Demanda por executivo 'batedor de meta' põe em risco solidez das empresas, dizem especialistas

Samarco e Embraer são exemplos de como a pressão por lucros nos balanços trimestrais faz com que executivos ignorem riscos ao longo prazo para os negócios

Ricardo Rossetto e Nathália Larghi, O Estado de S.Paulo

09 Novembro 2016 | 08h04

SÃO PAULO - A pressão para obter lucro no curto prazo é um fator de risco à solidez das empresas brasileiras, avaliam especialistas. O esquema de suborno montado pela Embraer para obter vantagens imediatas na venda de aviões e o desastre ambiental provocado pela mineradora Samarco são apenas dois dos mais recentes casos que demonstram esse comportamento. Embora essa seja uma tendência mundial, os especialistas afirmam que são nos países em desenvolvimento em que esse perfil de profissional "batedor de meta" é mais demandado.

Uma pesquisa divulgada no final de setembro pela entidade sem fins lucrativos FCLP Global (Focando o Capital no Longo Prazo), com mais de mil executivos de alta escalão de diversos países e áreas de atuação, identificou que 87% dos entrevistados se sentem extremamente pressionados em apresentar resultados financeiros em um período de até dois anos. Nos países emergentes, essa pressão atinge 82% dos executivos, enquanto que na Europa e nos Estados Unidos o número não chega a 65%.

O especialista em governança corporativa Alexandre Di Miceli, sócio da consultoria Direzione e professor da Fecap, explica que um dos efeitos dessa cultura "curto-prazista" foi a substituição dos chamados "líderes militares" - que apenas davam e seguiam ordens, sem muito planejamento - pelos "líderes mercenários". Esses executivos focados exclusivamente em resultados imediatos deixam de avaliar os riscos de longo prazo, o que pode trazer dívidas para os futuros gestores. "Esses profissionais ‘mercenários’ são sujeitos sem apego emocional algum com a empresa”, afirma.

Com mais de dez anos de experiência no aprimoramento da governança de dezenas de empresas nacionais e estrangeiras, Di Miceli afirma que ainda falta maturidade ao ambiente corporativo brasileiro. Um dos principais problemas detectados pelo especialista está no fato de as empresas se concentrarem apenas na qualificação técnica do alto executivo durante o processo de contratação. "Precisamos melhorar as lideranças no ambiente empresarial brasileiro. Precisamos de 'líderes missionários', de executivos que deixem um legado para a companhia e que, principalmente, naveguem contra a maré e mudem algumas práticas vigentes", afirma o especialista.

Nos últimos três anos, a criação das Leis Anticorrupção e das Estatais estabeleceram critérios mais rigorosos para a penalização de empresas envolvidas em corrupção e para a nomeação de diretores e membros do conselho de administração de empresas estatais. Essas exigências, junto com os desdobramentos da Operação Lava Jato, provocaram mudanças significativas no trabalho de seleção de executivos C-level (alto escalão) pelas consultorias de headhunter.

Agora, as listas de indicação das recrutadoras exigem que o profissional tenha, além de um profundo conhecimento do negócio, uma "reconhecida inteligência moral", que possa inspirar os demais funcionários da empresa a atuarem de uma maneira ética e responsável na condução dos negócios.

"Quando a economia brasileira começou a perder força, vimos que havia muita gente incompetente em posições-chave nas maiores empresas do País", afirma Pedro Folque, sócio da Caldwell Partners. "Em época de maré baixa como agora, vemos quem está nadando pelado. Os níveis de exigência subiram muito em relação aos aspectos comportamentais", explica Folque.

Para João Márcio Souza, sócio da Talenses Executive Search, a Lava Jato atua como um fator educacional e transformador da cultura e da mentalidade do empresário brasileiro. "O jeitinho brasileiro no mundo dos negócios está com os dias contados. É uma mudança que já está acontecendo, e que veremos os resultados no médio e longo prazo", garante.

Mais radical, Di Miceli acredita que somente uma nova geração de executivos, "mais sintonizada com os novos tempos", será capaz de promover uma mudança completa no comportamento dos empresários brasileiros. Segundo ele, a busca pelos maiores lucros no menor tempo possível afastou as companhias brasileiras de um novo tipo de consumidor, que procura se relacionar com marcas que tenham legítimas preocupações sociais e ambientais.

