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Ainda minoria, executivos mais jovens começam a ganhar espaço em conselhos de administração

Mudanças de modelo de negócios, relevância de aspectos ESG e amadurecimento da governança corporativa estão alterando o perfil de colegiados, segundo especialistas

Heloísa Scognamiglio, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2021 | 17h55

Os conselhos de administração das empresas costumam ser conhecidos por sua composição de profissionais seniores, com mais experiência, mas esse cenário está começando a mudar, segundo especialistas de consultoria e que participam de seleção de executivos. Empresas estão mais abertas a convidar executivos mais jovens para compor o conselho, na busca por uma maior diversificação dos colegiados. E os profissionais começam a se interessar pelos cargos de conselheiros e a buscar uma preparação cada vez mais cedo.

Ricardo Basaglia, diretor-geral da empresa de recrutamento de executivos Page Executive, afirma que, apesar de ainda serem minoria, hoje em dia há mais membros com idades entre 30 e 49 anos nos conselhos. Antes, segundo ele, era difícil encontrar alguém que não estivesse acima dos 50. “Talvez se tivéssemos essa discussão há dez anos ou até há cinco anos, os poucos ‘jovens’ que existiam em conselhos eram aqueles que vinham de famílias de acionistas. Que eram indicados por familiares, menos talvez pela experiência, pela reputação de mercado, que é o que se espera de um conselheiro profissional”, diz. 

Pesquisa realizada realizada pelo Instituto Brasileiro de Direito e Ética Empresarial (IBDEE) reforça a percepção dos especialistas ouvidos: conselheiros com menos de 50 anos estão em cerca de 74% das organizações, em conselhos de administração e consultivos, sendo representado por duas ou mais pessoas em 48% dos colegiados. O levantamento ouviu 61 conselheiros de empresas grandes e pequenas, de capital aberto e fechado, de vários setores. 

A maior atenção às boas práticas de governança corporativa nos últimos anos, com escândalos de corrupção e a Lei das SAs, contribuiu para um aumento da profissionalização de conselhos de administração e fortaleceu instituições como o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), que fomenta a discussão pública sobre o tema.

O instituto tem iniciativas como a agenda positiva de governança, que traz como um de seus seis pilares os “conselhos do futuro”, que devem ser compostos de forma mais diversa. A pauta ESG (sigla em inglês que se refere a aspectos ambientais, sociais e de governança das empresas) também contribuiu para que as empresas passassem a almejar uma maior diversificação dentro dos conselhos de administração.

Basaglia aponta que hoje também há uma oferta para a formação de conselheiros em várias instituições e uma maior busca de pessoas mais jovens pelo protagonismo no mundo corporativo. “Existe um interesse desse jovem de querer estar dentro do grupo da tomada de decisão, da estratégia, da visão. Hoje, quando você pergunta para um jovem executivo, uma das aspirações é estar no conselho. De novo, se fizéssemos essa pergunta para a maior parte dos jovens há dez anos, ouviríamos essa resposta muito pouco. Eu acho que tudo começa pela aspiração”.

Fábio Galindo tem 41 anos e é presidente do Conselho de Administração da empresa de saneamento Aegea. Ele assumiu o cargo aos 39 anos. Galindo atuou no setor público até 2016, quando resolveu entrar na iniciativa privada e buscou complementar a sua formação. “Fiz escolas de negócios, estudei na Fundação Dom Cabral, no Insper, no IBGC, fiz minha formação em compliance, em modelos de gestão de risco corporativo, em sistemas de controle”, afirma, ressaltando que suas motivações sempre incluíram a promoção dos impactos positivos.

Para Galindo, a agenda da governança passou de uma visão ligada somente ao lucro no passado, para uma visão mais ligada ao capitalismo de stakeholders (todas as partes interessadas na empresa), que foca em lucro e também em propósito. “A presença de pessoas mais novas traz essa agenda mais moderna aos conselhos, de preocupação com os impactos ambientais e sociais e também com a governança. E essa preocupação se revela mais relevante do que nunca agora na retomada da atividade econômica. A pandemia acelerou a necessidade de revisitar os propósitos de uma empresa. Não pode ser só lucro, tem que ter um olhar para as pessoas e para o planeta”, afirma.

