Divulgação/PwC
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CEOs brasileiros projetam menor crescimento econômico em 2020, aponta pesquisa

Levantamento da PwC mapeia principais desafios na visão de executivos no Brasil; maioria diz estar otimista com crescimento da própria empresa

Luísa Laval, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2020 | 09h44

Um número maior de CEOs brasileiros projeta desaceleração do crescimento do PIB no Brasil. É o que aponta pesquisa da empresa de consultoria e auditoria PwC, divulgada em janeiro: 45% dos dirigentes entrevistados acreditam na diminuição do crescimento brasileiro, ante 15% na mesma pesquisa realizada no ano passado. Outros 22% acreditam que a economia vai melhorar (no levantamento anterior, eram 42%). De acordo com a companhia, é o maior pessimismo econômico no País desde 2012.

Além da incerteza em relação ao crescimento econômico, os executivos apresentaram como principais motivos de preocupação o cenário tributário incerto (48%), excesso de regulamentação (47%) e falta de infraestrutura básica (47%). 

Por outro lado, os CEOs dizem estar otimistas quando olham para as próprias empresas: 78% afirmam estar confiantes no aumento de receitas. Porém, esse índice é menor se comparado ao ano passado, quando 95% dos executivos disseram ter confiança no crescimento financeiro.

Para o sócio-presidente da PwC Brasil, Fernando Alves, o resultado menor da confiança na economia é um reflexo do fim do primeiro ano de governo de Jair Bolsonaro. 

“Quando fizemos a pesquisa do ano passado, estávamos logo no início do governo. Então, o otimismo foi de alguma forma conectado com essa expectativa de recomeço. Agora, quando fizemos a pesquisa, o panorama estava mais estabilizado, o governo já tinha assumido, então você tem o declínio natural (do otimismo). Ou seja, essa expectativa da pesquisa foi mais realista”, afirma o presidente.

Mesmo assim, Alves comenta que as perspectivas de crescimento para o País são esperançosas: “Ninguém olha o futuro do Brasil de forma negativa. Você pode disputar se a velocidade vai ser rápida ou  devagar. Mesmo com esse tema do Covid-19 (novo coronavírus), a gente sente um crescimento na confiança em relação às possibilidades da economia. Você não pode dizer: ‘estou achando que a economia vai entrar no buraco’. Nós não sentimos isso, nem com relações com clientes, nem na pesquisa”.

Regulamentação da tecnologia

Entre os temas abordados na pesquisa, a PwC perguntou o que os CEOs acreditam que deve ocorrer no campo de regulamentação da tecnologia. 64% dos entrevistados acreditam que os governos tendem a criar leis que forcem o setor privado a regulamentar o conteúdo na internet, 59% imaginam que novas leis vão acabar com o monopólio das empresas de tecnologia dominantes e 52% acreditam que a legislação vai forçar o setor privado a compensar financeiramente indivíduos pela coleta de dados pessoais.

“O empresário brasileiro começa a se preocupar com algo que já está na mesa de grandes organizações globais: segurança cibernética e velocidade das mudanças tecnológicas”, afirma Alves. “Existe uma grande preocupação com o tema de transformação digital, incluindo aumento da proficiência digital das pessoas, como fator de produtividade.” 

Essas questões são debatidas no Congresso Nacional e algumas leis foram aprovadas, como a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais, que entra em vigor em agosto deste ano.  Ao mesmo tempo, o executivo diz que o Brasil possui um dos maiores custos de implementação de tecnologia aplicada, algo que atrasa a transformação digital das empresas.

Aprimoramento profissional

Junto ao desafio tecnológico, a pesquisa mediu a preocupação dos executivos brasileiros com relação aos processos de upskilling (aprimoramento das qualificações profissionais a fim de reter talentos dentro das empresas). Entre as empresas que já possuem essa prática avançada, os principais desafios são a retenção de empregados submetidos ao processo de aprimoramento, o estímulo aos empregados para adquirirem novas habilidades necessárias para o futuro e falta de recursos para realizar os programas necessários de upskilling.

O presidente da PwC diz que falta capacitação para tecnologia e há poucos profissionais disponíveis para áreas relacionadas a tecnologia. “No Brasil, há poucas pessoas no que eu chamaria de áreas de engenharia. Num cenário em que você precisa de mais cientistas da computação, mais engenheiros de sistemas, você tem um gap educacional e poucas pessoas da área de exatas”, afirma Alves.

Com isso, as empresas são obrigadas a investir grande volume de recurso em upskilling digital para os funcionários. Porém, tais treinamentos frequentemente representam um risco para a retenção de talentos para os CEOs. “Não tem escapatória: você precisa capacitar a equipe, e muitas vezes os concorrentes levam (para outras empresas)”, diz o executivo.

Mudanças climáticas

Outro ponto central abordado na pesquisa é o posicionamento dos CEOs diante das mudanças climáticas: 27% dos CEOs brasileiros acreditam que as mudanças climáticas abrem portas para novas oportunidades de produtos e serviços dentro das próprias empresas. Em 2010, 19% dos entrevistados acreditavam nessa possibilidade.

Alves diz que há tendência de crescimento com as pautas sobre práticas sustentáveis e “investimentos verdes”, ou seja, direcionamento de investimentos apenas para empresas consideradas ambientalmente corretas. “Cada vez mais, os investidores buscam empresas que possuam governança, sustentabilidade e retorno de investimentos. Isso ainda está pouco presente no Brasil, mas podemos considerar como uma tendência emergente e um tópico que vai ganhar relevância nas próximas pesquisas.”

Metodologia da pesquisa da PwC

A pesquisa da PwC foi realizada em todo o mundo e ouviu 1.581 CEOs de 83 países, sendo 64 deles do Brasil. Das empresas representadas pelos executivos na pesquisa, 46% tiveram receita de US$ 1 bilhão ou mais, 35% alcançaram faturamento anual entre US$ 100 milhões e US$ 1 bilhão e 15% alcançaram até US$ 100 milhões.

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