Renato Cerqueira/Futura Press
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Informes de governança ganham peso na hora de escolher onde investir, aponta pesquisa

Levantamento feito com gestores de recursos, analistas de investimentos e investidores aponta que 90% deles consideram que o conteúdo desses documentos é relevante e serve de guia para aprimorar processos

Luísa Laval, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2020 | 09h47
Atualizado 21 de julho de 2020 | 20h34

Cada vez mais, investidores brasileiros exigem transparência e fortalecimento da governança corporativa nas companhias. Uma das principais ferramentas para monitorar se as regras corporativas são aplicadas é o informe de governança, disponibilizado anualmente por empresas de capital aberto.

Uma pesquisa realizada por 11 entidades relacionadas ao mercado de capitais aponta que 96% dos investidores consideram o conteúdo de informes de governança relevante. Ao mesmo tempo, 90% dizem que o documento tem impacto nas recomendações ou decisões de investimentos. 

Entre as instituições que organizaram o estudo, estão o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), a Associação de Investidores no Mercado de Capitais (AMEC), o Instituto Brasileiro de Relações com Investidores (IBRI) e a Bolsa de Valores de São Paulo (B3).

Entre os 62 entrevistados do recorte do estudo, 45% são gestores de recursos de terceiros, 28% trabalham como analistas de investimentos e os outros 27% são investidores que gerenciam seus próprios recursos.

Apesar de ser um recurso amplamente utilizado, o levantamento também aponta que 89% dos entrevistados afirmam que as explicações das companhias deveriam ser mais objetivas e precisas nos informes de governança do que são atualmente. Por outro lado, apenas 7% disseram que consideram as informações divulgadas adequadas.

O informe é um documento preenchido pelas companhias abertas para apontar quais práticas de governança corporativa são adotadas de acordo com o Código Brasileiro de Governança Corporativa. No caso das regras não adotadas, a empresa precisa justificar o motivo de não as pôr em prática. Esse modelo de informe é conhecido como método “Pratique ou Explique”.

“Essa pesquisa foi importante para ver como os dados dos informes de governança são digeridos. É uma necessidade de aperfeiçoar como as companhias reportam seus modelos de governança, que avançou no Brasil com o formato dos informes”, afirma o diretor geral do IBGC, Pedro Melo.

Nos anos anteriores, o prazo para entrega do informe de governança era 31 de julho. Desta vez, foi adiado para 30 de setembro por causa da pandemia do novo coronavírus.

O que o investidor procura no informe de governança

O presidente do IBRI, Bruno Salem Brasil, afirma que o informe de governança é um guia importante para empresas aprimorarem sua política de gestão e fortalecerem a transparência.

“O informe veio não só para listar as práticas, mas acaba sendo um guia para as empresas melhorarem. A companhia pode olhar para o que está respondendo que não adota e pensa como colocar aquilo em prática para melhorar a governança”, diz.

Nos últimos anos, as companhias têm registrado avanços no preenchimento das informações, o que pode indicar fortalecimento da governança corporativa nas empresas e aproximação da qualidade de outros países em que o mercado de capitais é mais desenvolvido. 

“As empresas, em linhas gerais, cumprem mais de 60% das recomendações do código (de Governança Corporativa). Mesmo que tenhamos de crescer em alguns pontos, eu acho que é um momento de comemorar os resultados das empresas”, afirma o presidente da AMEC, Fábio Coelho.

Fortalecimento de questões ambientais e sociais

Os representantes dos institutos relacionados ao mercado de capitais apontam que, com a pandemia, os investidores estarão mais atentos a questões relacionadas a iniciativas sociais e sustentáveis, e devem justificar o que estão fazendo nesses campos.

“Os investidores estarão atentos para as organizações que estão preocupadas em melhorar o seu entorno, tanto em questões ambientais quanto sociais. Essas divulgações começam a ser mais amplas, e o efeito começa a ser mais percebido dentro das companhias, algo que antes era um pouco distante”, diz o diretor geral do IBGC.

“A sociedade está buscando por maior transparência de informações, e o código de governança permite que as empresas saibam quais práticas são relevantes para as partes interessadas. Essa curva de aprendizado de governança no País, em que os investidores cobram ações das empresas, dá um norte muito importante para as companhias”, afirma o presidente da AMEC.

Os especialistas apontam que a pandemia não irá afetar fortemente os resultados informes de governança deste ano, mas deve impactar positivamente as práticas nos próximos anos, por causa de reforço de processos internos de segurança. 

“A pandemia mostrou que as empresas podem estar frágeis em momentos de muito stress e de gestão de riscos. Agora, pode não ter dado tempo de criar uma estrutura nova de governança, mas certamente veremos nos próximos meses uma sofisticação nos controles no sistema de governança”, aponta Bruno Salem.

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