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Empresas estimulam vínculo paterno para reter funcionário

Cresce tendência de companhias estenderem licença-paternidade ou uso de creches também para pais

Érika Motoda, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2019 | 18h00

Quando ainda era estagiário na plataforma online de venda de seguros Youse, o estudante de engenharia Fernando Fonseca, de 25 anos, descobriu que teria um filho com a namorada Karoline Ferreira, que estuda Letras na USP. Os dois moravam sozinhos em São Paulo, sem apoio financeiro dos pais.

Com uma pessoa a mais para sustentar, o movimento natural seria ir atrás de um emprego fixo com salário maior. Fonseca, inclusive, já havia recebido propostas para receber o triplo em outras empresas. Resolveu recusar porque tinha a certeza que seria contratado na Youse quando terminasse a faculdade. A formalização, porém, acabou acontecendo antes do diploma.

“Quando o Fernando falou que ia ter filho, fiquei feliz porque, com a contratação, teria mais opções de plano de saúde e um salário maior para dar suporte ao bebê”, diz Wilson Lima, diretor de RH da empresa. Entre os benefícios estão também 30 dias de licença-paternidade. “Estamos em um mercado muito competitivo e o funcionário leva em consideração benefícios robustos”, afirma.

A Youse faz parte de um movimento crescente de empresas que tem usado políticas de recursos humanos nas quais um dos principais atrativos é aumentar a convivência entre pais e filhos. Seja por meio da licença paternidade estendida, além dos cinco dias obrigatórios por lei, ou de facilitar a convivência com as crianças durante o trabalho. 

O conceito de paternidade ativa envolve, entre outros fatores, o cuidado físico e emocional que se dá ao filho, segundo cartilha elaborada pelo Ministério da Saúde em 2018. Empresas como a Natura e a Unilever têm dentro em suas instalações um berçário no qual os pais podem deixar seus filhos. 

Ricardo Moncayo, de 35 anos, coordenador de TI da Natura, define a infraestrutura do berçário da empresa como “privilégio”: ele consegue não só ficar perto da filha, como também visitá-la durante o dia. “Almoço mais rápido para poder ficar 10 minutos com a Marcela”, diz.

O gerente de logística de sorvetes da Unilever, Renato Starling, é outro que não “aguenta” e vai visitar o filho na creche quando pode. Por coincidência, a mulher dele, Maria Clara, trabalha no prédio vizinho. Então, a família inteira – mãe, pai e Gustavo, de 1 ano – toma café da manhã nas dependências da Unilever. “Em São Paulo, quem é que consegue tomar café com o filho, ver no almoço e ainda voltar para casa com ele?”, pergunta. No caso, as duas empresas dão 40 dias de licença-paternidade.

Empresa Cidadã

Alice Neira Pereira deve nascer no próximo mês e, assim que chegar, vai poder ter o pai a seu dispor durante seis meses, sem precisar dividi-lo com o trabalho de analista financeiro. A fabricante de bebidas Diageo concederá a William Pereira, de 36 anos, licença-paternidade de 26 semanas.

O afastamento faz parte da política global da Diageo e foi implementada em julho no País. Agora, mães e pais têm direito ao mesmo período de afastamento. “Historicamente, a licença-maternidade é uma barreira para as mulheres no mercado de trabalho”, diz Tatiana Sereno, diretora de Recursos Humanos da empresa. “Ao oferecer licença semelhante para todos, ela deixa de ser.”

Pereira pretende pedir o afastamento em janeiro, último mês no qual a mãe de Alice estará em casa, antes de voltar ao trabalho. A também analista Melissa Neira, de 39 anos, ficará de licença durante quatro meses. “Agora, vou vivenciar tudo o que eu não consegui com minha primeira filha, Isadora”, diz ele. “Cinco dias é muito pouco. Você não passa nem sequer 24 horas completas com o filho, porque tem de correr atrás de vacina, cartório e receber as visitas.”

A Diageo é inscrita no programa , da Receita Federal, Empresa Cidadã, que estende o período de licença dos pais em troca de benefícios fiscais. Às mulheres, o programa federal já oferece a ampliação de quatro para seis meses em casa, o que garante o reembolso da Diageo no caso das mães. Para os homens, a extensão é de cinco para 20 dias corridos. Por isso, a empresa passou a ter orçamento específico para a licença-paternidade. Além de bancar a saída prolongada dos pais, há a verba destinada à contratação de temporários, caso o trabalho de um substituto seja necessário.

