Paulo Whitaker/Reuters
Paulo Whitaker/Reuters

‘O investidor brasileiro está muito machucado’

Para o diretor-presidente da BM&FBovespa, após escândalos da Petrobrás, governança é palavra de ordem para restaurar a confiança do mercado

Entrevista com

Edemir Pinto

Fernanda Guimarães, O Estado de S. Paulo

22 de janeiro de 2015 | 21h59

O ano mal começou e, até aqui, já se tornou unânime que atravessá-lo não será tarefa fácil. Em entrevista ao Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, o diretor-presidente da BM&FBovespa, Edemir Pinto, diz que o mercado olha com lupa o trabalho do novo Ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que tem em suas mãos a difícil missão de fazer um ajuste fiscal. A palavra de ordem, de acordo com o executivo, é restaurar a confiança.

Edemir lembra que o mercado se alimenta de expectativas e que, recuperada a confiança, os investidores começam a retornar. Para isso, outro ponto fundamental para trazer o investidor de volta ao Brasil, inclusive para a Bolsa, é a questão da governança corporativa, principalmente nas companhias estatais e de capital misto. “O mercado ficou machucado após as denúncias de corrupção envolvendo a Petrobrás”, observa.

O desafio das estatais é deixar o mais claro possível aos investidores sua responsabilidade pública e social. O presidente da Bolsa acredita que um maior esforço para angariar melhores práticas de governança poderia partir das companhias de economia mista que integram hoje o Ibovespa, o qual funciona, a grosso modo, como vitrine do mercado.

Na prática, o caso Petrobrás jogou por terra a meta da Bolsa de alcançar cinco milhões de pessoas físicas no mercado de renda variável até 2018. No entanto, Edemir diz que a ideia não foi abandonada e que será avaliada assim que o cenário permitir. Em 2014, o número de investidores desse perfil foi de 564 mil, ante 589 mil um ano antes. A petrolífera detém em seu quadro acionário o maior número de pessoas físicas, entre as demais, sendo 278 mil apenas no Brasil.

Olhando para dentro de casa, a Bolsa segue focada na redução de custos e está atenta para seu projeto de internacionalização, que terá como primeiro passo a América Latina. Dois bancos já foram contratados, já que o projeto inclui planos para aquisições de fatias minoritárias de 5% a 15% em bolsas da região. Abaixo, os principais trechos da entrevista.

Quais as expectativas para o mercado de capitais em 2015?

O governo está dando um remédio interessante, que é exatamente essa questão de restabelecer e restaurar a confiança. O mercado brasileiro depende de confiança e vive de expectativas. Restaurada a confiança, essa expectativa vai vir. Todo mundo está acompanhando na lupa se de fato Levy vai entregar o superávit de 1,2%, conforme anunciado. No primeiro trimestre poderemos ter uma repetição de 2014, que pode durar, no máximo, o primeiro semestre, mas há um caminho para a reversão desse quadro. A palavra neste ano será governança, questão muito relevante depois de Petrobrás.

Um ponto será aumentar a governança de estatais?

A grande questão de confiança hoje no Brasil está atrelada às estatais e às companhias de capital misto. O ponto-chave e desafio para essas empresas será deixar transparente a questão do público e privado. É preciso lembrar também que muitas das estatais estão inseridas dentro de uma legislação própria. A Petrobrás, por exemplo, possui a Lei do Petróleo.

As empresas brasileiras deverão voltar a considerar a alternativa de abertura de capital?

Os IPOs no Brasil são muito dependentes dos investidores estrangeiros. As ofertas represadas hoje são, na maioria, grandes e importantes, difíceis de serem viabilizadas sem eles. Se o mercado não vir nenhum retrocesso no discurso do (Joaquim) Levy, e ao mesmo tempo perceber a materialização das medidas anunciadas, o resgate da confiança pode ser rápido. O mercado de capitais é feito de expectativas e todo mundo quer se antecipar, por isso acho que a reação pode ser rápida. Entre ofertas canceladas e postergadas nos últimos anos, há entre 40 e 50 empresas na fila para abertura de capital, que podem retomar os planos quando estiver restabelecida essa confiança.

E o projeto da Bolsa para o acesso de pequenas e médias empresas ao mercado?

As pequenas e médias têm tudo para acontecer e isso não depende do estrangeiro, depende da confiança interna. Para destravar precisamos que aconteça uma boa operação, de um bom modelo de negócio. Entre as primeiras interessadas já têm empresas com participação do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) e de private equities. Em um primeiro ano, levando-se em conta essas empresas com essas participações, há um potencial para algo entre 20 a 30 empresas se listarem.

O mercado local terá fôlego para absorver essas ofertas?

Faz parte desse projeto a criação de fundos exclusivos para o papel dessas empresas. Já há, inclusive, fundos constituídos e captando e, em um primeiro momento, eles deverão viabilizar as ofertas das PMEs. Essas ofertas terão também o apoio do BNDES, que destinará R$ 1 bilhão para participar dessas operações, ficando com até 20% de participação. No entanto, quando a Bolsa foi estudar a experiência externa, vimos que é a pessoa física que, na verdade, compra papéis dessas empresas. Mas aqui no Brasil esses investidores estão machucados com OGX e, principalmente, com Petrobrás e acho pouco provável as pessoas físicas voltarem neste momento.

Há expectativa para o aumento de pessoas físicas na Bolsa?

Neste momento é muito difícil falar em data, mas a Bolsa não abandonou a ideia de ter um volume expressivo de pessoas físicas no mercado, porque nosso potencial é muito grande. Só não temos condições de fazer isso agora, de fixar uma meta ou de revisá-la, diante das condições atuais do mercado e do quadro na Petrobrás.

E os investidores que saíram do mercado?

Não será algo simples (o retorno desses investidores). Ele irá aguardar o mercado se transformar. Esse investidor está muito machucado hoje e volta deverá ser mais lenta do que já foi no passado.

E como a Bolsa está lidando com a possível chegada da concorrência?

Todos os investimentos que a Bolsa fez nos últimos anos, na ordem de R$ 1,5 bilhão, acabam sendo uma barreira para a concorrência. A concorrência virá mais cedo ou mais tarde, até porque a própria regulação foi trabalhada para permitir essa competição. É claro que esse concorrente encontrará a “régua mais em cima”. Um outro desafio para a concorrência vir é exatamente o volume do mercado de ações, que vem sofrendo muito. Mas o importante é que estamos nos preparando.
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