DIVULGACAO
DIVULGACAO

‘Empresas brasileiras devem abandonar o jeitinho nos negócios’

Reeleita diretora jurídica mais admirada, Josie Jardim acredita que a governança vai pautar os negócios no País

Entrevista com

Josie Jardim, diretora jurídica e de compliance da GE para América Latina

Raquel Brandão, O Estado de S. Paulo

21 Junho 2016 | 05h00

Um caminho sem volta. É assim que Josie Jardim, diretora jurídica da General Eletric no Brasil, vê a adaptação das empresas brasileiras a um mercado em que a governança corporativa e as regras de compliance se tornaram conceitos essenciais para a gestão e competitividade das companhias. Eleita, pelo segundo ano seguido, a diretora jurídica mais admirada por outros executivos no anuário Análise Advocacia 500 de 2016, Josie ressalta que “o ‘jeitinho’ vai ficar de lado”.

À frente também do departamento de compliance da multinacional na América Latina, a executiva acredita que a premiação mostra que a questão de gênero e diversidade tem ganhado espaço nas empresas. Entre os 57 eleitos como os mais admirados, 19 são mulheres e três delas estavam entre os cinco primeiros colocados. “São lugares onde as mulheres ‘navegam’ bem.” Veja a seguir os principais pontos da entrevista.

A maioria dos diretores é homem, porém, entre os cinco primeiros colocados, três são mulheres. A presença feminina está ganhando notoriedade?

O mundo de protagonismo jurídico ainda é mais masculino, mas as mulheres já são maioria na faculdade e na base da pirâmide de escritórios de advocacia. É expressivo que entre cinco primeiro colocados três sejam mulheres, mas surpreende menos por estarmos falando dos setores jurídicos de empresas, que costumam ter políticas de diversidade ou planos de carreiras mais definidos e são lugares onde as mulheres navegam bem.

E como é a questão da diversidade de gênero na GE? Há algum programa específico?

Nós temos o GE Women’s Network, que é um grupo de diversidade que visa fortalecer e cooperar dentro da organização em nível global. Ele tem um olhar bem específico para cada mercado em que a companhia opera. Por exemplo, se há uma reunião em outro país, sempre colocamos na agenda um café ou um bate-papo em que falamos sobre carreira com mulheres da companhia. A questão feminina é super importante dentro da empresa, bem como a de outras minorias, como a LGBTA. Toda empresa que tem um olhar de perenidade não pode deixar de tratar da inserção num mundo que é muito mais diversificado do que o de anos atrás.

Além da direção jurídica, você está à frente do programa de compliance da GE. Tais políticas de diversidade também são parte disso, não?

Sim, compliance não é só corrupção. É como a empresa age na cadeia produtiva em que atua, é ter programas de diversidade que insiram as minorias, é ter preocupação com o meio ambiente da área de operação…

Mas com a intensificação das investigações e com os conceitos de governança corporativa e compliance mais consolidados no País, há mudanças na forma de se fazer negócio por aqui?

O Brasil está num momento apreensivo, não é um ano tão bom economicamente e há aquele clima de caça às bruxas. Antes, quando eu falava em compliance, as pessoas pouco entendiam, mas, hoje, com as investigações, estamos num outro extremo. As empresas estão extremamente cuidadosas.

Essa preocupação pode acabar assim que as investigações se encerrem?

Isso é um processo. Com o tempo, esse vai ser o modus operandi e as empresas vão entender que é o novo jeito de se fazer negócio no País. O ‘jeitinho’ vai ficar de lado, haverá mais seriedade e se entenderá que atitudes preventivas são mais efetivas. Sou otimista de que seja um caminho sem volta.

A cultura de compliance é absorvida por toda a companhia?

Sim, com treinamento e constante atualização. Muitas vezes, é um analista financeiro quem aponta algo que gera dúvidas em um contrato. Além disso, notamos que existe essa preocupação. Nos programas de trainee, os jovens perguntam sobre o posicionamento da empresa. Ter um compliance estruturado faz com que a nova geração e o talento, que é escasso no mercado, queira trabalhar com você e, também, retém funcionários, que sentem orgulho da companhia.

Então é um fator de competitividade?

Eu estou convencida de que as empresas que querem sobreviver no mercado serão obrigadas a investir nisso. Dá trabalho, demanda conhecimento e dinheiro, porque compliance não é só um papel pregado na parede, mas é o melhor para todo mundo. Estar estruturado é aumentar sua competitividade. Ou seja, não é só gasto, é fazer dinheiro também.

Quais os desafios futuros para o mercado brasileiro?

Nós temos uma limitação de recursos humanos na área de governança e as empresas terão que investir nesse ponto. Além disso, acho que ainda teremos algumas dificuldades econômicas, mas, passada a época das punições, vai ser melhor porque vamos entrar no novo módulo. Espero que o ambiente de negócios seja melhor e mais simples. Hoje, a burocracia cria oportunidade de desvios. O Brasil não é para amadores. Países com nível de corrupção alto são os que mais dificultam os negócios. Precisamos de menos papel e mais processos, até para punir quem faz a coisa errada.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.