Gestora Robeco sugere plano para 'blindar' governança da Petrobrás

Gestora Robeco sugere plano para 'blindar' governança da Petrobrás

Acionista da estatal sugere contratação de consultoria externa para montar mecanismo de blindagem contra corrupção e uso político

Mariana Durão, O Estado de S. Paulo

17 de outubro de 2014 | 17h57


Em meio às denúncias de um esquema de pagamento de propina na Petrobras, a Robeco, gestora global de mais de 223 bilhões de euros em ativos, articula a criação de um grupo de trabalho para conduzir uma revisão dos processos de investimento e gestão na estatal. Acionista minoritária da Petrobras desde os anos 90, a empresa de investimentos sugere a contratação de uma consultoria externa que ajude a montar um mecanismo de blindagem contra corrupção e influência política dentro da empresa.

A proposta será encaminhada por carta ao conselho de administração da Petrobras, com cópia ao conselheiro independente eleito pelos acionistas minoritários Mauro Rodrigues da Cunha, também presidente da Associação de Investidores no Mercado de Capitais (Amec).

"Independentemente dos resultados das investigações a principal discussão é o que fazer para impedir que a empresa sofra esse tipo de estelionato. Ninguém está falando em privatizar a Petrobras, mas blindar a empresa com um sistema de gestão eficiente", diz Daniela da Costa-Bulthuis, administradora de portfolio responsável por investimentos no Brasil, dentro da área de mercados emergentes da Robeco.

Segundo ela, a visão da gestora é que os envolvidos nos episódios de corrupção - sejam os que participaram do esquema ou os que tiveram conhecimento dele - devem ser afastados após o devido processo legal. Também defende que o conselho de administração discuta as denúncias da Operação Lava-Jato em reunião extraordinária. A proposta foi levada por conselheiros independentes, mas não foi aprovada.

"O nome da Petrobras está na lama. A gente precisa acreditar que os futuros projetos virão para beneficiar a companhia e seus acionistas, não políticos", diz a porta-voz da Robeco.Apesar da crítica, ela destaca que a gestora enxerga a presidente da Petrobras, Graça Foster, como uma executiva de carreira séria e comprometida em tornar a companhia mais eficiente.

Para a Robeco, há um potencial de valorização dos papéis da empresa a partir da adoção de melhores práticas.Embora não revele a participação atual da gestora na Petrobras - principal ativo investido no País - Daniela diz que a fatia na estatal se reduziu nos últimos anos. "A Petrobras tem um plano de investimento gigante e precisa de crédito na praça. Queremos investir, mas é preciso ter melhores práticas", afirma.

Acionista e detentora de títulos da dívida da Petrobras desde 1994, a gestora de recursos sediada na Holanda enxerga uma deterioração da governança na estatal desde 2010, ano da capitalização que injetou bilhões no caixa da estatal. Em um artigo distribuído a seus clientes em setembro, a Robeco afirma que a Petrobras é uma companhia atrativa, mas que muitos investidores têm dúvidas se seu conselho está atuando no melhor interesse dos acionistas ou em prol do acionista majoritário, isto é, a União.

"O governo parece estar usando a Petrobras para conter a inflação doméstica, levando a perdas financeiras para a companhia, o que não se dá no melhor interesse dos acionistas, incluindo a Robeco", diz no artigo.

A gestora faz eco às queixas do mercado quanto à política de subsídios da estatal à gasolina e ao diesel, vendidos no mercado interno abaixo do preço internacional. Também critica o fato de o conselho da empresa ser "dominado por pessoas ligadas ao governo".

A articulação de investidores privados em busca de uma maior representatividade dentro da Petrobras se intensificou em 2012, quando fundos com mais de US$ 2,15 trilhões sob gestão enviaram uma carta ao ministro Mantega e à presidente da companhia, Graça Foster, questionando a eleição dos empresários Jorge Gerdau e Josué Gomes da Silva para as vagas do conselho reservadas aos representantes dos minoritários.

O caso levou à abertura de um processo administrativo sancionador pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que julgará em novembro se os votos de fundos de pensão estatais como minoritários da petroleira são irregulares, por sofrerem a influência do acionista controlador. Depois da polêmica, os minoritários conseguiram emplacar nos anos seguintes os conselheiros independentes Mauro Cunha e José Guimarães Monforte.

A eleição dos dois conselheiros independentes é reconhecida pela Robeco como uma significativa melhora na estrutura de governança corporativa da empresa. No entanto, acabou enfraquecida depois que a Petrobras retirou Cunha de seu comitê de auditoria, no início do ano. A estatal alegou se tratar de um rodízio, mas o episódio motivou o envio de outra carta de investidores institucionais ao conselho da Petrobras em 27 de junho, expressando sua preocupação com as mudanças no órgão. Não houve resposta.

A Robeco então encaminhou à CVM um documento pedindo uma análise da autarquia sobre a questão do comitê de auditoria e outros temas relativos à governança da Petrobras, incluindo o suposto conflito de interesses entre acionistas controladores e minoritários. Segundo Daniela, da Robeco, a xerife do mercado informou que já estava analisando esses pontos em processos administrativos.

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