Cursinho. A exigência cada vez maior dos acionistas, investidores e da própria sociedade por medidas anticorrupção nas empresas tem provocado uma corrida dos executivos por cursos de formação em governança corporativa. Todos os anos, mais de 500 profissionais buscam o curso de formação de conselheiros de administração do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC).

Além do conteúdo básico sobre estratégia, finanças e riscos, o diferencial das aulas, segundo a superintendente de conhecimento do IBGC, Adriane de Almeida, é o ensinamento de temas "vanguardistas" como ética e sustentabilidade.

"Nossa maior dificuldade com os alunos é fortalecer o tema ética de uma maneira mais prática e menos conceitual. Por isso, trabalhamos exercícios de dilemas éticos durante as aulas, pegando como exemplo os casos de corrupção na Petrobrás", explica Adriane. "Ainda temos muito o que fazer, a cultura favorável à corrupção no nosso País ainda é muito forte", destaca.

Nos últimos três anos, a maior preocupação do empresário brasileiro com a internalização das regras da boa governança fez crescer o número de empresas que procuram programas de treinamento em compliance que alcancem todos os funcionários da empresa, indo desde o mais alto escalão até o "chão de fábrica".

No escritório Souza Cescon Barrieu & Flesch Advogados, por exemplo, a demanda por esse serviço dobrou desde o início da Lava Jato. "Antes, desenvolver um projeto de governança era visto como despesa pelas empresas, mas isso mudou à medida que os executivos perceberam que esse instrumento permite que a companhia reduza perdas financeiras ou de reputação decorrentes de atos ilícitos", afirma Fabíola Cammarota, sócia da área de compliance da Souza Cescon.

 

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Com crise, empresas deixam de priorizar educação corporativa

Alta administração está mais focada em resultados imediatos; por outro lado, número de empresas com equipes dedicadas à educação corporativa aumentou 42%, segundo estudo da Deloitte

O Estado de S.Paulo

04 Novembro 2016 | 13h57

SÃO PAULO - Pesquisa realizada pela Deloitte mostra que os níveis de apoio e envolvimento da alta administração das companhias com educação corporativa caíram. A percepção de envolvimento no tema avaliada por 178 profissionais dos setores de tecnologia da informação, atividades financeiras e prestação de serviços caiu de 62% em 2014 para 47% em 2016. 

Marcos Braga, diretor da Deloitte Educação Empresarial, explica que esse número reflete o momento de crise na economia, onde a alta administração está mais focadas no resultado imediato. Ele alerta, porém, que "as empresas não podem se acomodar". Por outro lado, o número de empresas com equipes dedicadas à educação corporativa aumentou 42% em 2016 em relação à pesquisa realizada em 2014. A quantidade de organizações com universidades corporativas também registrou um crescimento de 14%. 

A pesquisa também mostra que a participação dos treinamentos presenciais em relação ao total registrou um crescimento de 67% para 74% entre 2014 e 2016, enquanto o ensino a distância caiu de 33% para 26% no período.

"O resultado sugere que as empresas pretendem aguardar um momento mais favorável para fazer investimentos em plataformas de educação a distância de forma robusta, mesmo que isso signifique adiá-los por um período", avalia Braga.

A retomada do modelo presencial sugere que as organizações estão mantendo o foco em práticas tradicionais e deixando a educação a distância para um próximo momento. Danilca Galdini, diretora da DMRH, empresa de pesquisa em gestão e desenvolvimento de pessoas, conta que as empresas passaram a entender a complexidade de preparar módulos a distância e perceber que exige investimento tanto quanto o presencial. "Antes as empresas apenas replicavam o mesmo conteúdo presencial, mas o formato exige bastante adaptação para prender o aluno e fazê-lo entender".

O levantamento também indica que os treinamentos ficaram mais curtos: a média geral de horas de treinamento por profissional caiu de 30 em 2014 para 26 em 2016. 

Braga, da Deloitte, também ressalta que as empresas não podem esquecer de pensar na educação como investimento de longo prazo e que é um fator de retenção de funcionários. "Muitos profissionais procuram trabalhar em empresas que investem no desenvolvimento do funcionário". 

As competências consideradas técnicas e específicas para o desenvolvimento de determinadas funções (conhecidas como hard skills) ganharam relevância frente às habilidades relacionadas a aspectos da personalidade do profissional (as chamadas soft skills).  Esse movimento sugere um pragmatismo das organizações em relação às formações necessárias para o aumento da produtividade e da eficiência.

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