Daniel Beltrá/Greenpeace
Daniel Beltrá/Greenpeace

IBGC lança no Brasil o Chapter Zero, iniciativa que promove governança ambiental

Originada de um trabalho do Fórum Econômico Mundial, rede global tem como objetivo fomentar a discussão sobre as mudanças climáticas nos conselhos de administração

Heloísa Scognamiglio, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2021 | 11h18

O Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) lança, nesta segunda-feira, 22, o Capítulo Brasil do Chapter Zero. O Chapter Zero é uma rede global de organizações independentes que mobilizam empresários para que as questões relacionadas ao meio ambiente sejam discutidas pelas lideranças e incluídas na agenda estratégica dos conselhos de administração.

O lançamento ocorre em evento virtual gratuito e aberto ao público, via plataforma Zoom, das 18h30 às 20h, com discussões sobre as mudanças climáticas e o papel dos conselhos no futuro dos negócios. É necessário se inscrever no site para participar.

Movimento que nasceu por iniciativa do Fórum Econômico Mundial, o Chapter Zero está presente em vários países e é coordenado também pela Universidade de Cambridge. Segundo Silvio Dulinsky, membro do comitê executivo e responsável pelas interlocuções do Fórum Econômico Mundial com o setor privado na América Latina, a origem do movimento remonta a 2018, quando, a pedido de alguns presidentes de colegiados de empresas globais, o Fórum começou a discutir o tema com conselhos de administração.

“A transição dos modelos de negócio para uma economia baixa ou sem carbono realmente é um desafio transversal para as organizações, com um grande impacto estratégico e de longo prazo. Portanto, é fundamental que os conselhos estejam envolvidos. Mas os presidentes dos conselhos percebiam que as discussões eram muito diferentes e eles sentiam essa necessidade de ter esse piso, esse chão comum”, explica. O trabalho do Fórum resultou na publicação de um documento, no encontro anual de 2019, que estabeleceu oito princípios para a implementação de uma governança climática efetiva nos conselhos:

  • Responsabilidade climática nos conselhos
  • Comando do tema
  • Estrutura do conselho
  • Avaliação de oportunidades e riscos materiais
  • Integração estratégica
  • Incentivos à ação
  • Relatórios e divulgação
  • Troca e diálogo com outros conselheiros e stakeholders (partes interessadas) da empresa

“Esse assunto é mais do que necessário de ser acompanhado, é algo que vai impactar a humanidade de uma forma severa se a gente não cuidar”, diz Pedro Melo, diretor-geral do IBGC. “O propósito dessa iniciativa é empoderar os conselheiros e todos aqueles que circundam os conselhos, os vários comitês, para efetivamente se mobilizarem para o debate estratégico sobre o desafio climático. É debater o impacto nos negócios e como esses indivíduos vão contribuir para alcançar a meta de emissões de carbono zero em 2050, que está alinhada com o acordo de Paris”, comenta.

O Chapter Zero já está estabelecido em países como Itália, Reino Unido, MalásiaRússia, Suíça, Canadá e França. Além do Brasil, mais de dez outros países se preparam para lançar seus capítulos ainda neste ano. "O objetivo é que esses países se engajem para um objetivo até ambicioso: fazer uma contribuição ainda maior antes de 2050. A troca entre os países será muito rica, essa troca de momentos, de experiências”, afirma Melo.

O Capítulo Brasil do Chapter Zero fomentará o debate sobre a questão climática através de eventos, cursos, publicações e pesquisas, do Brasil e de outros países.

“Para atingirmos a redução de carbono, todo o modelo de negócio das empresas precisa mudar e isso não se faz do dia para a noite", declara Valeria Café, diretora de vocalização e influência do IBGC. "Isso vai demorar muito tempo, ainda mais nas empresas de indústria de base, que são mais complicadas para fazer essa transformação por conta dos maiores impactos ambientais. E essa mudança tem que partir das estruturas estratégicas de governança. É o conselho que precisa iniciar esse pensamento de como será a mudança", defende. 

Para Silvio Dulinsky, do Fórum Econômico Mundial, o mais importante é que as transformações para lidar com a questão climática não ocorram nas empresas isoladamente, mas em todo o ecossistema econômico. “Precisamos transformar as nossas cadeias de valor. Porque, se uma empresa procura fazer esse esforço de transição para o modelo de baixo carbono sozinha, ela pode ter uma redução da sua competitividade, caso não haja realmente um movimento coordenado, não haja incentivos para que toda a indústria, a cadeia de valor, vá na mesma direção”, diz.

Parceria

Dulinsky destaca a importância de haver um parceiro como o IBGC para liderar o Capítulo Brasil. “É fundamental identificar em cada país quais são os melhores parceiros estratégicos que nos permitam criar esse sentido de urgência e acelerar esse processo de transformação das empresas. No caso do Brasil, não houve nenhuma dúvida de que o IBGC seria um parceiro ideal para a iniciativa, tanto do ponto de vista do alcance entre os conselheiros do país, como também a sua reputação e credibilidade em pautar a agenda da governança corporativa no país. Em países onde não temos uma organização como o IBGC, é muito mais difícil conseguir acelerar esse processo”, declara.

Os capítulos da iniciativa ao redor do mundo visam a adaptar a discussão para cada país, já que cada local tem seus desafios. “O objetivo é alavancar essa rede global para buscar as sinergias entre países ou setores industriais”, afirma Dulinsky.

Pedro Melo, do IBGC, cita a Agenda Positiva de Governança, divulgada em novembro de 2020, quando o instituto completou 25 anos. O documento traz 15 medidas práticas que auxiliam a implementação da governança corporativa nas empresas, baseadas em seis pilares: ética e integridade, diversidade e inclusão, ambiental e social, inovação e transformação, transparência e prestação de contas e conselhos do futuro.

“Nosso engajamento com o Chapter Zero tem a ver com essa Agenda Positiva. De forma muito direta, a iniciativa está alinhada com o nosso pilar ambiental e social, mas ela também cruza outros pilares que estão aqui. Conselhos do futuro, por exemplo. Há muita discussão em relação à capacidade dos conselheiros do futuro nas questões ESG [referentes a aspectos ambientais, sociais e de governança]”, explica.

Pedro ressalta a urgência do tema e como há organizações a nível nacional e a nível  global se movimentando para que a economia de fato se torne mais sustentável, incluindo reguladores. “Está longe de ser suficiente, mas é um início de qualidade. Acho que isso está ficando mais evidente”, afirma.

A rede mundial do Chapter Zero promoverá o evento virtual Global Summit 2021 nos dias 23 a 26 de março, com foco em conselheiros, reguladores, especialistas e outros profissionais de governança. O evento contará com mais de 20 painéis sobre os riscos que a emergência climática traz para a resiliência de longo prazo e o sucesso comercial das empresas.

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