Sérgio Moraes/ Reuters
Sérgio Moraes/ Reuters

Eleição do conselho de administração da Vale é adiada por divergências na votação

Principal divergência envolveu a contagem de votos para o ex-presidente da Petrobrás Roberto Castello Branco, apoiado por gestoras e fundos de investimento; nova assembleia foi marcada para o dia 3

Mariana Durão, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2021 | 19h02

RIO - Diante de uma assembleia marcada por longas interrupções e muitos questionamentos de acionistas, a Vale decidiu suspender a eleição do conselho de administração na reunião desta sexta-feira, 30. A escolha do novo colegiado foi adiada para segunda-feira, 3. A principal divergência envolveu a contagem de votos destinados ao ex-presidente da Petrobrás, Roberto Castello Branco, apoiado por gestoras e fundos de investimento.

"Para assegurar a solidez da votação e do regime de voto múltiplo, a companhia vai suspender a assembleia a esse item e outros relacionados para maiores apurações", disse o presidente da mesa, Luiz Antonio Sampaio.

A Assembleia-Geral Ordinária (AGO) levou seis horas. Só a discussão sobre a escolha do novo conselho tomou em torno de quatro horas e meia, com três interrupções, sendo a última delas por cerca de duas horas e meia. Primeiro, a assembleia parou para que acionistas que não haviam votado pelo Boletim de Voto a Distância (BVD) preenchessem a planilha enviada pela companhia por e-mail para computar seus votos ao conselho de administração. Depois, para corrigir um erro apontado por participantes da reunião e que acabou levando à suspensão da eleição.

Após reclamações de acionistas e dos candidatos Marcelo Gasparino e Mauro Cunha, indicados por minoritários, a Vale apresentou o mapa com os votos dados via BVD e dos detentores de ADRs, certificados de ações da companhia emitidos no mercado americano. Inicialmente, ele trazia apenas os votos enviados pelo boletim. O cômputo é essencial para que os minoritários definam sua estratégia de voto para eleger ao menos parte de seus quatro indicados.

O resultado indicava Castello Branco na penúltima colocação entre os 16 candidatos ao colegiado, à frente apenas do japonês Ken Yasuhara. O representante do grupo Capital, Rodrigo de Mesquita Pereira, reclamou que os votos de ADRs do grupo no candidato não foram devidamente computados. A Capital é acionista relevante da Vale, com um total de 11,3% do capital social.

Pelo mapa divulgado somando votos via ADRs e BVD, em princípio seriam eleitos três dos quatro nomes alternativos indicados por minoritários. A exceção seria Castello Branco. Assim, entrariam entre os eleitos Gasparino, Cunha e a conselheira do Grupo Soma, Rachel Maia. Dos 12 nomes indicados pelo comitê de nomeação Vale, ficariam de fora Fernando Buso (Bradespar), José Maurício Coelho (Previ) e Yasuhara (ex-Mitsui). 

Diante das divergências, entretanto, o resultado segue totalmente em aberto. Será preciso também computar os votos dados durante a AGO. Além da eleição dos conselheiros, será escolhido na próxima reunião o presidente do colegiado. Os indicados são Castello Branco e José Duarte Penido, ex-presidente da Samarco e já conselheiro da Vale.

De acordo com o presidente da mesa, os votos conferidos a Castello Branco foram informados pelo Citi, instituição depositária dos ADRs. Sampaio disse que a Vale só poderia trabalhar com a informação oficialmente recebida e que a mesma só poderia ser retificada pelo próprio banco. A reunião voltou a ser congelada por quase duas horas para que os acionistas enviassem suas planilhas de voto, mas na volta foi anunciado o adiamento.

O processo eleitoral da Vale em 2021 é emblemático por se tratar da escolha do primeiro colegiado após o fim do acordo de acionistas que vigorava desde a sua privatização, em 1997. 

A disputa vem sendo marcada por uma forte oposição entre minoritários e acionistas de referência. Previ, Bradespar e Mitsui, que até novembro faziam parte do bloco de controle da companhia, são donas de 21% do capital da Vale e apoiam os indicados pela empresa. A mineradora, entretanto, tem outros acionistas de referência de peso, como Capital e BlackRock (5,29%). 

Os fundos da Capital apoiam os nomes alternativos e solicitaram o voto múltiplo, mecanismos pelo qual a cada ação são atribuídos. Por esse mecanismo, cada ação passa a valer tantos votos quantos sejam os cargos a preencher (neste caso, 12) e o acionista pode concentrá-los em um só candidato ou distribuí-los entre vários nomes.

Apesar da turbulência, a AGO da Vale aprovou outras matérias. Foram aprovadas as contas da companhia, a destinação do resultado do exercício social encerrado em 31 de dezembro de 2020, o número de membros do conselho de administração, conforme proposta da administração, em 13 membros titulares e 1 suplente. Também foi homologada a reeleição de Lucio Azevedo como representante dos empregados da companhia no conselho. 

Além disso, os acionistas aprovaram o pacote de remuneração dos administradores. A empresa passa a incluir 55% de indicadores não financeiros entre as metas coletivas, além de metas ESG (sigla em inglês para os aspectos ambiental, social e governança). Houve um aumento de 44,3% no valor reservado para o pagamento dos principais executivos em 2021. A diretoria receberá um total de R$ 238,7 milhões, incluídos encargos sociais.

Para o conselho fiscal da Vale, foram eleitos Cristina Fontes Doherty , Marcelo Moraes, Marcus Severini e Raphael Manhães Martins, além de três suplentes.

As matérias votadas na Assembleia-Geral Extraordinária (AGE), realizada em seguida, foram todas aprovadas. A votação incluiu as incorporações, sem aumento de capital e sem emissão de novas ações, da CPFL e da Valesul pela Vale, além da incorporação do Acervo Cindido MBR pela Vale e do plano de remuneração baseado em ações.

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