Christin Hume/Unsplash
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Perdas de companhias com fraudes em geral chegam a 1% do lucro, aponta pesquisa

Segundo levantamento da KPMG, trabalho remoto adotado na pandemia colocou em xeque os protocolos de controle a fraudes e aumentou as chances de ataques cibernéticos

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2022 | 14h50

RIO - As perdas de grandes empresas em todas as Américas, incluindo dos Estados Unidos ao Brasil, com fraudes e demais tipos de má conduta, como desvios de regras internas e descumprimento de normas regulatórias, chegam, em média, a 1% do lucro, estimaram executivos de alto escalão em pesquisa de percepção conduzida pela consultoria KPMG

Entre os 642 entrevistados, 32% disseram que suas empresas precisaram lidar com uma investigação de conformidade com regras de conduta nos últimos 12 meses, enquanto 69% afirmaram que é esperado um crescimento nos riscos de fraude externa ou interna este ano. Ataques cibernéticos também preocupam: 77% dos entrevistados acreditam que o risco com segurança cibernética aumentará nos próximos 12 meses. 

Segundo o sócio-líder da prática forense e de litígios da KPMG no Brasil e na América do Sul, Emerson Melo, os problemas andam juntos. O trabalho remoto adotado durante a pandemia aumentou as chances de ataques cibernéticos, ao obrigar os funcionários a acessarem as redes corporativas a partir de suas redes residenciais de internet, ao mesmo tempo em que colocou em xeque os protocolos de controle a fraudes.

“Nos últimos dois anos, estamos trabalhando de forma remota. Trabalhar de forma remota, com distanciamento e limitações de interação, com limitação para a pessoa ter um melhor engajamento nos valores da organização, impacta também na velocidade com que um determinado profissional se insere nas condutas esperadas pela companhia. Temos que ter mecanismos mais firmes de treinamento e capacitação dessas pessoas em relação a condutas esperadas”, afirmou Melo.

Além da dificuldade para treinar funcionários sobre normas de conduta e de prevenção a fraudes, o trabalho remoto também amplia oportunidades para malfeitos, segundo o sócio da KPMG. Isso inclui gestão de documentos físicos, que passam a ficar na residência particular dos empregados, e não mais na sede da empresa, uso de equipamentos de informática de fora da companhia e até mesmo a falta de controle sobre informações tratadas em reuniões virtuais. As videoconferências, por exemplo, abrem a possibilidade de que outros moradores da residência de um funcionário tenham acesso a informações que podem, eventualmente, ser sensíveis ou confidenciais.

Segundo Melo, essas situações também dificultam investigações corporativas e auditorias internas. Tradicionalmente, essas apurações partem da análise de documentos físicos e arquivos de computadores da própria empresa. Contratada a investigação ou determinada a auditoria interna, não há dificuldade alguma no acesso a essas informações, que pertencem à empresa. Com o trabalho remoto, a eventual necessidade de ter acesso a arquivos de computador ou documentos que estão nas residências dos funcionários pode impor obstáculos.

Por outro lado, o impulso que o trabalho remoto deu a ferramentas digitais poderá ampliar o uso de novas tecnologias no combate às fraudes, lembrou o especialista em governança corporativa Renato Chaves, ex-diretor da Previ. “Tenho visto muita automatização dos trabalhos de auditoria, para tentar capturar esse tipo de desvios”, afirmou Chaves.

Para o especialista, independentemente da pandemia e do trabalho remoto, executivos de alto escalão já vinham se preocupando com a conformidade no cumprimento de normas de conduta e da legislação desde 2014, quando foram tornadas públicas as investigações sobre corrupção da Operação Lava Jato. Casos ruidosos envolvendo grandes companhias abertas, como Petrobras, Braskem, JBS, CCR, entre outras, ganharam espaço na imprensa e levaram a processos bilionários – a petroleira estatal gastou quase US$ 3 bilhões para encerrar uma ação judicial nos Estados Unidos. 

O problema, segundo Chaves, é que as empresas enfrentam dificuldades para colocar em prática as preocupações dos executivos. É preciso investir em equipes de auditoria interna e fortalecer as regras. O especialista vê ainda falta de padrão das consultorias especializadas em auditoria na hora de tratar de informações sobre os diversos tipos de fraude e corrupção nos balanços financeiros. E falta de agilidade da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) em punir, administrativamente, empresas e executivos envolvidos, até mesmo nos casos de delação premiada. 

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