à frente de uma empresa

Youtuber, mas à frente de uma empresa

Celebridades da internet faturam milhões ao ano, geram emprego, licenciam produtos e diversificam atuação

Lílian Cunha, ESPECIAL PARA O ESTADO

22 de outubro de 2018 | 06h00

Foi depois de ir ao dentista que o mineiro Marco Túlio Vieira, dono do canal AuthenticGames no YouTube, arranjou um tempinho para dar entrevista ao Estado. Era uma quarta-feira. No fim de semana anterior, ele estava fazendo shows em Belém. Voou de volta a Belo Horizonte onde mora, na segunda-feira. Mas teve de ir a São Paulo na terça, para gravar um programa de TV com a apresentadora Eliana. Voltou para BH, viu a família e depois já ia seguir para Porto Alegre, onde tinha mais shows marcados para o final de semana seguinte.

Parece agenda de empresário, presidente de multinacional. Mas Marco Túlio, 22 anos, é youtuber. O menino que começou a postar na rede social suas tardes jogando Minecraft (um dos games mais populares do mundo) hoje fatura cerca de R$ 39 milhões por ano (segundo dados do Socialblade, que mede o valor dos produtores de conteúdo do YouTube – e que Marco Túlio não comenta). 

O youtuber tem uma equipe de 30 pessoas – editores de vídeo, produtores e administradores de produtos licenciados, que vão de chinelos e bonecos a roupa de cama. Já postou mais de 2,7 mil vídeos. Lançou cinco livros sobre games que já chegaram a 600 mil exemplares vendidos. Em 2016, abriu uma franquia de escola de robótica. Em contrato com a Sony, tem até seu próprio desenho animado em DVD. “É cansativo. Não dá, por exemplo, para fazer faculdade agora, mas sou muito grato por poder viver tudo isso”, lembra Marco Túlio, que confessa: “Já enjoei de jogar; tudo que é em excesso faz mal”.

Assim como ele, outros youtubers conquistaram tanto sucesso que já podem começar a se apresentar como empresários. Um deles é o carioca Daniel Saboya. Formado em educação física, ele começou em 2012 a postar vídeos com coreografia de funks para divulgar suas aulas. Os vídeos eram bem tumultuados e não faziam muito sucesso: mostravam a turma toda dançando e, para quem assistia, era difícil acompanhar a coreografia. “Foi aí que as minhas duas alunas, hoje minhas dançarinas, a Izabela Leite Lima e a Rosana Maria Marquez, deram a ideia de fazer os vídeos só com nós três dançando, para ficar mais fácil de acompanhar.” 

Ao mudar a estratégia, eles passaram a atingir a casa dos milhões de visualizações. Hoje, a Cia. Daniel Saboya tem 10,3 milhões de inscritos em três canais: um com as músicas e as danças, um só com o passo a passo das coreografias e outro dedicado ao Studio Daniel Saboya, a academia que inaugurou no ano passado, em Jacarepaguá – hoje com 200 alunos. 

Ele não conta quanto investiu na academia, nem quanto fatura. Mas de acordo com o site Socialblade, Saboya já passou dos R$ 10 milhões anuais. “Não é bem assim”, diz ele. E explica: “com o primeiro canal, o que tem as músicas, eu não ganho nada: 100% da arrecadação vai para os detentores dos direitos autorais dos funks.” Foi por isso que ele resolveu criar o outro canal, só com coreografia. Mas Saboya foi além dos anúncios no YouTube para faturar: dá aulões de dança em praças e shoppings de todo País e faz parcerias com artistas e gravadoras para divulgar músicas por meio dos vídeos de dança. Também faz muita festa de 15 anos. 

Mercado de nicho. No Brasil, há mais de 800 canais do YouTube com mais de 1 milhão de inscritos. Como se destacar numa selva de vídeos como essa? Para Carina Fragozo, dona do canal “English in Brazil”, o segredo é se especializar em um tema, em um nicho. Ela, por exemplo, dá dicas para melhorar o aprendizado da língua inglesa. Isso, diz Carina, funciona tanto para atrair audiência, quanto para os anunciantes. E explica: “Em 2017, fui convidada com outros influenciadores por uma marca para ir a Irlanda, divulgar um curso de inglês no exterior. Esses outros criadores tinham milhões de inscritos no canal deles. Eu, 758 mil. Mas só eu era focada em aulas de inglês. Resultado? O meu retorno foi três vezes maior que o deles para o anunciante”, diz Carina, que deixou a vida acadêmica para se tornar empresária de YouTube.

Carina tem sua própria equipe, que inclui um editor e um administrador da parte comercial. Ela deve lançar seu primeiro livro ainda este mês e se prepara para, no ano que vem, ter sua própria plataforma online – paga – de ensino de inglês. Ela não revela o quanto fatura. Diz que não chega ainda a R$ 1 milhão por ano. “Mas ganho mais do que se estivesse dando aulas na universidade.”

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