Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

O que é crowdfunding de investimento e como fazer uma captação eficaz de recursos

Associações orientam sobre boas práticas para empresas e investidores, e como evitar problemas na hora de captar recursos

Luísa Laval, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2020 | 12h36

Depois que a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) flexibilizou as regras de crowdfunding de investimento para ajudar pequenas empresas a se financiarem durante a pandemia de covid-19, o tema ganhou repercussão no mundo das startups. Mas você sabe o que é e como deve ser organizada uma ação de crowdfunding?

Também conhecido como “investimento coletivo” ou “investimento colaborativo”, o crowdfunding de investimento é um instrumento de captação de recursos para as startups que precisam de capital financeiro para o desenvolvimento de produtos ou serviços. O retorno desse tipo de investimento vem a médio ou longo prazo.

De acordo com a Associação Brasileira de Fintechs (ABFintechs), esse tipo de captação tem crescido no Brasil: no ano passado, plataformas de crowdfunding captaram R$ 87,51 milhões em 103 rodadas de investimentos. Só no primeiro semestre deste ano foram arrecadados R$ 57,6 milhões em 61 rodadas, e o valor deve se intensificar com as mudanças anunciadas pela CVM.

“O crowdfunding é uma alternativa para o empreendedor se autofinanciar, sem precisar das instituições financeiras tradicionais, que têm dificuldade de enxergar o potencial daquele negócio”, afirma Diego Perez, diretor executivo da ABFintechs.

Em agosto, o Laboratório de Inovação Financeira, que conta com a participação da CVM e de outras entidades, lançou um modelo de contrato de crowdfunding para emissão em plataformas, e auxiliar empresas no processo de investimento. 

“Buscamos uma alternativa para atender empresas que são nascentes e ainda não têm estrutura de balanço. Precisamos ter um tratamento diferenciado, para que elas possam transformar as ideias em projeto. Isso auxilia na busca de alternativas de crédito não formal”, aponta Jeanette Lontra, vice-presidente da Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE), que colabora com o Laboratório.

Apesar de contar com menos burocracia que outros tipos de aporte de investimentos, representantes de associações orientam que as pequenas empresas e startups tomem diversos cuidados ao realizar rodadas de crowdfunding.

“O dever de casa é o mesmo: o crescimento dela, as apresentações, as métricas que importam, isso tudo continua igual, seja ela captando por meio de um investidor anjo, por uma aceleradora ou fazendo crowdfunding”, afirma Amure Pinho, presidente da Associação Brasileira de Startups (Abstartups).

Como realizar um crowdfunding de investimento

  • Conheça a plataforma de crowdfunding: “A empresa precisa estar alinhada com a plataforma. Por exemplo, existem plataformas que compartilham canais de comunicação que facilitam a vida da empresa e tem outras que encerram o relacionamento no final da captação. Tudo isso deve ser estudado antes para evitar impactos negativos no futuro”, aponta Perez.
  • Ofereça soluções inovadoras e concretas: “A startup precisa entender que ela precisa criar alguma coisa muito específica para resolver a dor de alguém, e que procurar investimento não é o primeiro passo. Ela tem de tentar prototipar isso para provar que a proposta tem algum fundamento”, afirma Pinho.
  • Seja transparente na divulgação de informações: “A partir do momento em que você recebe um grupo de investidores, você tem obrigação de se reportar a eles sobre a evolução do negócio, até para que o investidor consiga enxergar se o investimento está sendo bem sucedido ou não”.
  • Comunique-se ativamente com seu público investidor: “Você deve usar a sua rede e o impacto do seu negócio para que pessoas comuns possam apostar nos seu negócio sem que você tenha uma ação listada na Bolsa. O crowdfunding é uma alternativa que aumenta a capilaridade da startup na captação, principalmente se ela é um benefício percebido por muitas pessoas. Além de financiadores, você tem propagadores da sua solução”, aponta o presidente da Abstartups.

Orientações para investidores

Quem quer investir em startups e empresas pequenas também deve tomar alguns cuidados para escolher a melhor opção disponível. “O investidor precisa ter a consciência de que esse tipo de investimento é de risco, porque não tem garantia, não tem mecanismo de reembolso, não tem nenhuma fórmula mágica que demonstre que aquela empresa vai dar certo ou não”, afirma Diego Perez. 

Para Amure Pinho, um dos primeiros passos é procurar plataformas de crowdfunding reguladas pela CVM: “O investidor tem de tomar cuidado para não cair em pegadinhas, como pirâmides ou investimentos que prometam um resultado específico, sem a proteção ou regulação da autarquia”.

Também é importante diversificar apostas em empresas, o que pode aumentar ganhos ou diminuir perdas. “Não recomendo que se invista mais do que se esteja disposto a perder”, aponta o diretor da ABFintechs. “Ao mesmo tempo, para que você tenha alguma possibilidade de retorno financeiro, é importante não colocar todo o recurso disponível em uma empresa só.”

Outra orientação das associações é que o investidor não se deixe levar apenas pelo entusiasmo da solução proposta, mas procure conhecer bem o mercado em que a empresa está inserida. “É importante buscar negócios que se conheça minimamente, como tecnologia, saúde e mercado imobiliário. O investidor tem de navegar por setores que ele tenha alguma familiaridade, ou então se conectar com alguma causa ou com a solução que aquela startup oferece”, diz Perez.

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