Executivos ainda estão despreparados para lidar com tecnologias disruptivas

Executivos ainda estão despreparados para lidar com tecnologias disruptivas

Grande parte das lideranças encara riscos cibernéticos como uma 'caixa-preta' e hesita em discutir as ameaças a que suas empresas estão expostas

Letícia Fucuchima, O Estado de S.Paulo

16 Agosto 2017 | 05h00

As empresas continuam apostando pesadamente em soluções tecnológicas como forma de reduzir custos e alcançar resultados mais competitivos. Apesar da crise, os gastos e investimentos das empresas em tecnologia se mantiveram estáveis nos últimos três anos, correspondendo a 7,6% da receita, segundo pesquisa do Centro de Tecnologia de Informação Aplicada da FGV-SP. No entanto, profissionais do setor de Tecnologia da Informação (TI) alertam: a maioria dos executivos está despreparado para lidar com os impactos dessas novas ferramentas em seus negócios.

A principal preocupação dos especialistas é o desconhecimento, por parte do alto comando, das vulnerabilidades que pegam carona nos benefícios trazidos pelos avanços tecnológicos. 

Estudo global realizado pela Marsh, empresa de corretagem de seguros e consultoria de risco, no primeiro semestre deste ano aponta que, dos 700 executivos entrevistados, mais da metade (55%) não realiza avaliações em suas empresas dos riscos associados às tecnologias disruptivas, como robótica, inteligência artificial e impressões 3D.

"Ninguém pensa no quanto um eventual problema desses afetaria não só a própria empresa, mas também seus clientes e todas as companhias que estão ligadas à sua cadeia de valor", afirma Roberto Zegarra, vice-presidente sênior da Marsh Risk Consulting na América Latina. 

Os riscos cibernético não se resumem a vírus que danificam sistemas ou ciberataques comandados por hackers. São todas as ameaças relacionadas às tecnologias, envolvendo desde o armazenamento de dados e informações até o manuseio de equipamentos como drones, sensores e prédios inteligentes. 

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Além de perdas financeiras, o descuido com tecnologias pode trazer danos à imagem e à reputação da empresa, além da insatisfação de clientes e parceiros comerciais.

Na análise do vice-presidente sênior da Marsh, a situação no Brasil é ainda mais alarmante, agravada pela deficiência na quantificação dos riscos. 

"Muitas empresas não sabem dizer se um problema no futuro vai custar R$ 100 mil ou R$ 100 milhões, então vão empurrando com a barriga", ele destaca. 

Para piorar esse cenário, é comum que haja divergências entre as prioridades da diretoria executiva e de gestores de riscos, diz Roberto Zegarra. Isso dificulta investimentos em detecção e gerenciamento de vulnerabilidades tecnológicas.

Alberto Luiz Albertin, coordenador do Centro de Tecnologia de Informação Aplicada da FGV-SP, também enxerga a falta de colaboração entre áreas das companhias como um desafio a ser enfrentado. 

"As estratégias de governança dentro das empresas precisam estar formalmente alinhadas, para evitar que decisões personalizadas entre áreas formem diferentes perfis de risco dentro das próprias organizações", avalia.

De acordo com o professor da FGV, o relacionamento das empresas com a tecnologia vem amadurecendo, então o envolvimento do alto comando em discussões tecnológicas naturalmente tende a aumentar. 

Embora haja muito chão para avançar, Albertin acredita que os assuntos ligados à tecnologia deixaram de ser relegados à área de suporte e já são vistos como estratégicos para as empresas.

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Subutilização. Mesmo que as empresas estejam mais atentas aos benefícios do que aos riscos que as tecnologias podem trazer aos negócios, o potencial das novas ferramentas ainda é mal aproveitado pela maioria das companhias. Essa é a opinião de Emilio Carazzai, presidente do Conselho de Administração do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC). 

"A tecnologia continua sendo usada majoritariamente para automação de processos. É um ganho, mas está muito do aquém das possibilidades", afirma Carazzai.

Para o especialista do IBCG, a onda tecnológica que trouxe sistemas integrados de contabilidade, gestão de pessoas e outros já passou. Agora, o diferencial das tecnologias está em seu emprego no processo de tomada de decisão, com o auxílio de inteligência artificial e business Analytics. 

O problema para Carazzai é que, no Brasil, as decisões continuam sendo tomadas de modo arcaico, baseadas no instinto e no improviso.

Esse diagnóstico aparece na pesquisa "Orientação por dados: grandes decisões na era da inteligência", feita pela consultoria PwC e divulgada no começo deste ano. 

Embora concordem que análises de dados permitem decisões mais rápidas e eficazes, 60% dos 2.100 executivos consultados afirmaram que a tomada de decisão em suas próprias empresas é apenas parcial ou raramente orientada por dados.

Luiz Ponzoni, sócio da PwC, garante que uma mudança cultural nas gestões já está em curso, e que o uso de tecnologias passará a ter mais peso na tomada de decisão estratégica em breve. 

"Somos acostumados a usar dados para avaliar o passado ou diagnosticar o presente. Mas na hora de decidir sobre o futuro, fomos ensinados a adotar o feeling, a opinião de pessoas mais experientes ou mesmo aquilo que o concorrente já fez. Isso está gradualmente mudando".

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