Gestão eficiente é crucial para startup captar investimentos

Adoção de boas práticas de governança, porém, não deve afetar agilidade inerente ao negócio, alertam especialistas

Ian Chicharo Gastim, O Estado de S. Paulo

30 Dezembro 2014 | 05h00

A entrada de um investidor em uma startup é crucial para o desenvolvimento do negócio, não apenas pelo aporte de recursos financeiros, mas também pela consultoria estratégica e rede de relacionamentos, dentre outros fatores, que a chegada de um investidor pode proporcionar a uma empresa. É válido ressaltar, entretanto, que nem sempre uma startup está pronta para receber investimentos, o que pode deixar o negócio menos atrativo a investidores e, consequentemente, menos lucrativo.

Diante desse cenário, uma das formas para se preparar para a entrada de investidores é por meio da implementação de práticas de governança corporativa, afirmam especialistas. De acordo com Francisco Jardim, sócio-fundador da SP Ventures, a boa governança é necessária para gerar valor dentro do negócio da startup.

“Para cada rodada de investimento que uma startup for passar até, por exemplo, chegar a abrir o capital, cada investidor vai pagar mais caro para uma empresa que tem uma governança corporativa melhor, com uma diretoria estatutária profissional, um conselho independente, com práticas de transparência”, afirma Jardim, que atuou como gestor fundo Criatec durante seis anos, analisando mais de 1.200 startups de base tecnológica.

Apesar de não ser uma prática na maioria das startups, a implementação da governança corporativa é uma “tendência” do mercado, diz Norman de Paula Arruda Filho, presidente do Instituto Superior de Administração e Economia do Mercosul (ISAE) da Fundação Getúlio Vargas (FGV). “Grandes empresas que tiveram um processo de valorização muito rápido, como o Google e o Facebook, exploraram a governança corporativa e a tendência será essa”, afirma.

A implementação da governança em uma startup, entretanto, deve ser compatível com o tamanho e necessidade da empresa, levando em consideração a necessidade de ter transparência nas ações e relações de negócios, “o que acaba determinando o apoio de grandes ou pequenos investidores”, segundo Norman. “É necessário uma estrutura mínima que dê segurança ao investidor. Se não houver uma estrutura realmente organizada, vai ser difícil alguém colocar dinheiro simplesmente em uma ideia.”

A governança corporativa em startups deve, então, levar em conta conceitos básicos, desde separar as contas pessoais das da empresa, na visão do presidente da associação Anjos do Brasil – entidade de fomento ao investimento-anjo –, Cassio Spina. “Quando falamos em governança em startups, estamos falando de um nível mínimo de gestão de negócio, de controle e transparência”, afirma.

Assessor de diretoria do Sebrae, Ricardo Schiffini Dellamea afirma que o desafio da implementação da governança em startups seja alcançar um equilíbrio, no qual empreendedores tenham liberdade de atuar naquilo que sabem – inovar e fazer as soluções “rodarem” – e os sócios capitalistas se concentrem nas questões financeiras e de alavancagem do negócio. “Regras corporativas demais podem matar a capacidade inovativa da startup. Por outro lado, regras de menos podem inviabilizar o modelo de negócio. Não é uma equação fácil. Eu diria que é um equilíbrio dinâmico, ou seja, requer ajustes a todo momento.”

Francisco Jardim, da SP Ventures, alerta, no entanto, que a implementação da governança não pode “matar” a agilidade inerente a uma startup. “Uma startup consegue testar um novo procedimento, reconhecer erros e voltar com uma correção com agilidade, coisa que o grande player do mercado não consegue. Se a governança “mata” essa agilidade, você deixa uma startup em baixa no mercado”, afirma. 

Segundo Jardim, é preciso deixar que a startup "continue flexível, mas com um processo de tomada de decisão descentralizado, transparente e discutido, por exemplo, em um conselho". "Fazendo isso, a startup deixa de fazer mudanças puramente por achismo, o que garante, na nossa percepção, uma melhora na taxa de acerto do negócio de uma startup”, completa.

Uma das formas de se incentivar a governança em startups é por meio dos processos de mentoria. Segundo Vinícius Machado, gestor de projetos da Associação Brasileira da Startups (ABStartups), os mentores funcionam como “conselheiros informais, para ajudar a trazer parceiros e a conectar clientes”.

O processo de criar conexões através da mentoria pode ser importante para uma empresa crescer, afirma Machado. “Ninguém existe sozinho, ainda mais em empresas de base tecnológica, como startups. Você terá que se integrar com outras plataformas, seja com a implementação de um sistema de pagamento, ou a integração com uma rede social”, completa.

Na prática. CEO da Inviron, empresa de tecnologia especializada em serviços de distribuição de conteúdo multiplataforma, Douglas Pombo passou a implementar práticas de governança na sua startup em dezembro de 2008, inicialmente, com a construção de um conselho, composto por três conselheiros. A decisão se deu após o Criatec – fundo público de investimentos de capital semente destinado à aplicação em empresas emergentes inovadoras – passar a investir na startup.

“Eu era uma empresa limitada que não tinha divisão entre a pessoa jurídica e a física, a pessoa e a empresa quase se confundiam, o meu carro era o carro da empresa. Quando entrou o fundo de investimento, e a empresa se transformou em uma S.A., houve um choque de gestão”, afirma Douglas. “Foi um amadurecimento, mudou a maneira de como enxergar o negócio e isso começou a dar resultados.”

De acordo com Douglas, as principais vantagem obtidas com a adoção de práticas de governança foi gerar valor para a empresa e impulsionar o negócio. “Com um conselho de administração conseguimos trazer uma experiência que ajuda a pular degraus, sem as dificuldades de fazer tudo sozinho”, afirma.

No Conselho da Inviron, as reuniões são, em geral, semestrais. “Trabalhamos juntos com os acionistas no planejamento estratégico do ano seguinte, por volta de novembro. Assim, saímos com o orçamento pronto no ano anterior”, completa.

Três passos rumo à governança:

1º passo - contabilidade

Refazer a contabilidade gerencial, visando a registrar, além do faturamento, custo de mercadorias, dentre outros fatores; objetivo é enxergar quanto a operação da empresa rendeu e custou.

2º passo - conselho de administração

Montar um conselho de administração, que pode ser informal, para mostrar como uma operação foi executada, isto é, mostrar como o negócio aconteceu e discutir soluções.

3º passo - auditoria

Contratar uma auditoria externa, para emitir um parecer sobre as contas da empresa de forma transparente.

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