Claudio Ribeiro
Claudio Ribeiro

Nenhuma das 62 empresas do Ibovespa é presidida por uma mulher

O Estadão/Broadcast conversou com cinco executivas em cargos de direção de grandes empresas que contam de suas dificuldades no mercado de trabalho e do sucesso em suas trajetórias profissionais

Flávia Alemi, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2019 | 11h09

Lucia se espelha na avó, de quem herdou o nome. Bianca se cobra para equilibrar a maternidade com o trabalho. Letícia se arrepende das culpas que colocou sobre si mesma. Leila quer divisão igualitária das tarefas domésticas e Grace tem apoio fundamental do marido. Bem sucedidas, essas cinco mulheres ocupam cargos de direção em grandes empresas listadas na principal referência do mercado acionário do Brasil, o Índice Bovespa, e neste Dia Internacional da Mulher contam ao Estadão/Broadcast a fórmula (nada) mágica para chegar ao topo e se manter por lá: exemplos a serem seguidos, doses cavalares de persistência e apoio familiar. E, apesar do sucesso, não chegaram ao posto máximo do organograma. Aliás, nenhuma das 62 empresas do Ibovespa possui uma representante do sexo feminino como diretora-presidente.

Basta olhar pela janela para entender a desigualdade de gênero na sociedade brasileira. Apesar de as mulheres estudarem mais anos, ganham menos e ocupam poucos cargos de direção nas empresas. A professora Regina Madalozzo, coordenadora do Núcleo de Estudos de Gênero do Insper, nota que já existe uma massa de mulheres preparada para ocupar os cargos mais altos das grandes empresas, mas elas esbarram em preconceito inconsciente. "O viés é um preconceito que você não sabe que tem. Um pré-julgamento que, quando confrontado, você nega", explica.

Atualmente, o treinamento sobre esse preconceito inconsciente é uma das ações que empresas encontraram para tentar impulsionar a diversidade de gênero. Eles podem ser teóricos e/ou vivenciais e requerem atualização constante. "É um método caro, mas quando você analisa o retorno que ele pode trazer, vale a pena", ressalta a pesquisadora do Insper. Esse problema, inclusive, não parece ser exclusividade do Brasil. Pesquisa Women In Business 2019, realizada pela consultoria Grant Thornton com mais de 3.500 empresários em 35 países, revela que apenas 15% das companhias têm mulheres no topo.

Diretora de Conformidade da Eletrobrás, Lucia Casasanta é a única executiva da estatal que não foi indicada ao cargo, mas sim selecionada por uma empresa de headhunter. Antes de chegar à diretoria, ela construiu carreira como auditora na extinta Arthur Andersen e na Deloitte e se recorda da forte presença masculina em ambas. "Até a época que eu atuei nessas empresas, o número de mulheres na área de auditoria nunca nem chegou a 10%".

Para conseguir alçar voo num ambiente marcado por competitividade, Lucia contou com apoio emocional da família e do marido, além do exemplo da avó paterna, também Lucia. "Ela sempre trabalhou, foi uma mulher à frente do tempo dela. Foi uma educadora e, aos 20 anos, foi para os Estados Unidos fazer um curso de especialização. E isso nos anos 1920", contou.

É esse exemplo que Lucia quer dar para sua filha, Laísa, recém-chegada no mercado de trabalho. "Eu sou muito fã da minha filha. É uma menina muito criativa, dinâmica, responsável e espero que ela tenha tido um bom exemplo disso", elogiou Lucia. "Uma mulher, quando vê outra numa posição que ela acha bacana, desenvolve uma motivação interna, uma ambição profissional".

Os dados corroboram o ponto de vista de Lucia. Na pesquisa da Grant Thornton, em empresas que não possuem mulheres na liderança, só 32% delas dizem ter o objetivo de chegar ao topo. Porém, quando a companhia tem exemplos femininos nos cargos de gestão, o índice sobe 17 pontos porcentuais, para 49%.

Na trajetória de Bianca Bastos, diretora de Gente e Gestão da BR Malls, ter mulheres inspiradoras ajudou a direcionar sua carreira. Antes de ir para a holding de shoppings centers, Bianca passou dois anos no Grupo Libra, onde a diretora de Recursos Humanos da época, Cláudia Falcão, despertava sua admiração. "Naquele momento de carreira, eu queria ter alguém que me ensinasse, e ela era uma pessoa que me inspirava".

A experiência a levou para o Rio de Janeiro em 2011, no cargo de gerente de Gente e Gestão da BR Malls. A ideia era que, se ela fizesse um bom trabalho, Bianca passaria a se reportar diretamente ao CEO e a área viraria diretoria adjunta, o que aconteceu dentro de alguns meses. Após dois anos, sua área foi elevada a diretoria executiva e, hoje, Bianca prega a necessidade de ter equilíbrio entre ser mulher de negócios e mãe de dois filhos.