Retenção de talentos

A SAP Brasil, empresa de softwares de gestão de empresas, também segue a lógica de usar a política de recursos humanos para manter seus talentos. E uma delas é a licença-paternidade estendida. “Os pais voltam ainda mais energizados“, disse o diretor de RH Marcelo Carvalho. Há quase 10 anos na empresa, o engenheiro de Suporte Eric Molitor, de 37 anos, viu a evolução das políticas da empresa no que diz respeito às oportunidades do pai de estar presente nos primeiros dias de vida das crianças. Ele tem dois bebês em casa, Alice, de 1 ano e 9 meses, e Benício, recém-nascido, e retornará de sua licença de 30 dias na próxima segunda, um dia depois do Dia dos Pais.

Nas últimas semanas da segunda gravidez, contou, ele teve o suporte do gestor e conseguiu estar próximo da mulher, a professora de inglês Maíra, de 37 anos, quando a bolsa estourou. “A gente viveu os dois partos da forma mais intensa possível. Tínhamos o plano de fazer um parto humanizado da primeira vez, mas a Alice chegou por uma cesárea de urgência. Seguimos com esse desejo para o segundo filho. De surpresa, engravidamos do Benício e passamos por 18 horas de trabalho de parto ativo, ele veio ao mundo de parto normal.”

Poucos bebês, custo baixo 

Desde que implementou a licença-paternidade de 35 dias em 2017, a corretora de seguros Marsh teve 40 funcionários que tiraram o período de afastamento. O número não é tão alto, ainda mais considerando que há 1,2 mil funcionários no total, o que torna possível dividir os colegas em rodízio para suprir a licenças, explicou a diretora de RH Valma Prioli, que acredita que as crianças crescem muito rapidamente e “a gente não pode furtar isso dos funcionários”.

Um dos beneficiados foi o superintendente Tiago Morais, de 37 anos, pai de Marina e marido de Jacira, de 39 anos, que é gerente comercial de outra seguradora. Ele disse que já conseguiu criar vínculos com a filha logo no início. “Sempre tive medo de segurar recém-nascido no colo, pensava que ia quebrar”, brincou. “Mas eu estava lá na hora que a Marina nasceu e já a segurei, dei a mão para ela e comecei a conversar. Fico conversando até hoje. A nenê se acalma quando estamos por perto.” 

No escritório Daniel Advogados, quando a equipe estava estudando os custos de implementação do benefício, constatou que no ano de 2018 teve três casos de pais que tiraram a licença de cinco dias, e o impacto financeiro foi muito pequeno. Segundo a gerente de RH Bruna Souza, a equipe julgou que seria necessário aumentar a licença-paternidade para 10 dias úteis, período que se assemelha aos 20 dias corridos oferecidos pelo programa Empresa Cidadã. 

O escritório não é cadastrado no programa da Receita porque tem o regime tributário de lucro presumido, o que não dá a possibilidade de incentivo fiscal. Mas, mesmo assim, implementou a política em maio.

Além disso, a empresa abona sete dias ao ano caso os pais precisem levar os filhos ao médico  – desde que menores de 12 anos. O abono ajuda bastante o analista de TI do escritório Rafael Nobre, de 37 anos. “Como sou pai de primeira viagem, às vezes o Bernardo começa a chorar, e eu e a Michelle nos perguntamos se isso é normal. E vamos ao pediatra para descobrir”, contou. “Tendo o apoio da empresa para me deslocar, não corro o risco de acharem que estou faltando ao trabalho para resolver assunto particular e acabar mandado embora.”

Licença tipo importação

As empresas estrangeiras que se instalam no País têm de aplicar suas políticas internas de modo a respeitar a legislação local ou podem até mesmo a aprimorá-las. Por exemplo, associação sem fins lucrativos de proteção ao meio ambiente The Nature Conservancy (TNC) tem a política global de dar dois meses de licença aos pais e mães, em vigor no escritório brasileiro desde março. 

As funcionárias acabaram nem sentindo o efeito, pois a lei nacional se sobrepõe à da associação. Para colaboradores como o especialista em Multimídia Erik Lopes, de 29 anos, a diferença será notada em casa pelos gêmeos Martim e Pilar, que podem nascer entre setembro e novembro, e principalmente pela designer autônoma Tita Padilha, de 27.

“Como a TNC atua de forma global, optamos por não nos cadastrar como uma Empresa Cidadã para manter o padrão em todos os 30 países onde temos escritórios. O pagamento dos 56 dias restantes fica por conta da organização e as atividades do funcionário são redistribuídas”, disse a generalista de RH Caroline Caggiani. 

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