Yuan avança como 'moeda global'

Moeda chinesa já faz parte das reservas internacionais de pelo menos três países, e crescem as transações comerciais feitas com yuan

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2012 | 03h05

Apesar das restrições à sua livre conversão, o yuan é cada vez mais usado fora das fronteiras da China e já integra as reservas de pelo menos três bancos centrais. No ano passado, cerca de 10% do comércio do país com o restante do mundo foi feito na moeda local, e o primeiro bônus em yuans fora da China e Hong Kong acaba de ser lançado em Londres, com demanda duas vezes superior à oferta.

O processo de internacionalização do yuan se acelerou em 2011, após o agravamento da crise europeia e do rebaixamento do risco soberano dos EUA por agências de rating, e deverá ganhar mais fôlego a partir de agora. A China adotou nas últimas semanas uma série de medidas para ampliar a aceitação do yuan e fortalecer seu incipiente status como moeda global.

Há uma semana, o Banco do Povo da China dobrou para 1% o espaço no qual o yuan pode flutuar acima ou abaixo da cotação definida diariamente pelo governo, em um passo importante no caminho de sua transformação em uma moeda conversível, que tenha aceitação global.

As apostas agora são sobre quando as notas estampadas com o rosto de Mao Tsé-tung vão ultrapassar o iene japonês e assumir o terceiro lugar entre as moedas usadas no mundo, atrás do dólar e do euro. Em estudo publicado em 2011, o Banco Mundial colocou a data em 2025, enquanto 1.300 economistas que participaram de pesquisa online da Bloomberg acreditam que a mudança virá antes, em 2020.

Os bancos centrais de pelo menos três países se anteciparam e começaram a incluir o yuan em suas reservas. Em setembro de 2011, a moeda chinesa respondia por 0,3% dos US$ 38 bilhões em recursos internacionais geridos pelo Chile. Até o mês passado, a Nigéria havia convertido 1,4% de suas reservas para o yuan e planeja elevar o porcentual a 10% no futuro. A Malásia foi pioneira e adicionou a moeda chinesa às suas reservas em 2010, mas não revela sua participação no total.

Enquanto a disseminação do dólar se deu em grande parte pelas forças de mercado, a internacionalização do yuan é capitaneado pelo governo chinês, que começou a questionar abertamente a supremacia da moeda americana em 2009.

Três anos depois, as notas com o rosto de Mao obtiveram um grau de aceitação que era impensável na época. "A velocidade da internacionalização surpreendeu", disse Daniel Hui, estrategista sênior de câmbio do HSBC em Hong Kong.

O comércio é o terreno no qual a presença do yuan se disseminou mais rapidamente. O movimento começou em 2009, com projetos pilotos restritos a algumas regiões chinesas, e se estendeu a todo o país no ano seguinte. "As operações feitas em renminbi atingiram 10% do total das exportações e importações no ano passado, um salto significativo em relação aos 3% de 2010", observou Rani Gu Wei, do Citibank em Hong Kong, usando o outro nome pelo qual a moeda chinesa é conhecida.

O volume do comércio da China com o restante do mundo foi de US$ 3,64 trilhões, e o porcentual que foi realizado em yuan supera o valor total das exportações brasileiras no ano.

"É natural que o renminbi seja usado no comércio, mas sua transformação em uma moeda de reserva de valor vai depender da confiança internacional na política monetária do país ", afirmou a ministra conselheira da Embaixada do Brasil em Pequim, Tatiana Rosito.

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