Maternidade 

Quando ficou grávida de Daniela, a hoje executiva colocou pressão sobre si mesma e passou a se cobrar estar presente na empresa e em casa. Na época, Bianca era gerente de RH da JBS e foi surpreendida com uma promoção em plena gravidez, o que, para ela, mostrou que a chegada do bebê não seria problema para a empresa.

Letícia Kina, vice-presidente jurídica da Ambev, também passou por essa situação quando engravidou de João. "Tive receio de falar e, quando contei, foi um alívio! Tive uma receptividade super boa. Olhando para trás, acho que me desgastei mais do que precisava. Parte do problema estava em mim", detalha.

A preocupação, apesar de logo ter sido dissipada nos casos de Letícia e Bianca, tem fundamento. Uma pesquisa publicada pela Fundação Getúlio Vargas em 2017 mostrou que um ano após o início do período de licença-maternidade, metade das mulheres não estavam mais empregadas. O estudo ressalta que nos primeiros cinco meses após o nascimento do bebê, a mulher não pode ser mandada embora sem justa causa e, nesse período, a maior parte das rescisões se dá por iniciativa da própria trabalhadora. O cenário muda quando acaba esse período de proteção: a maioria dos desligamentos passa a ser decidida pela empresa.

Mesmo respaldada pela Ambev, Letícia carregou sentimentos de culpa enquanto aprendia a conciliar vida pessoal e vida profissional. Hoje, se arrepende de ter atribuído tanto peso a alguns momentos. "Acho que a vida pode ser mais leve e é esse o papel que procuro desempenhar", afirma. A executiva faz parte de um programa de mentoria dentro da empresa, no qual ela, como líder, aconselha suas colegas em ascensão a levar a vida com mais leveza. "É muito gratificante sentir que faz diferença na trajetória delas ter alguém que já passou por isso".

A adoção de programas desse tipo é uma das ações mais comuns tomadas pelas empresas para impulsionar a diversidade de gênero. No estudo da Grant Thornton, 24% das companhias consultadas dizem investir em parcerias de aconselhamento, e isso entra como estímulo para que as mulheres busquem ascensão profissional.

No Itaú Unibanco, Leila Melo, uma das diretoras executivas, exalta a cultura da instituição de estimular mentorias. Uma das fundadoras da Women in Leadership in Latin America (Will), uma organização internacional que se propõe a melhorar o valor das mulheres em cargos de liderança no continente latino-americano, Leila disse que "acordou" para a questão de gênero nos últimos anos.

Família

"O mercado financeiro não privilegia a liderança feminina", afirmou. Segundo Leila, no Itaú há um grau alto de funcionárias entrando, com 60% das colaboradoras mulheres, mas na alta diretoria elas ocupam apenas 14% das vagas. Para mudar esse cenário, Leila acredita que, além das mulheres precisarem de mais estímulo que os homens, é preciso que haja divisão igualitária das tarefas domésticas. "Eu sempre tive um marido muito presente como pai, ele dividiu efetivamente as coisas comigo. Essa parceria é muito importante", frisa.

Foi assim que Grace Tourinho conseguiu chegar à diretoria financeira da Qualicorp. "Se eu não tivesse meu marido, eu não teria conseguido. Ele sabe que sou feliz trabalhando e tive um apoio muito grande", admite.

"Quando meu segundo filho nasceu, quem tirou licença do trabalho foi ele", conta. À época, Grace trabalhava na Ambev e era responsável pelo lançamento da oferta pública de ações da companhia em Nova York. "Praticamente coloquei a base de dados da Antarctica e da Brahma dentro da minha casa", detalha.

Além da Ambev, Grace teve passagens pela Price Waterhouse do Brasil e Portugal, Kimberly Clark, T4F Entretenimento e chegou a ser diretora geral do bastante masculino UFC Brasil, mas foi na Qualicorp que ela encontrou um ambiente de trabalho completamente diferente: predominantemente feminino. De um contingente de 2.100 funcionários, Grace estima que 70% sejam mulheres na empresa.

Os benefícios de estimular diversidade nas empresas estão refletidos nos números da pesquisa da Grant Thornton. "O desempenho das empresas no quesito 'inovação' cresceu nas empresas onde pelo menos 20% dos cargos eram ocupados por mulheres", aponta Carolina de Oliveira, diretora de marketing da consultoria. Para as diretoras ouvidas nesta reportagem, a tendência é que as empresas caminhem em direção ao equilíbrio de gênero. "Está surtindo efeito falar sobre o assunto", conclui Carolina.

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