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Conselhos devem se adaptar para transição inevitável para neutralidade em carbono, diz especialista

À frente da campanha global Race To Zero, para incentivar políticas para reduzir emissões, Nigel Topping acredita que o Brasil tem na COP26 uma oportunidade para recuperar a credibilidade no cenário internacional

Heloísa Scognamiglio, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2021 | 18h36

As empresas de todo o mundo estão passando por uma transição para uma economia “net zero”, o que significa alcançar a neutralidade de emissões de carbono - e os conselhos dessas empresas devem adaptar as suas estratégias. É o que afirmou Nigel Topping, Campeão de Alto Nível para o Clima da ONU no Reino Unido, durante o painel “COP26 e o impacto estratégico e estrutural para o Brasil na próxima década”, realizado nesta quarta-feira, 30. Com mediação de Silvio Dulinsky, responsável pelo setor privado da América Latina no Fórum Econômico Mundial, a palestra foi parte do segundo e último dia do evento virtual "Encontro de Conselheiros", promovido pelo Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC)

Durante sua fala, Nigel Topping destacou a importância da COP26, a 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática, que será realizada em Glasgow em novembro e deve reavaliar o Acordo de Paris, que estipulou um compromisso de diversas nações em manter o aquecimento global abaixo de 2ºC. Para ele, os países ainda não estão em um bom caminho em relação ao cumprimento do acordo, pois há projeções de aquecimento em até 3ºC. “A boa notícia é que hoje existe um grande movimento para atingir o ‘net zero’, ou emissões líquidas zero. A maioria do G20 já está comprometido com o ‘net zero’ até a metade do século”, disse. 

A função de Campeão de Alto Nível para o Clima da ONU foi criado na COP21, em meio às discussões que culminaram no Acordo de Paris, como alguém para agir na realização das metas do acordo. Atuando como tal, Nigel é uma das pessoas à frente da campanha global Race To Zero (Corrida para o zero, em tradução livre), que visa unir países, Estados, cidades, empresas, investidores e universidades no compromisso de zerar as emissões líquidas de gases de efeito estufa. A campanha estipula que as emissões sejam cortadas pela metade até 2030 e que a neutralidade seja atingida até 2050. Mas Nigel é mais otimista. 

“Acho que veremos empresas e governos tentando chegar à neutralidade de carbono até 2040. Vocês acham loucura? Uso como exemplo as previsões sobre o futuro do motor à combustão. Em 2016, logo depois do Acordo de Paris, a Agência Internacional de Energia dizia que iríamos continuar tendo motores à combustão no futuro. Hoje, a maioria dos fabricantes do mundo diz que vai parar de produzir motores à combustão entre 2030 e 2035. É uma mudança que ocorreu nos últimos cinco anos”, explicou Nigel. 

Ele destacou que algumas empresas e países já apontam que atingirão a neutralidade em carbono entre 2030 e 2040. “As expectativas eram de que isso só acontecesse em 2080 e agora todos estão falando em 2030. Vocês, como conselheiros, vão passar por uma década muito disruptiva, e é bom saber que essas mudanças acontecem de forma exponencial. Mas, claro, não é possível mudar tudo até 2040, se não cortarmos as nossas emissões pela metade anos antes, então as ações de curto prazo precisam estar alinhadas com o longo prazo”, disse. “Os conselhos devem também nomear CEOs que sejam capazes de fazer essa transição e não somente fazer negócios como sempre, ‘business as usual’”, aconselhou. 

Para ele, a transição para uma economia de zero carbono é inevitável e é preciso que os conselheiros abracem essa causa. “Os conselheiros precisam ter metas baseadas em fatos científicos, precisam reaprender ou aprender novas habilidades e abrir espaço para mais diversidade, porque pensar dentro de uma bolha não ajuda neste momento. Estamos vendo vários setores realinhando a sua trajetória. É preciso olhar para o que a empresa defende, para que esteja alinhado às suas estratégias e não esteja demandando políticas diferentes desse direcionamento para a neutralidade. E precisamos abraçar a inevitabilidade dessa transição, com inovação, criação de empregos e positividade.” 

Oportunidade para o Brasil 

Nigel apontou que o Brasil é líder em termos de energia, por ter uma matriz energética “muito limpa”, e destacou que o País tem grande capacidade na área de biocombustíveis, que, segundo ele, terão um papel importante no futuro em áreas além do transporte terrestre, como a aviação e a navegação.

Mas ele alertou que ainda há espaço para que mais seja feito. “Existe a oportunidade de planos muito mais ambiciosos a serem implementados, como o que vimos acontecer no Japão, por exemplo, em que as cidades e os Estados demandaram mais agressividade do governo”, contou. 

Para o especialista, a COP26 é uma oportunidade para o Brasil se reposicionar em relação às ações para conter as mudanças climáticas e recuperar a credibilidade no cenário internacional. “Quando converso com o setor privado do mundo todo, estão bem preocupados com o que veem no Brasil e esperam que o setor privado e o governo do País ajudem a transformar a política para vermos mais ambição, mais agressividade positiva com relação à proteção ao meio ambiente. A natureza é uma fonte de valor verdadeiro se ela não for desmatada”, disse.

Ele afirmou também que empresários e investidores estrangeiros se mostram relutantes em fazer negócio com aqueles que não respeitam a natureza. “Cada vez mais as empresas alimentícias estão se comprometendo com o ‘net zero’ e isso significa que terão que comprar produtos agrícolas, por exemplo, de uma cadeia de valor que prove que não há desmatamento. Esses investidores precisam ver um compromisso claro com um plano de curto prazo para a neutralidade”, concluiu. 

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