Ueslei Marcelino/Reuters
Ueslei Marcelino/Reuters

Acordo da J&F nos EUA traz percepção de que governança evoluiu, mas analistas ainda apontam desafios

A holding, que controla a JBS, vai pagar US$ 128,2 milhões às autoridades americanas em acerto relacionado a atividades da companhia nos EUA

Matheus Piovesana, O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2020 | 13h39

O salto de mais de 9% nas ação da JBS na quarta-feira, 14, refletiu o alívio dos investidores com a celebração do acordo da holding J&F, que controla a companhia, com o Departamento de Justiça americano (DoJ). A interpretação imediata foi de que, além de melhorar a percepção de governança, a JBS também retirou um importante obstáculo do caminho para o IPO (oferta inicial de ações, da sigla em inglês) de suas operações internacionais nos Estados Unidos. Analistas alertam, porém, que apenas metade do risco foi eliminada com o acerto. A própria companhia já avisou aos investidores que há questões pendentes na Justiça brasileira. 

O acordo com o DoJ, que não envolve diretamente a JBS, tem relação com os fatos envolvidos no acordo de leniência fechado entre a holding e a Procuradoria-Geral da República (PGR) em 2017. As investigações se deram em torno do pagamento de propinas a políticos e partidos brasileiros pela empresa, em troca de vantagens indevidas ao longo de uma década. O anúncio de quarta foi de um acordo em torno dos mesmos fatos, mas relacionados às atividades da companhia nos EUA. A J&F pagará US$ 128,2 milhões às autoridades americanas.

A própria JBS reconhece, porém, que o assunto continua pendente no Brasil. Em setembro, em atualização do formulário de referência, a companhia disse que o Ministério Público Federal (MPF) pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) em duas ocasiões, em setembro de 2017 e em fevereiro de 2018, a anulação dos acordos de colaboração de Joesley e Wesley Batista, controladores indiretos da empresa.

A Corte já manifestou que a anulação dos acordos dos empresários não levaria à anulação automática da leniência firmada pela J&F. Mas a JBS afirma não poder garantir que isso não aconteceria - e haveria efeitos relevantes sobre seus negócios.

"Se o Acordo de Leniência for rescindido ou anulado, os fatos incluídos nele podem ser expostos a possíveis processos e sanções pelo MPF ou outras autoridades, que podem ter um efeito adverso relevante nos negócios, reputação e condição financeira da Companhia", afirma a empresa. Ainda não há data para que o STF julgue o caso.

A JBS afirma que há uma investigação interna em curso na J&F, com resultados impossíveis de prever. Além disso, os controladores são investigados pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) por suposto uso de informação privilegiada em operações no mercado financeiro.

É a existência de passivos judiciais no Brasil que inspira cautela em parte do mercado, mesmo após os acordos de quarta-feira. "A expressão 'deixou para trás' me parece um pouco forte, já que ainda temos algumas investigações em andamento", disse uma fonte que acompanha o setor em um grande banco, sob condição de anonimato. "Mas sem dúvida, saber o valor das multas já permite maior visibilidade ao investidor."

Ainda assim, casas de análise consideram que há pontos positivos inegáveis no acordo entre a J&F e o DoJ, anunciado em conjunto com outro, da JBS com a SEC, que não tem a ver com a leniência da holding. "Preocupações de governança claramente tiveram um impacto negativo na percepção dos investidores por muitos anos, e a sensação de que a empresa fez um grande progresso em uma jurisdição importante obviamente deve ajudar", disseram os analistas Thiago Duarte e Henrique Brustolin, do BTG Pactual.

Para bancos como o Citi, essa listagem reduziria o forte desconto entre a JBS e a Tyson, sua principal rival. Na quarta, a Tyson tinha valor de mercado de US$ 21,5 bilhões. A JBS, que só é negociada no mercado de balcão americano - espécie de nível de entrada dos mercados acionários - valia cerca de US$ 10,4 bilhões. 

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