Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

Abilio no Carrefour reacende discussão sobre conflito de interesses

Executivo detém ações e participa dos conselhos de administração de duas empresas que têm relações comerciais entre si

MARCELA AYRES, REUTERS

18 Dezembro 2014 | 13h05

A entrada de Abilio Diniz no Conselho de Administração da unidade brasileira do Carrefour traz novamente à tona a questão de possível conflito de interesses, uma vez que o empresário também comanda o Conselho de Administração da BRF, importante fornecedora da segunda maior varejista do país.

O assunto já havia acirrado ânimos em 2013, ano em que Abilio, ainda presidente do Conselho do Grupo Pão de Açúcar, foi nomeado para a presidência do Conselho da fabricante de alimentos BRF.

Na época, o francês Casino, controlador do GPA, cobrou a renúncia de Abilio do conselho da companhia fundada por seu pai, apontando "evidente conflito de interesses, decorrente das intensas e relevantes relações entre as duas empresas".

O assunto foi resolvido com a saída definitiva de Abilio do GPA em setembro do ano passado, quando abriu mão de todos os direitos políticos na companhia após intensa troca de farpas com o sócio francês, sendo liberado da cláusula que estabelecia não competição com a empresa.

O retorno do empresário ao varejo de supermercados, agora ao lado do maior rival do GPA no Brasil, abre caminho para o mesmo questionamento: com operações de varejo alimentar semelhantes em termos de receita, tanto Carrefour quanto GPA têm a BRF, dona de marcas como Sadia e Perdigão, entre seus principais fornecedores.

Em 2013, as vendas do Carrefour no país somaram R$ 34 bilhões, ao passo que o faturamento bruto da divisão alimentar do GPA - que compete diretamente com o Carrefour por meio das bandeiras Pão de Açúcar, Extra e Assaí - chegou a R$ 34,6 bilhões.

Da mesma forma que na época do conflito com o GPA, Abilio também possui ações nas duas empresas. O empresário é dono de participação próxima a 3% da BRF, segundo fonte próxima ao empresário. Nesta quinta-feira, 18, ele anunciou a compra de 10% da subsidiária brasileira do Carrefour por R$ 1,8 bilhão, divulgando que passará a ser membro do Conselho de Administração e dos comitês de Estratégia e Recursos Humanos da varejista.

Segundo a fonte, o empresário não abrirá mão do comando do Conselho da BRF e nem tampouco de um assento no Conselho do Carrefour no Brasil, defendendo os mesmos pontos de vista que apresentou ao Casino em 2013.

A avaliação de Abilio e sua equipe de advogados é que não haveria relação de dependência expressiva entre as partes, sendo que, por não exercer a posição de controlador de nenhuma das empresas, ele não teria voz para alterar decisões executivas.

Em suas demonstrações financeiras de 2013, a BRF afirma que "nenhum cliente individualmente ou de forma agregada (grupo econômico) foi responsável por mais de 5% das receitas líquidas de vendas" no ano.

Na época da briga com o GPA no ano passado, Abilio chegou a afirmar, em documento apresentado ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que a importância para a varejista da BRF era comparável "a de qualquer outro fornecedor", citando como exemplo empresas como Nestlé, Ambev e Unilever.

O empresário também defendeu no documento que não caberia aos Conselhos discutir ou implementar políticas comerciais, por ficarem os processos de negociação restritos, via de regra, ao trabalho de gerentes e diretores.

A tendência, segundo a fonte, é que Abilio mantenha o mesmo discurso agora no Carrefour, reforçando que a legislação brasileira já determina a declaração de impedimento de voto em eventuais situações de conflito de interesses.

Procurada pela Reuters, a BRF preferiu não comentar o assunto de imediato e o GPA disse que não vai se pronunciar a respeito.

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