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Para colocar ESG em prática, profissionais de governança devem incluir tema na visão de negócios

Especialistas dizem que passou o tempo em que as companhias tinham apenas um técnico dedicado a assuntos relacionados à pauta ambiental ou social; hoje, o que se busca é incorporar esses temas em todas as áreas da empresa

Heloísa Scognamiglio, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2020 | 15h35

As práticas ESG, que se referem aos aspectos ambientais, sociais e de governança corporativa de uma empresa, ganham cada vez mais destaque no cenário econômico mundial, sendo vistas como um caminho para o desenvolvimento sustentável. A pandemia evidenciou ainda mais o tema, que vinha conseguindo protagonismo no Brasil já nos anos anteriores ao surgimento do novo coronavírus. Companhias com boas práticas ESG tiveram melhores resultados durante o período de crise, o que contribuiu para um aumento do interesse no assunto. Mas como o ESG deve ser implementado dentro da empresa e quem deve ser responsável por essas práticas?

Especialistas ouvidos pelo Estadão afirmam que aplicar o ESG nos negócios passa não somente por contratar profissionais que entendem do assunto ou criar departamentos dedicados ao tema, mas também por uma mudança de visão dos agentes de governança - executivos, conselheiros e acionistas.

“Não adianta contratar uma pessoa técnica para cuidar do ESG se a companhia não tiver essas práticas incorporadas à cultura da empresa. O principal desafio é fazer o tema permear a companhia”, diz Beatriz Pacheco, consultora em cultura e liderança e coordenadora do Programa de Sustentabilidade do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC).

Ela afirma que o mais importante é que as empresas incorporem os princípios da sustentabilidade na essência, na estratégia de toda a organização. “Todo mundo vai largar o que faz para ser um especialista em ESG? Não é isso. O engenheiro que faz pesquisa, vai continuar pesquisando, mas com o olhar da sustentabilidade. Quem toma a decisão de alocação de capital, de investimento, continua fazendo isso, mas levando em consideração a sustentabilidade”, declara.

Para Beatriz, em um momento inicial, a contratação de um profissional especializado ou a criação de uma área específica para o ESG pode auxiliar a companhia a implementar essa cultura. Mas o trabalho não termina aí. “Precisa ser um profissional com a envergadura necessária para isso. Se não for, fica algo fragmentado, com toda a empresa continuando a fazer negócio como antes e a área de ESG cuidando dos impactos ambientais, por exemplo. Facilmente a empresa pode alegar que tem um gerente de responsabilidade social e sustentabilidade tocando isso e que está tudo certo”, diz.

Tarcila Ursini, conselheira de empresas e do Capitalismo Consciente Brasil e membro do WomenCorporateDirectors (WCD), aponta que cargos ou a área de sustentabilidade, de forma geral, devem ficar mais diluídos por toda a empresa e que as práticas ESG devem se tornar fortemente ligadas às lideranças e aos agentes de governança.

“Anos atrás, havia o gerente de sustentabilidade, um cargo mais generalista. Mas era muito fragmentado. Hoje, percebemos que as áreas de sustentabilidade corporativa que dão mais certo englobam uma pessoa extremamente sênior, com visão estratégica e capacidade de criar cultura, de fazer com que isso se permeie por toda a organização, e que haja esse olhar estratégico e sistêmico também da parte de todos os executivos”, diz a consultora.

“Por exemplo, a Petrobrás criou uma gerência climática. Em outras empresas, há pessoas ligadas a negócios sustentáveis junto ao cliente, há pessoas que pesquisam temas ESG, há grandes equipes focadas em diversidade na área de RH, há a criação do gerente de diversidade, por exemplo”, enumera a consultora.

Mariane Montana, sócia da consultoria Russell Reynolds, comenta como o perfil de profissionais que trabalham com a sustentabilidade mudou nos últimos anos. “No Brasil, historicamente, você tinha um perfil de funcionário muito mais técnico. Dentro do processo industrial, por exemplo, essa pessoa olhava os aspectos ambientais de resíduos. Agora essa cadeira está ganhando mais protagonismo nas empresas e uma demanda por um perfil muito estratégico. Alguém realmente que conecte sustentabilidade à estratégia do negócio. Essa é uma jornada que vai ter que ser incorporada por toda a liderança”, explica a especialista.

“Agora qualquer líder precisa ter uma mentalidade sustentável. E estamos falando de uma visão sistêmica e muito mais holística em relação ao seu negócio. É aquele líder que vai pensar além da empresa, pensar em como ele pode se associar para ter um resultado que impacte positivamente todo o entorno, a comunidade onde atua, os clientes e até seus funcionários”, detalha a sócia da Russell Reynolds.

Essa transformação não está passando em branco pelas empresas. “Muitas empresas estão percebendo que esse é um olhar que tem que fazer parte de todos os executivos. É uma nova forma de fazer negócios que vai implicar em mudanças profundas em todos os departamentos da empresa, inclusive o CEO, inclusive os conselheiros”, afirma Tarcila.

Com Beatriz Pacheco, Tarcila coordena a primeira edição do curso do IBGC “ESG: como repensar e inovar os negócios em um mundo em transformação", com foco em conselheiros, que será realizado online e terá início ainda neste mês. Ela comemora o grande interesse demonstrado pelos executivos no curso.

“Tivemos recorde de inscrição e está com lista de espera para o ano que vem. Isso também mostra o interesse do conselheiro, do CEO, dos acionistas, em ter uma maior robustez, entender esse cenário e construir negócios que sejam mais conectados com a sociedade e com a demanda atual”, afirma.

Tarcila destaca os papéis do CFO, ou diretor financeiro, e do RI, o profissional responsável pela relação com os investidores, nesse momento de transformação nas empresas. “CFOs e RIs têm deixado de ser um responsável meramente normativo, que cuida de balança e números da companhia, para ser um assessor estratégico do negócio e um agente de transformação, percebendo que o ESG é fator de oportunidade e de crescimento”, explica.

“Brincamos que entre ganhar dinheiro e mudar o mundo, a gente fica com os dois. Acho que há aí uma possibilidade muito rica de você conciliar as duas coisas e inclusive ter mais resultado nessa nova economia. A gente tem muitas evidências de que essa gestão mais sistêmica dá os melhores resultados”, conclui a consultora. 

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