O presidente do conselho da Aegea destaca a importância da diversidade nos conselhos para melhores resultados nas empresas. “A diversidade principal dentro dos conselhos é a diversidade de pensamento. E a diversidade de gênero, de raça, etária, entre outras, pode trazer visões diferentes para a mesa, obtendo melhores decisões”, diz. Ele também destaca que pessoas mais jovens podem ser mais conectadas com as expectativas sociais e com as questões da transformação digital e da inovação dentro das empresas, podendo ser de grande valor para os conselhos. 

Mudança de perfil

Sidney Ito, CEO do ACI Institute e sócio de Consultoria em Riscos e Governança Corporativa da KPMG, afirma que a presença de pessoas mais jovens nos conselhos é uma tendência que ele vem observando ao longo dos anos. Ito participa há 15 anos do estudo “A Governança Corporativa e o Mercado de Capitais”, acompanhando de perto as empresas abertas brasileiras. Para ele, o perfil dos conselhos, antes mais focado em lucro, vem se adaptando à nova realidade com as transformações do modelo de negócio, visando mais a inovação tecnológica e a diversidade.

Além da busca das empresas por pessoas mais jovens por causa da preocupação com tecnologia e diversidade, o especialista aponta outros motivos para o crescimento do número desses conselheiros, como o desenvolvimento de startups, que tendem a convidar pessoas mais novas para formar seus conselhos, e empresas familiares que incluem novas gerações das famílias nos colegiados, como uma preparação para serem proprietários e gestores das empresas.

Para Mário Custódio, diretor da área de Executive Search da consultoria de recrutamento Robert Half, a mudança de perfil dos conselhos se dá também porque a idade “deixou de ser tabu”. “Se temos um profissional mais jovem e brilhante no setor em que atua, vou deixar de considerá-lo por conta da idade? Hoje em dia, isso não acontece mais”, afirma. “Agora, nunca é uma variável única que determina se o profissional é capacitado ou não para compor o conselho. As empresas estão trazendo muito essa questão de diversidade, então acho que talvez nem seja colocado em pauta. Vai muito mais na linha de quão preparada a pessoa está. Mas vou trazer um profissional jovem que nunca teve um escopo de responsabilidade grande ou que não é referência naquele tema? Pouquíssimo provável.”

Juventude X experiência

Os especialistas concordam que não basta apenas um profissional jovem fazer cursos e obter certificações para que esteja apto a compor o colegiado. Um conselheiro precisa ter a capacidade de projetar o futuro e antecipar as necessidades da empresa, além de saber se comunicar, saber ouvir e discutir, já que a responsabilidade é colegiada e não individual. “Às vezes o profissional tem um conhecimento técnico profundo, muita experiência, mas na hora de discutir não tem habilidade. É preciso equilibrar conhecimento técnico, experiência e comunicação porque o conselheiro é responsável por deliberar, tomar decisões estratégicas do modelo de negócios”, diz Sidney Ito, da KPMG.

“O que vai contar é quanto essa pessoa é referência no tema que eles esperam, o networking do profissional, a experiência. Não é só a vontade de eu querer ser conselheiro, ir atrás de um curso bacana, um certificado e amanhã eu vou ser conselheiro de uma empresa. O que importa é o que eu posso agregar para a empresa”, alerta Mário Custódio, da Robert Half.

Custódio explica que também depende de qual é a expectativa em relação às habilidades daquele profissional, do setor em que a empresa atua, da sua cultura. “Uma empresa mais tradicional, talvez ainda esteja num momento em que ela continue dando mais valor para quem já foi conselheiro, com nível de senioridade maior, tanto que a maioria ainda é de profissionais mais velhos nos conselhos”, diz.

“Mas as empresas também podem se dar conta de que dar uma diversificada pode ser algo interessante. Tentar mesclar, compor um time, onde a pessoa que eventualmente é a mais jovem pode trazer muitos insights, muitas ideias bacanas para a discussão, mas não é tão experiente em gestão. Mas você tem também o profissional mais sênior. São habilidades complementares”, explica Custódio.

Fábio Galindo, presidente do conselho da Aegea, concorda. “Os mais jovens em composição com a experiência de quem já tem mais idade é a tendência. Uma visão tridimensional, holística, transversal do mundo, que vai construir o grande objetivo do conselho de administração, que é a visão de futuro. A projeção de uma empresa só é possível quando vários ângulos de visão diferentes convergem para uma visão única”, diz.

“Trazer jovens, que talvez tenham menos compromisso com o passado e mais com a visão do futuro, sabendo equilibrar com alguém que traga essa experiência, é onde você tem o maior ganho”, acrescenta Ricardo Basaglia, da Page Executive. 

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