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Guerra comercial e alta do dólar podem ser oportunidades, diz especialista

Paul Sobel afirma que empresas com processos mais maduros de gestão de risco conseguem tirar proveito de turbulências de 2018

Entrevista com

Paul Sobel, presidente do Instituto de Auditores Internos de 2013 a 2014

Pedro Ladislau Leite, O Estado de S.Paulo

23 Agosto 2018 | 04h00

Em meados de junho, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a primeira imposição de tarifas sobre importações chinesas, iniciando uma guerra comercial que vem mergulhando a economia global em incertezas. No entanto, para Paul Sobel, ex-presidente do Instituto de Auditores Internos, associação internacional com sede nos Estados Unidos, as companhias que investem em processos para detectar e se preparar para cenários extremos tiveram com isso uma forte vantagem competitiva em relação a suas concorrentes.

Sobel, que atualmente é o chefe de gestão de risco na empresa americana Georgia-Pacific, cargo que acumula com a vice-presidência da companhia, explica que as siderúrgicas que atuam nos Estados Unidos, por exemplo, podem ver suas receitas subirem ao incrementar sua produção em tempo, buscando ocupar o espaço aberto pela restrição de importações no setor.

De maneira similar, o aumento da taxa básica de juros americana, que provoca a alta do dólar nos países emergentes e ameaça as empresas com dívidas nessa moeda, pode recompensar as empresas com uma gestão de risco madura. O americano, que virá ao Brasil em outubro para participar do Congresso Latino-Americano de Auditoria Interna, afirma que essas companhias ficam em melhor situação financeira em relação àquelas que não conseguem mitigar os impactos da alta no caixa. Confira abaixo a entrevista completa.

É possível se preparar para a guerra comercial?

Vivemos em uma economia globalmente interconectada, de maneira que acontecimentos em um determinado país podem podem afetar também outros mercados. Guerras comerciais são um bom exemplo disso e são casos em que uma gestão mais formal de riscos pode ajudar. Ao ter processos estruturados para identificar e avaliar ameaças que surjam, as empresas podem se posicionar melhor e, em alguns casos, explorar esses riscos e criar valor a partir deles.

Como fazer isso?

Depende muito de como determinados produtos ou serviços serão afetados pela guerra comercial. A chave é quanto mais uma empresa consegue antecipar o acontecimentos de diferentes cenários, mais elas serão capazes de reagir em tempo e reduzir os impactos.

Então, por exemplo, se automóveis estão sujeitos a tarifas inesperadas, uma organização pode conseguir diminuir a sua produção, antecipando o período de tempo em que você não poderia exportar carros para outro país. Ou talvez possa mudar o foco para países que não estão envolvidos na guerra comercial e, se há estoque extra, conseguir melhores preços para um país que esteja fora da disputa.

De novo, a chave é entender que não é possível impedir acontecimentos ruins, mas é possível sim reduzir os impactos se houver um planejamento prévio. Quando se fala nas estratégias para o ano, é preciso entender quais os cenários que poderiam dificultar a concretização dos objetivos e depois planejar com antecedência sobre como administrar isso quando e se acontecer.

As empresas americanas estavam preparadas para a guerra comercial deste ano?

Para muitas companhias, foi um evento de risco que elas conseguiram administrar de maneira natural. Isto é, aquelas que tinham uma gestão de riscos mais madura não estão sentindo impactos significativos, e aquelas menos maduras nesse sentido estão sofrendo, mas conseguem sobreviver.

Em alguns casos, uma guerra de tarifas pode ser na verdade um benefício para algumas empresas, por exemplo, uma siderúrgica que pode aproveitar tarifas ao aço, que aumenta suas receitas dentro dos Estados Unidos. Mas essas vantagens costumam ser apenas temporárias, na medida em que o mercado se ajusta, portanto é preciso saber explorar essa janela de vantagem.

Quais as outras principais ameaças à economia global hoje?

Há líderes bem dinâmicos e incomuns no planeta atualmente, e isso cria uma imprevisibilidade adicional, então acho que certamente há possibilidades que possamos ter um aumento das regulações em algumas economias, como o caso da imigração que temos visto nos EUA que restringe o fluxo de potenciais trabalhadores, o que pode causar depois escassez de mão-de-obra.

Há ainda o aquecimento global, que ainda é imprevisível e cujos efeitos ainda não são completamente conhecidos. Podem acontecer mais secas em algumas partes do mundo. Negócios que dependem de hidrovias para exportar devem começar a pensar o que fazer se determinado rio secar, por exemplo.

Outro fator que chama atenção é a transformação digital, que pode ser mais uma oportunidade do que uma ameaça, dependendo em que lado se esteja. A maneira como os negócios são feitos será muito diferente no futuro e, mesmo que seja caro e difícil estar na vanguarda desse movimento, não é possível tomar uma postura do tipo "esperar para ver". Companhias devem descobrir quanto de experimentação deve ser feita para estar perto o suficiente dos que lideram esse movimento, para não ficar muito atrás e poder reagir rapidamente conforme a tecnologia muda.

Considera a normalização da política monetária nos Estados Unidos um risco?

Esse é um problema significante para várias economias, com a Venezuela sendo um dos principais e mais trágicos exemplos recentes. A companhia que identificar em tempo as ameaças que a política monetária pode criar dentro da economia em que ela atua pode entender como elas podem ser prejudicadas e assim desenvolver proativamente estratégias para lidar com esses riscos, minimizando possíveis estragos.

Em casos de forte variação cambial, como articular os setores de gestão de risco e financeiro?

Nenhum desses setores deve funcionar de maneira independente, a risco de haver um funcionamento precário. A gestão de risco deve identificar que há uma vulnerabilidade com a alta de uma moeda e conversar com a tesouraria, saber qual é a projeção deles e propor se vale a pena fazer alguma operação de proteção cambial.

No fim das contas, o setor de gerenciamento de risco pode não ter autoridade para implementar essas ações, mas estão pelo menos informando melhor o setor que pode tomar essas medidas. Nesse caso, a mitigação do risco é mais uma transferência de risco, já que você leva o risco para a instituição que vende o outro ativo de proteção (hedge). E há outras maneiras de administrar esse risco, comprando dólares, por exemplo, e segurando essa moeda até o momento do pagamento nessa moeda, em vez do rela, no caso.

Há obviamente vários cenários possíveis, mas a principal mensagem é que uma gestão de risco que seja efetiva faz com o que os tomadores de decisão, nesse caso, aqueles no setor financeiro, tenham a melhor informação possível para que então eles possam decidir sobre como, quando e se tentarão mitigar esse risco.

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