Papel do conselho de administração deve ganhar maior peso na análise do investidor

Índices de governança corporativa da Bolsa rendem mais que o Ibovespa

Fernanda Guimarães, O Estado de S. Paulo

08 Dezembro 2014 | 15h22

SÃO PAULO - Os conselhos de administração das companhias de capital aberto deverão ganhar mais peso na análise do investidor para a escolha de seu portfólio de ações. Depois de um ano em que a discussão do papel do conselho veio à tona, a exigência do mercado para órgãos mais profissionalizados e por membros independentes e qualificados deve ganhar força, principalmente quando ficar mais cristalino que o nível de governança corporativa tem influência na rentabilidade da companhia e pode evitar surpresas negativas em relação à empresa investida.

Nesse contexto emerge a importância da boa escolha dos conselheiros que integrarão o grupo, que tem entre seu escopo de atuação fazer com que o interesse da companhia sempre prevaleça. Por isso, uma atenção maior sobre os nomes dos conselheiros é a melhor forma que o investidor tem para garantir que os processos da companhia sejam seguidos e que práticas de governança sejam, de fato, aplicadas, explica a vice-presidente do Conselho de Administração do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), Eliane Lustosa.

"O investidor está longe para verificar se os processos da companhia estão sendo seguidos, mas os conselheiros que são escolhidos estão mais próximos para fazer essa fiscalização", lembra ela, destacando que para uma companhia com processos bem definidos é mais fácil se fazer uma averiguação em caso de eventual falha e, até mesmo, evitar que ela aconteça.

Embora a análise do conselho de uma empresa ainda não faça parte do dia a dia para o investidor do varejo, essa prática já é disseminada entre gestores de recursos. "Existe uma análise da proporção de conselheiros independentes, se existe grau de parentesco, se o presidente executivo é o presidente do conselho. Empresas que seguem essas regras serão melhor rankeadas", afirma o gestor responsável pela estratégia de governança do Bram, gestora do Bradesco, Milton Cabral Filho.

A questão é que, a partir do momento em que a relação entre a rentabilidade da ação e governança ficar mais clara ao investidor, sua exigência por melhores práticas deverá crescer. "Se há má gestão da empresa e se a governança não funciona, o valor gerado por aquela companhia será desviado e não chegará ao investidor", destaca Eliane, do IBGC. Entre os índices de governança, a rentabilidade segue mais alta do que o Ibovespa.

O IGCX, carteira teórica formada por ações de empresas com bons níveis de governança, por exemplo, registra no ano alta de 3,64% e o IGC - NM, que só possui ações listadas no Novo Mercado, de 7%, ao passo que o Ibovespa registra queda de 0,6%.

"Existe uma relação muito estreita entre o desempenho das ações na bolsa e a qualidade das regras de compliance e governança corporativa implantadas nas empresas. E isso deve ser cada vez mais latente nos próximos anos, sobretudo entre os investidores atentos aos riscos de fraudes e ao cumprimento de normas e políticas internas das companhias", destaca Fabiane Goldstein, sócia no Brasil da MBS Value Partners, consultoria da área de mercado de capitais sediada em Nova York.

Como a percepção é de que o papel dos conselhos de administração ganhe mais notoriedade depois que sua atuação foi colocada em xeque, após as recentes denúncias de corrupção na Petrobrás, por exemplo, Eliane acredita que as companhias podem tomar a dianteira em relação a esse tema e fornecer ao investidor mais detalhes sobre sua equipe de conselheiros, como qualificação e disponibilidade para o cargo - ou seja, apontar de quantos conselhos determinado membro faz parte.

Independência. "Além da profissionalização e disponibilidade, é importante notar a importância da independência do conselheiro em relação a quem o indicou e também independência financeira daquele cargo, porque isso garante que o conselheiro terá mais liberdade para apontar se algum processo não está adequado", diz a especialista do IBGC.

O diretor-presidente da Governance Solutions, Carlos Rodrigues, sugere atenção especial nos casos de empresas de capital misto, caso da Petrobrás. "O investidor deve analisar como o governo tem influenciado a gestão da empresa e até que ponto essa interferência pode comprometer os bons resultados da companhia e por consequência o interesse do investidor", afirma.

O sócio da consultoria Mesa Corporate, Luiz Marcatti, diz que o investidor deve ter ainda atenção redobrada quando a empresa tem um acionista controlador e aumentar a fiscalização em torno dos nomes indicados ao conselho e a independência deles no cargo. "Muitas empresas fazem reuniões prévias ao encontro do conselho e a reunião do conselho em si acaba sendo pouco efetiva", destaca. A Usiminas, por exemplo, tem uma reunião prévia com o grupo de controle, prevista em acordo de acionistas, o qual ganhou destaque neste ano por conta da briga societária que envolve a companhia.

Marcatti sugere que para aqueles com menos tempo para se dedicar a essa análise, uma boa estratégia é buscar fundos focados em governança ou em dividendos, ou até mesmo fundos de índice (ETF, na sigla em inglês) que possuem essas mesmas características. "Os fundos de dividendos têm maior atratividade em períodos de maior incerteza e de crescimento mais baixo", lembra o especialista em portfólio Itaú Asset Management, Rodrigo Noel.

José Alberto Baltieri Filho, gestor do Bram, destaca, ainda, que em períodos de mercado ruim, com uma maior aversão ao risco dos investidores, a preferência acaba recaindo por companhias de melhor governança corporativa. "Essas empresas tendem a performar melhor e nesses momentos isso fica ainda mais evidente", conclui o gestor.

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