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Executivos citam temas ligados à digitalização como principais riscos nos negócios nos próximos anos

Pesquisa global da ICTS Protiviti com foco em 2030 revela que mudança do modelo de negócios preocupa empresários no longo prazo; no Brasil, recorte mostra preocupação também com incerteza política e volatilidade da economia 

Heloísa Scognamiglio , O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2021 | 11h00

A crescente digitalização do modelo de negócios e suas consequências, como a demanda por novas habilidades de funcionários, a mudança do comportamento dos consumidores e a segurança cibernética e da informação, estão entre as preocupações dos executivos para o futuro. 

As informações são da pesquisa anual Top Risks 2021, da consultoria ICTS Protiviti, que mostra quais os principais riscos para os negócios para o ano de 2030, apontados por empresários do mundo todo. O levantamento ouviu, no fim do ano passado, 1.081 executivos, entre membros de conselho e líderes de organizações de diversos setores. 

O ranking de riscos traz ainda itens como a competição por mercado com empresas nativas digitais, a incapacidade de inovação, o aumento do escrutínio regulatório e os desafios de sucessão. Confira a lista completa dos riscos apontados por executivos do mundo todo para 2030:

  1. A adoção de tecnologias digitais pode exigir novas habilidades ou esforços significativos para aprimorar e requalificar os funcionários existentes;
  2. Impacto da mudança regulatória e do aumento do escrutínio regulatório pode afetar a maneira como os produtos e serviços são oferecidos;
  3. A velocidade rápida de inovação disruptiva pode superar nossa capacidade de competir;
  4. Desafios de sucessão, capacidade de atrair e reter os melhores talentos;
  5. Privacidade e gerenciamento de identidade e segurança da informação;
  6. Possibilidade de surgir produtos e serviços substitutos que afetem nosso modelo de negócios;
  7. Manutenção da lealdade e retenção do cliente pode ser difícil conforme as preferências do cliente e as mudanças demográficas evoluem;
  8. Capacidade de competir com "nascidas digitais" e outros concorrentes;
  9. Incapacidade de utilizar análise de dados e "big data" para obter inteligência de mercado e aumentar a produtividade e eficiência;
  10. Ameaças cibernéticas. 

Segundo Rodrigo Castro, diretor de Business Performance e Innovation na ICTS Protiviti, a digitalização das empresas vem ocorrendo há anos, mas a pandemia acelerou a transformação dos negócios, o que pode ter contribuído para a maior preocupação em relação ao futuro. “Muitas empresas aceleraram abruptamente a sua transformação digital. Tudo precisou ser feito tempestivamente para adequar as empresas ao trabalho remoto seguro e até mesmo para destravar plataformas de e-commerce, que no momento estão com grande relevância e participação na receita bruta das empresas”, diz. 

Castro afirma que o momento é de escalada, já sendo possível observar alterações no modo de trabalho e no comportamento do consumidor. “Está surgindo uma nova forma de trabalhar, com o trabalho remoto, com mais tempo para atividades com a família. E o futuro do trabalho também será radicalmente impactado pelas novas tecnologias, a automação de processos, a inteligência artificial”, explica. 

“Já o consumo está sendo feito todo de forma online. Até serviços. Também há uma migração para um modelo de compartilhamento ao invés de posse. Ao invés de ter um carro, as pessoas preferem alugar, compartilhar, usar um Uber. Todas essas mudanças trazem uma série de riscos, por isso a preocupação”, diz Castro.

Também entre as preocupações dos executivos, o aumento do escrutínio regulatório foi apontado como o segundo principal risco. Ele está ligado ao cumprimento de leis e outras regulações, o que pode tornar as operações das companhias mais caras. Para Castro, não somente houve um aumento desse arcabouço regulatório no Brasil e no mundo nos últimos anos, envolvendo temas como privacidade de dados e responsabilidade ambiental, como também o próprio consumidor passou a exigir a conformidade da empresa quanto a essas e outras questões. “E ultimamente, o ESG  [aspectos ambientais, sociais e de governança de uma empresa] está sendo amplamente discutido e eu acredito que, no futuro, isso pode levar a outros aspectos regulatórios para as organizações”, afirma. 

O especialista destaca que as empresas terão o desafio de se adaptar ao futuro, o que envolve investimentos, é claro - mas o principal, em sua opinião, é a questão cultural. “As empresas precisam criar uma cultura resiliente, precisam ter líderes autênticos que consigam engajar as equipes para essas mudanças rápidas. As empresas precisam dessa coordenação, desse senso de urgência e desses líderes inspiradores que consigam trazer algumas mudanças”, recomenda. 

