Fábio Motta|Estadão
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Ex-conselheiro quer que Petrobrás refaça balanços de 2013 a 2015

A pedido de Mauro Rodrigues da Cunha, CVM vai investigar o uso de uma prática contábil pela Petrobrás que, de acordo com o ex-integrante do conselho de administração, pode induzir o investidor a erro, por distorcer a realidade econômica da empresa

Mariana Durão, O Estado de S. Paulo

11 de abril de 2016 | 22h34

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) abriu um processo administrativo para analisar o uso da contabilidade de hedge pela Petrobrás. A investigação foi iniciada a pedido do ex-conselheiro da estatal, Mauro Rodrigues da Cunha. Ele pede que o órgão regulador do mercado de capitais determine à companhia que refaça as demonstrações financeiras de 2013 a 2015, por considerar a adoção da política contábil equivocada e capaz de induzir o investidor a erro ao interpretar a realidade econômica da estatal.

A Petrobrás passou a adotar a contabilidade de hedge em julho de 2013, com a disparada do dólar. A prática contábil busca proteger o resultado financeiro das companhias frente à variação cambial. A alta do dólar eleva, em reais, as dívidas contraídas em moeda estrangeira. A contabilidade de hedge contrapõe a receita futura com exportações às despesas financeiras com dívidas contraídas em dólar. O efeito cambial sobre a dívida é registrado no patrimônio, mas não afeta o lucro da companhia imediatamente. 

Sem o hedge contábil a última linha do balanço da estatal nos últimos anos seria possivelmente pior, o que deve ocorrer caso a CVM determine o recálculo das demonstrações. Os resultados da estatal já vêm se deteriorando: após lucro de R$ 23,5 bilhões em 2013, a estatal registrou dois prejuízos seguidos, de R$ 21,6 bilhões e R$ 34,8 bilhões em 2014 e 2015, em boa parte pelo reconhecimento das perdas por corrupção.

Como membro do conselho de administração da petroleira na época, Cunha se opôs à prática contábil desde o início, votando contra a aprovação das contas da estatal em 2013 e 2014. Ele argumenta que a contabilidade de hedge faz sentido como proteção à dívida em moeda estrangeira de empresas exportadoras, mas que a Petrobrás é “líquida e estruturalmente importadora”, tendo fechado os três últimos anos com saldo comercial negativo.

A Petrobrás exporta petróleo bruto e importa derivados como gasolina e diesel, por isso os contratos de exportação são um hedge (proteção) parcial para os de importação. Ao usar parte desses contratos para proteger a dívida em dólar, ficaria ainda mais descasada nos seus fluxos operacionais. Cunha acusa a estatal de usar argumentos “falaciosos” para justificar a política contábil, entre eles o de que os preços domésticos dos derivados seguem a flutuação cambial. A defasagem de preços da gasolina é uma das principais fontes de queixa de acionistas.

 

Na reclamação à CVM, Mauro Cunha acusa o hedge contábil da Petrobrás de divergir da realidade econômica da companhia, violando as normas do padrão contábil internacional e a interpretação do órgão regulador. “Ele (hedge contábil) permite operar - como tem operado - com um enorme descasamento cambial, sem que seu lucro seja proporcionalmente afetado”, diz o conselheiro. 

A consequência disso, na visão de Cunha, presidente da Associação de Investidores no Mercado de Capitais, é que o investidor pode ser levado a erro ao interpretar a situação econômica da companhia. A prática favoreceria que a administração da petroleira assumisse um risco cambial desproporcional. Ele alerta que isso pode levar a Petrobrás a “pagar dividendos obrigatórios e participações nos lucros aos empregados mesmo em situações onde seu endividamento exploda”, caso de uma maxidesvalorização cambial. 

O processo foi aberto em 28 de março na CVM, que enviou uma série de questionamentos ao diretor de Relações com Investidores da Petrobrás, Ivan Monteiro. Ele terá até sexta-feira para responder. A companhia não retornou até o fechamento desta reportagem.

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