Zoellick critica reação ao livre comércio nos EUA

O representante comercial dos Estados Unidos, Robert Zoellick, admitiu, nesta quarta-feira,a empresários brasileiros, que é muito difícil para ele conseguir mais apoio para o livre comércio nos EUA.Ele disse que o país continua comprometido com o livre comércio, mas há forças políticas que impedem o avanço.Em relação ao aço, Zoellick explicou que as salvaguardas temporárias contra as importações de aço têm como objetivo reestruturar a indústria siderúrgica norte-americana, reduzir a capacidade ociosa e buscar o retorno da lucratividade.DiferençasEle calcula que 87% das exportações brasileiras de aço para os Estados Unidos não serão afetadas pelas salvaguardas, justamente como um sinal de parceria e integração econômica construtiva entre o Brasil e os Estados Unidos.Ele disse que espera que os parceiros comerciais dos Estados Unidos respondam às salvaguardas ao aço da mesma forma que os Estados Unidos adotaram as medidas, ou seja, com base nas regras multilaterais de comércio. "Se houver diferenças, devemos debatê-las dentro da OMC", afirmou, durante discurso na Câmara Americana de Comércio em São Paulo.Longo prazoZoellick, admitiu que, durante muito tempo, seu país ignorou a evolução do Brasil, o que gerou, muitas vezes, incertezas sobre o futuro do Brasil e provocou entre os investidores muita cautela e hesitação para se envolver com o País.Agora, no entanto, a combinação de preços estáveis e as reformas que capacitaram o País para a economia global geraram um clima bastante favorável a planos e investimentos de longo prazo.Ele ressaltou que a Microsoft, por exemplo, está no processo de estabelecer seis centros para desenvolvimento de programas de computador no Brasil dentro dos próximos 18 meses.O Brasil, continuou, é hoje o segundo maior mercado mundial para jatos executivos, celulares, máquinas de fax. Além de ser o terceiro em refrigerantes. "Eu reconheço que essa reorientação da economia brasileira ainda está em andamento. Será o grande desafio da próxima administração brasileira manter essa base", afirmou.Incógnita, o mercado do açoZoellick disse que não tem idéia do que vai acontecer com a indústria mundial de aço, mas admitiu que, com a recuperação da economia norte-americana, os EUA podem precisar de muito mais aço do que necessitam hoje.Zoellick disse que a indústria mundial do aço é ainda muito subsidiada e que isso tende a acabar. Os EUA, afirmou Zoellick, estão engajados num esforço global para diminuir a oferta mundial de aço. Ele ressaltou que 50 mil trabalhadores perderam seus empregos na indústria siderúrgica norte-americana.Zoellick, o primeiro membro da administração Bush a visitar o Brasil, afirmou que não está no País para negociar nada. Veio apenas para saber como está a economia do Brasil e mostrar respeito ao gabinete do presidente Fernando Henrique Cardoso.Na avaliação do embaixador, a sobretaxa imposta ao aço não deve provocar um boicote internacional contra produtos norte-americanos, nem por parte da indústria, nem dos consumidores."Todo mundo compra por qualidade e preço. A questão do aço é muito localizada", afirmou o embaixador durante coletiva na Câmara Americana de Comércio. Ele disse, ainda, que está feliz por poder vir ao Brasil e esclarecer para a mídia toda as questões que levaram os EUA a adotar a sobretaxa para alguns tipos de aço.Zoellick esteve em Brasília, onde conversou com o presidente Fernando Henrique Cardoso e os ministros Celso Láfer (Exeterior) e Pedro Malan (Fazenda).Ajuda à ArgentinaO representante comercial dos Estados Unidos, Robert Zoellick, afirmou que, sendo o vizinho mais influente e maior parceiro da Argentina, o Brasil tem um papel fundamental na recuperação argentina. Mas admitiu que os EUA também devem apoiar um profundo e sustentável programa de reformas da Argentina.Ele disse que o Brasil ainda pratica altas tarifas de importação (média de 13%), o que aumenta os preços e reduz a possibilidade de escolha de produtos entre empresários e consumidores. Segundo ele, uma economia mais aberta também vai ajudar a conter um dos maiores entraves ao crescimento econômico e à confiança pública, que é a corrupção.Ele citou em estudo da FGV-SP, segundo o qual o País praticamente dobraria seu PIB per capita em duas décadas se os níveis de corrupção fossem reduzidos em apenas 10%.Reação protecionistaA ação dos Estados Unidos de sobretaxar a importação de vários tipos de aço deve desencadear uma reação protecionista em todos os países que têm indústria siderúrgica, inclusive no Brasil. A Europa já sinalizou claramente que vai se proteger contra uma invasão do aço que deixará de ir para os EUA.A indústria siderúrgica brasileira, por exemplo, já pediu ao governo para sobretaxar em 30% as importações de aço, como forma de se proteger contra o excedente exportável de outros países. Ao mesmo tempo, há cerca de três semanas, o governo começou a monitorar as importações de aço para impedir dumping ou qualquer outro tipo de irregularidade comercial."Neste momento, é muito difícil a siderurgia brasileira achar novos mercados, porque todo mundo vai correr para os países abertos comercialmente e, em conseqüência, esses países vão fechar-se", afirmou um dos principais especialistas em aço do País, Germano Mendes de Paula, professor da Universidade Federal de Uberlândia. Para Mendes de Paula, as siderúrgicas nacionais tendem, agora, a se concentrar mais no mercado interno, com produtos de margem menor e aumento da capacidade ociosa."Nada que leve a um reajuste do setor no Brasil, que afinal é formado por apenas 10 empresas, mas o fato é que, se até hoje as margens eram razoáveis, a partir de agora elas vão diminuir", afirmou.Ele não acredita em grande queda nos preços do aço, pois eles já estão bastante deprimidos. Reduções ainda maiores levariam a falências em diversas partes do mundo.O que deve acontecer, por conta das sobretaxas protecionistas, é que os preços internos dos países serão maiores do que os praticados no mercado internacional, justamente porque têm de pagar tarifas altas para importar.

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