A pesquisa também traz um recorte do Brasil, em que aparecem riscos adicionais relacionados a condições econômicas e ao cenário político. Veja abaixo:

  1. A adoção de tecnologias digitais pode exigir novas habilidades ou esforços significativos para melhorar e requalificar os funcionários existentes;
  2. Impacto da mudança regulatória e do aumento do escrutínio regulatório, afetando a maneira como os produtos e serviços são oferecidos;
  3. As condições econômicas restringem as oportunidades de crescimento; 
  4. Mudança no ambiente atual da taxa de juros; 
  5. Desafios de sucessão, capacidade de atrair e reter os melhores talentos; 
  6. Possibilidade de surgir produtos e serviços substitutos que afetem nosso modelo de negócios;
  7. Incerteza política; 
  8. Volatilidade nos mercados financeiros globais e taxas de câmbio; 
  9. Capacidade de acessar capital e liquidez suficiente; 
  10. A facilidade de entrada de novos concorrentes na indústria e no mercado pode ameaçar nossa participação no mercado.

Para Castro, a lista reflete a realidade do País. “Os riscos apontados trazem um pouco da bagagem histórica do Brasil. A questão da mudança no ambiente atual de taxa de juros, por exemplo, que não aparece na lista global, é um problema recorrente no País. A incerteza política também. O Brasil vive na incerteza política na pós-democratização. Tivemos renúncia do Collor, impeachment da Dilma, temos agora um governo com algumas características de divisão política. A lista reflete a experiência do executivo brasileiro no mercado onde ele atua”, explica. 

O diretor da ICTS Protiviti ressalta que é praticamente impossível que as organizações antecipem todos os riscos. “O executivo não consegue antecipar, mas ele consegue estruturar uma cultura de mudança rápida. Sendo um líder engajador, ele consegue fazer com que a organização mude rápido. E, principalmente, ele precisa ter planos de continuidade de negócios e cenários de gestão de crise”, recomenda. 

Presente

A pesquisa Top Risks também traz as preocupações dos executivos para 2021. O recorte global e o recorte do Brasil trazem em comum para este ano os riscos relacionados ao impacto econômico da pandemia, à implementação de novas tecnologias, aos desafios com a segurança da informação e com ameaças cibernéticas e ao aumento do escrutínio regulatório. 

Quanto às diferenças entre as duas listas, o recorte mundial traz preocupações com a resistência à mudança de modelo de negócios e com a capacidade de competir com nativas digitais, enquanto o ranking do Brasil traz a preocupação com a manutenção da fidelidade do cliente e com a volatilidade nos mercados financeiros globais e taxas de câmbio.

Um dos riscos apontados nos dois recortes, “desafios de sucessão, capacidade de atrair e reter os melhores talentos”, aparece em uma posição bem mais alta no ranking do Brasil. Rodrigo afirma que isso está relacionado a uma falta de mão de obra qualificada no País em algumas áreas. “O mercado de tecnologia, com cientista de dados, programador, é extremamente escasso, porque está em uma ascensão muito grande. O setor de liderança das empresas também, o mercado demanda executivos mais seniores e há escassez”, explica. Veja abaixo as duas listas completas. 

Riscos apontados por executivos do mundo todo 

  1. Políticas e regulamentações relacionadas à pandemia impactam o desempenho dos negócios;
  2. As condições econômicas restringem as oportunidades de crescimento;
  3. Condições de mercado relacionadas à pandemia reduzem a demanda do cliente;
  4. A adoção de tecnologias digitais pode exigir novas habilidades ou esforços significativos para melhorar e requalificar os funcionários existentes;
  5. Privacidade e gerenciamento de identidade e segurança da informação;
  6. Ameaças cibernéticas;
  7. Impacto da mudança regulatória e do aumento do escrutínio regulatório pode afetar a maneira como os produtos e serviços são oferecidos;
  8. Desafios de sucessão, capacidade de atrair e reter os melhores talentos;
  9. Resistência à mudança de operações e modelo de negócios;
  10. Capacidade de competir com "nascidas digitais" e outros concorrentes.

Riscos apontados por executivos no Brasil 

  1. Políticas e regulamentos relacionados à pandemia impactam o desempenho dos negócios;
  2. Desafios de sucessão, capacidade de atrair e reter os melhores talentos; 
  3. As condições econômicas restringem as oportunidades de crescimento; 
  4. A adoção de tecnologias digitais pode exigir novas habilidades ou esforços significativos para aprimorar e requalificar os funcionários existentes;
  5. Privacidade e gerenciamento de identidade e segurança da informação; 
  6. Ameaças cibernéticas; 
  7. Condições de mercado relacionadas à pandemia reduzem a demanda do cliente;
  8. Impacto da mudança regulatória e do aumento do escrutínio regulatório pode afetar a maneira como os produtos e serviços são oferecidos; 
  9. Volatilidade nos mercados financeiros globais e taxas de câmbio; 
  10. A manutenção da fidelidade e retenção do cliente pode ser difícil, pois as preferências do cliente e as mudanças demográficas evoluem. 

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