Zona de turbulência

Então fica combinado: a nova equipe econômica do governo Dilma vai fazer os ajustes necessários e corrigir os equívocos do passado recente. Melhor apertar os cintos. Vai chacoalhar no começo, mas logo em seguida as incertezas serão menores, a confiança será retomada, os investimentos voltarão e o crescimento da renda e do emprego estará assegurado. No final, vai dar tudo certo e o pouso será suave. Será mesmo?

LUÍS EDUARDO ASSIS, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2015 | 02h02

A agenda anunciada pela nova equipe é tão urgente quanto necessária. As concepções teratológicas da "nova matriz econômica" inventada pela equipe anterior cometeram, pelo menos, quatro aberrações que exigem correção imediata: 1) uma política fiscal expansionista em situação de virtual pleno-emprego; 2) o represamento de preços administrados como forma de combater a inflação; 3) o corte de juros quando a expectativa de inflação se eleva, na suposição de que juros altos são apenas um exercício de autoflagelação; e 4) a promoção de desonerações e de subsídios creditícios discricionários, imaginando que isso possa alavancar novos investimentos.

Com esse arsenal de bizarrices, tinha tudo para dar errado - e deu. Como dizia o Barão de Itararé, de onde menos se espera, dali é que não sai nada mesmo. A trajetória definida no primeiro mandato de Dilma Rousseff nos levaria a uma contínua deterioração das finanças públicas e à perda do grau de investimento, o que poderia deflagrar uma nova sequência de idiossincrasias estrambóticas e uma crise econômica de graves proporções.

A herança que a presidente Dilma deixou para a presidente Dilma é da pior qualidade. A queda da produção industrial é particularmente preocupante. Estudo publicado no final de 2014 (Estratégias de Desenvolvimento nos Brics: Uma Análise Insumo-Produto, N. Marconi, G. Magacho e Igor Rocha) joga luz sobre uma velha polêmica entre os economistas e confirma, por meio de metodologia quantitativa, que o setor manufatureiro é o que apresenta maior inter-relação com outros setores.

O impacto do dinamismo da indústria sobre a economia como um todo é muito maior do que, por exemplo, o do setor exportador de commodities. O crescimento industrial se multiplica e se reproduz de maneira ampliada em outros segmentos, mas, da mesma forma, sua retração também tem efeitos contracionistas mais severos, já que se desdobram sobre o quadro geral. É possível estimar que a produção industrial brasileira tenha fechado o ano com uma queda de 4%, o pior resultado desde 2009. Também o nível de emprego foi afetado. Levando em conta os números de novembro divulgados pelo Ministério do Trabalho, a indústria deve ter cortado cerca de 200 mil postos de trabalho no ano passado. Para comparação, foram criados 2,13 milhões de empregos industriais ao longo dos dois mandatos do presidente Lula e quase 300 mil postos adicionais entre 2011 e 2013.

Um novo ciclo de expansão depende da recuperação do nível de confiança. Um modelo econométrico sem maiores sofisticações mostra que 86% da variação da produção industrial anualizada pode ser explicada pelas variações dos índices de confiança dos dois meses anteriores. O índice de confiança na indústria, calculado pela Fundação Getúlio Vargas, caiu 13% no ano passado e registrou o menor índice dos últimos 16 anos.

Reação. Como promover a recuperação da confiança, se o nível de atividade vai continuar caindo? Há otimistas que imaginam que o reequilíbrio macroeconômico será suficiente para promover essa reação. Mas a lista de tarefas a que se impôs o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, se concentra em corrigir os erros do passado.

Aumentar o superávit primário, por exemplo, pode estabilizar a relação dívida/PIB e agradar às agências de avaliação de risco, mas é duvidoso que os consumidores e empresários alterem suas decisões de consumo e de investimento em função apenas da perspectiva de melhora nos indicadores macroeconômicos. Os investimentos serão retomados quando as perspectivas de lucratividade forem mais otimistas, mas a visão de um futuro róseo pode ser retardada por um nível de atividade corrente deprimido. Em suma, o crescimento pode demorar.

De palpável, no curto prazo, existe a realidade inescapável de que o ajuste é - porque não há escolha - recessivo. Teremos inflação ainda alta, elevação da carga tributária, corte de gastos públicos (portanto, por definição, diminuição da receita do setor privado), juros mais altos, corte de subsídios, restrições ao crédito, desaceleração da massa de salários e aumento do desemprego.

Ao longo do tempo, este quadro tem tudo para ceder espaço para a retomada da confiança, com o que o crescimento poderá novamente vingar. O fato, contudo, é que esse roteiro não se coaduna com a fragílima correlação de forças políticas que dá sustentação à presidente Dilma Rousseff. O amálgama que dá um mínimo de consistência ao governo federal tem sido o crescimento do emprego e da renda, justamente o que deve fraquejar em 2015.

Faltam convicção e credibilidade à coalizão de partidos alojada na Esplanada dos Ministérios para pedir sacrifícios e sustentar para seus eleitores, apaniguados e financiadores que o ajuste contracionista proposto pelo ministro Joaquim Levy é a melhor alternativa que temos no momento. O loquaz ministro da Casa Civil, ele próprio, fez veemente defesa da política anterior poucos dias antes da escolha da nova equipe, o que prenuncia atrito.

A conclusão é preocupante: a estratégia do novo ministro da Fazenda é necessária, mas impopular. Se a confiança - esta entidade etérea - voltar a tempo de promover a retomada do crescimento na preparação das eleições municipais de 2016, tudo pode dar certo. Do contrário, estaremos expostos aos riscos de uma grave crise política.

*Luís Eduardo Assis é economista, foi diretor de política monetária do Banco Central do Brasil e Professor da PUC-SP e FGV-SP

E-mail: luiseduardoassis@gmail.com

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