Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

Lava Jato abre ‘janela de oportunidade’ para mais transparência em empresas

Operação expõe riscos de corrupção e motiva uma seleção mais rígida de parceiros para empresas, apontam especialistas

Ian Chicharo Gastim, O Estado de S. Paulo

06 Outubro 2015 | 07h00

A Operação Lava Jato e a possibilidade de punições em função da Lei Anticorrupção podem resultar em um “efeito cascata” por melhores práticas de governança em companhias brasileiras, apontam especialistas ouvidos pelo Estado.

Segundo Clarissa Oliveira, do Veirano Advogados, com o princípio da responsabilidade solidária (previsto na legislação 12.846, no qual uma empresa pode ser responsabilizada por ilícitos cometidos por terceiros), as companhias estão mais rigorosas na escolha de prestadores de serviço e fornecedores. “Isso contribui para um círculo virtuoso no ambiente de negócios, pois há mais rigidez na seleção de parceiros”, diz a advogada.

Na visão de Clarissa, a Operação Lava Jato expôs os riscos relacionados à corrupção, o que abriu uma “janela de oportunidade” para o combate a ilícitos. “O País vive um momento de busca por uma maior transparência no mercado”.

A visão é partilhada por Antonio Carlos Machado, presidente da Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac). “Eu não tenho dúvidas de que, após a Lava Jato, o Brasil vai sair mais fortalecido. Não será de imediato, mas no médio e longo prazos vamos sair bem mais fortes na questão da transparência”, afirma.

Diretor executivo de governança corporativa da Anefac, Charles Holland também defende que a Lava Jato trouxe à tona a necessidade de se ampliar a transparência em empresas para combater a corrupção. “Hoje, há uma janela de oportunidade. Eu vejo que, com quanto mais problemas, mais oportunidades de se melhorar. A sociedade não vai continuar sendo ad eternum omissa, vai exigir mais e mais transparência”, afirma.

Presidente da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi), o professor da USP Welington Rocha destaca que a atuação dos profissionais de contabilidade e auditoria será mais rígida. “Nada mais será como antes no que refere a prestação de contas. Não só contadores, auditores também. Estou otimista com o salto de qualidade que o mercado brasileiro dará na contabilidade”, afirma. 

‘Para inglês ver’. Após a eclosão do escândalo na Petrobrás, a governança virou uma “palavra de ordem” para empresas. Holland alerta, porém, para o risco da governança “para inglês ver”, isto é, quando uma empresa anuncia práticas de gestão apenas por marketing. “Existem dois tipos de governança, a ‘para inglês ver’ e a ‘para valer’. No Brasil, temos o hábito de fazer as coisas ‘para inglês ver”, diz.

Segundo o diretor da Anefac, o mercado tende a não tolerar mais casos como os de empresas envolvidas na Lava Jato, que tinham “excelente documentação de práticas de governança, mas que não exercitavam corretamente a governança”.

Gerar valor. Além de auxiliar no combate à corrupção, a busca por ampliar a transparência em uma empresa também proporciona benefícios diretos para a companhia no mercado, avalia o presidente da Anefac, Antonio Carlos Machado.

“Se a empresa demonstra que pratica aquilo que anuncia, isso gera credibilidade, que proporciona um aumento de captação no mercado acionário, taxas melhores de financiamentos. Ou seja, traz benefícios diretos”, afirma. O professor da Universidade de São Paulo (USP) Welington Rocha tem opinião parecida. “Empresas com boa prestação de contas têm vantagens competitivas para captação de recursos de mercado”, diz. 

Rocha alerta, entretanto, que a busca por transparência ainda precisa ser ampliada, especialmente no setor público brasileiro. “Mesmo que lentamente, estamos evoluindo. Mas sempre do lado empresarial, pois no âmbito governamental está frustrante. Na esfera federal inventam rótulos contábeis, como as chamadas ‘pedaladas fiscais’, para esconder coisas espúrias”, afirma o professor da USP.

Charles Holland, diretor de governança da Anefac, também defende que a transparência deve nortear a contabilidade da empresa. “Quando a companhia presta contas com exatidão, em períodos bons e maus, ela gera uma confiança grande junto ao mercado. Aquelas que não geram confiança, em qualquer tempestade que vem, o mercado acaba penalizando”, avalia.

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