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Estudo aponta insatisfações de empresários após a chegada de fundos de investimento

Pesquisa do Insper revela que, apesar de recomendarem venda para fundos, seis em cada dez entrevistados fazem ressalvas sobre o negócio; principal queixa é sobre desconhecimento do parceiro com relação à empresa

Nicholas Shores, O Estado de S.Paulo

31 Agosto 2017 | 13h49

Embora recomendem a sociedade com fundos de capital de risco, a maioria dos empresários que venderam participações de seus empreendimentos para firmas de private equity relata alguma insatisfação com o novo parceiro. Seis em cada dez entrevistados fizeram ressalvas sobre a relação com o fundo. Entre os que tiveram frustrações, 30% afirmaram que os investidores não tinham conhecimento suficiente sobre a área de atuação da companhia a ponto de interferir em sua gestão estratégica.

Essa é a principal conclusão do estudo "Empresas investidas por fundos de private equity: lições aprendidas", elaborado pelo escritório de assessoria financeira Ártica em parceria com o Insper. Para o levantamento, foram ouvidos 46 empresários. Em comum, todos tiveram fundos de private equity entre seus sócios. 

Na pesquisa, obtida pelo Estado em primeira mão, 98% aprovam o modelo de capitalização. Mas 57% fazem ressalvas sobre a convivência que vem junto com o pacote financeiro. A frustração citada mais vezes pelos entrevistados foi mesmo o conhecimento dos investidores sobre o ramo investido.

Além disso, 31% consideram que o valor das suas companhias, após o investimento, ficou no mesmo patamar ou abaixo das projeções de desempenho financeiro realizadas pelos empresários antes da chegada do novo parceiro.

As insatisfações poderiam significar que as gestoras dos fundos precisam se especializar em certos setores ou ser mais criteriosas na seleção dos executivos indicados para os conselhos das empresas em que investem. Não é, porém, o que diz a professora do Centro de Finanças do Insper Andrea Minardi, uma das responsáveis pelo estudo. “O problema é da expectativa (do empresário). As empresas precisam realizar um processo estruturado para buscar um fundo que seja adequado a essas expectativas”, afirma.

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Por “processo estruturado”, ela e o professor da Cátedra Endeavor do Insper, Guilherme Fowler Monteiro, que também participou do estudo, referem-se à busca ativa por pelo menos duas gestoras de fundos, com a devida avaliação do histórico dos executivos que os dirigem. Os docentes também destacam a necessidade de conversar com empresas que já tenham se associado aos fundos em outras transações.

Capital multiplicado. Basicamente, todos os fundos de private equity têm o mesmo objetivo: remunerar seus acionistas e cotistas. Para isso, compram uma participação acionária minoritária ou de controle em uma empresa com potencial de crescimento e esperam vendê-la por um capital maior ao fim de um prazo, que pode ou não ser acordado com os demais acionistas do negócio.

“Muitas vezes, o fundo sabe muito bem o que quer e o empresário, não. Por isso, não está preparado para conduzir o processo”, diz o sócio-fundador do Ártica, Luiz Penno.

Para não chegar a negociações com fundos em uma posição de desvantagem, sócios de empresas interessados no capital de private equity devem fazer o que Penno chama de “lição de casa”: formalizar processos, auditar os números da companhia e, se for o caso, tirar a família da gestão.

Além disso, é necessário encontrar uma assessoria financeira e advogados especializados. Andrea, a professora do Insper, é categórica: “Não economize na contratação desses profissionais. Senão, o barato pode sair caro depois.”

Essa orientação foi seguida à risca por Jander Martins quando costurava o acordo para a entrada da DGF Investimentos na Mastersaf, empresa de soluções para gestão fiscal e tributária fundada pelo empresário e comprada pela Thomson Reuters em 2011. Ele explica que buscou o “alinhamento de objetivos” desde o princípio das conversas com o fundo.

“Precisava saber qual era a expectativa deles. Por exemplo: o fundo vai sair independentemente de a empresa dar dinheiro ou não? E, se a empresa der dinheiro, vamos distribuir todo o lucro em dividendos? Isso tem de estar muito claro”, afirma Martins.

Sinergia. Em seu primeiro ciclo de captação de investimento por private equity, os sócios da Cruzeiro do Sul Educacional mantinham conversas quase diárias com o fundo britânico Actis. Os investidores eram acionistas minoritários – com participação de cerca de 35% –, mas incluíram o direito a vetos qualificados no acordo.

O entendimento entre as partes foi fundamental, explica Fábio Figueiredo, diretor de desenvolvimento e planejamento do grupo de educação privada. “Nunca precisamos levar sequer um assunto a voto”, afirma. “Conversávamos quase todo dia para compartilhar dúvidas, conjecturas e possibilidades. Isso cria uma dinâmica saudável e evita divergências.”

É também como Bernardo Carvalho, sócio da Gávea Investimentos, tenta proceder no outro lado do balcão. Ele diz que, para a sociedade entre empresa investida e fundo dar certo, é importante estabelecer um objetivo comum muito claro na fase de negociação. E não isenta as gestoras de responsabilidade.

“Os fundos têm um papel muito importante na hora de explicar exatamente como funciona sua atuação, quais são suas intenções e como podem agregar valor à empresa, para todo mundo poder trabalhar junto no mesmo sentido”, afirma. 

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