ICTS Protiviti/Divulgação
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Apenas ações pontuais não fazem agenda ESG avançar dentro da empresa, diz especialista

Para Jefferson Kiyohara, práticas ESG devem fazer parte da estratégia e da cultura - o que ainda não acontece na maioria das organizações, segundo pesquisa da ICTS Protiviti 

Heloísa Scognamiglio , O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2021 | 18h27

As boas práticas ESG, sigla que se refere a aspectos ambientais, sociais e de governança das empresas, já são encaradas como imprescindíveis para a continuidade dos negócios. No entanto, muitas organizações brasileiras ainda estão despreparadas para o avanço dessa agenda, não havendo conscientização de que ela deve ser um pilar estratégico. Segundo Jefferson Kiyohara, diretor de Compliance & Sustentabilidade na ICTS Protiviti e professor da FIA, a maior parte das empresas ainda aposta somente em ações pontuais, o que é insuficiente. 

“Quando falamos de ESG, de uma certa forma, existem ações pontuais. A empresa pensa que já tem um código de ética, já se preocupa com a utilização da energia e com a água, plantou mil mudas de árvores, doou 100 cestas básicas durante a pandemia e tem histórico de filantropia. E já fica pensando em montar um relatório de ESG. Mas essas ações isoladas não fazem a empresa ser sustentável, não fazem a empresa seguir os pilares do ESG. Eu preciso ter uma estratégia, preciso fazer as coisas se conectarem, preciso ter metas”, explica Kiyohara. 

Uma pesquisa realizada pela ICTS Protiviti também aponta para um cenário de pouca maturidade em ESG entre as empresas brasileiras. Apenas 4% das respondentes se enquadram no nível mais alto de maturidade, o nível otimizado, em que se tornam referência, têm uma equipe robusta e integrada e processos formalizados. Enquanto isso, 52% se enquadram no nível inicial, o mais baixo, em que nem começaram a se preocupar com iniciativas de ESG ou apostam apenas nas ações isoladas. 

Entre os níveis inicial e otimizado, o levantamento classificou as empresas como: em desenvolvimento (26%), em que a jornada ESG já começa a ser implementada; definido (10%), em que a empresa já realizou o mapeamento dos principais stakeholders (todas as partes interessadas na empresa) e iniciou um trabalho de aculturamento do público interno; e gerenciado (9%), em que a empresa tem a questão ESG integrada à estratégia da companhia, mas falta usar isso como fator estratégico para crescimento de longo prazo da empresa. 

A pesquisa ouviu 100 empresas de diversos segmentos e portes, entre o último trimestre de 2020 e o primeiro de 2021. “É uma amostra pequena, mas bastante representativa, com empresas de perfis e setores diferentes. Nosso objetivo foi entender melhor como funciona o mercado brasileiro como um todo. Porque você tem reguladores, além de mercado financeiro e investidores, que são os donos do dinheiro, falando da importância do tema. Então, é preciso ver o outro lado, como as empresas estão se movimentando. E nossa pesquisa mostra que ainda há um longo caminho a ser percorrido”, afirma Kiyohara. 

A importância de incorporar o ESG à estratégia da empresa se relaciona diretamente com a questão dos recursos, segundo Kiyohara. Ações duradouras e que realmente causam impacto positivo precisam de recursos, de investimentos em pessoas e em tecnologia. Caso a agenda ESG não faça parte da estratégia, dificilmente esses recursos aparecem. 

Para ilustrar como essas ações soltas acabam não dando resultado, o especialista cita um exemplo: “Tem gente que acha que basta contratar mais pessoas negras, por exemplo, para se tornar uma empresa racialmente mais diversa. Mas sem ações complementares, sem uma mentoria adequada, sem recursos para dar competitividade para esse profissional e a chance real de ele se tornar um líder na empresa, ele não vai continuar trabalhando ali”.

Outro grande problema das empresas, na visão de Kiyohara, é o estabelecimento de metas de longo prazo, sem um planejamento claro de como é possível atingi-las e sem ações de curto e médio prazos relacionadas a essas metas. Ele aponta que é comum metas como uma maior presença de mulheres na liderança e a neutralidade em carbono serem jogadas para 2030 ou para 2050. 

“E em 2022 e 2023, o que a empresa vai fazer? Não adianta fazer promessas ou ter metas se não tiver claro o caminho. Isso também é um ponto que as empresas precisam trabalhar. A cultura é algo que vai estar sendo criado ao longo deste tempo todo. Não adianta querer atingir uma meta sem preparar as pessoas de dentro da empresa para essa nova realidade que precisa ser construída”, afirma o especialista. 

O primeiro passo para isso, diz, deve ser a conscientização da alta liderança da empresa acerca da importância do tema - do contrário, nenhuma mudança ocorrerá. “A partir de então, em termos práticos, o que a empresa precisa fazer é um diagnóstico. Mapear as ações pontuais já existentes e entender tudo o que a empresa ainda não tem." 

Transparência 

Em meio à pressão tanto da sociedade quanto do mercado financeiro e dos investidores, muitas empresas querem pular etapas. “Há empresas que acham que o ESG serve para fazer marketing, e fazem o greenwashing (marketing verde), ou então tentam parecer amigas da causa LGBTQIA+, mas sem práticas concretas pela diversidade”, diz Kiyohara. 

Há casos também em que a empresa, somente com ações pontuais, já pensa em divulgar relatórios ESG para buscar uma boa reputação em relação ao tema. “O relatório é consequência, é preciso primeiro ter o conteúdo, as ações, de uma forma sólida, alinhando com a estratégia, para aí sim ir ao mercado e aparecer”, diz o especialista.

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