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Pessoas não podem ser tratadas como propriedade das empresas, diz consultor

Estudioso do método de gestão integral, Marcelo Cardoso classifica como 'infantilizadas' as estratégias de RH baseadas em retenção de talentos e planos de carreira

Entrevista com

Marcelo Cardoso, presidente da MetaIntegral no Brasil

Malena Oliveira, O Estado de S. Paulo

01 Maio 2015 | 07h42

Uma mudança profunda na maneira como o colaborador se coloca dentro da empresa é capaz de revolucionar os negócios. Essa é a proposta de Marcelo Cardoso, especialista no modelo de gestão integral (que se baseia em unir conhecimentos de diversas áreas, como científicos, sociais, espirituais e artísticos) aplicado a pessoas. Com passagens pelo grupo Fleury e pela Natura, entre outras grandes companhias, o executivo lidera a operação no Brasil da consultoria MetaIntegral, que possui escritórios na Austrália, nos Estados Unidos, e na Inglaterra. 

Estudioso do método desenvolvido pelo filósofo Ken Wilber  no fim dos anos 1990, Cardoso propõe que as companhias deixem de enxergar os colaboradores como sua "propriedade". Para ele, a melhor estratégia para atravessar tempos de crise econômica é investir em relações de trabalho mais maduras. Em entrevista ao Estado, ele explica:

Qual é a proposta do método de gestão de integral?

Há um aumento de complexidade para operar, tanto no Brasil quanto em outros mercados, por conta da volatilidade econômica. Diferente da ênfase em planejamento, controles e estratégia, a proposta é olhar para o cenário de modo adaptativo. É entender de que maneira as pessoas - sozinhas ou em grupo - podem lidar melhor com o ambiente. Algumas empresas têm enorme dificuldade de encarar a transformação. Por quê? Não é por falta de dinheiro, tecnologia ou capacidade, mas por falta de pessoas que compreendam as mudanças.

Como funciona o programa? Ele é voltado para gestores ou colaboradores? 

Depende. Várias metodologias foram desenvolvidas a partir de evidências científicas em áreas como Psicologia Positiva, Neurociência e Teoria da Complexidade. A abordagem sempre começa com um grupo pequeno de pessoas, que podem ser desde trainees até executivos. 

São os próprios colaboradores, então, que têm a missão de reeducar a empresa?

Geralmente, as empresas anunciam grandes mudanças e as pessoas precisam se adaptar a elas. Isso cria um alvoroço. É cientificamente comprovado que as pessoas se engajam muito mais na mudança quando ela é viral (as redes sociais estão aí para provar isso). O discurso precisa vir antes da prática. Assim, focamos em pessoas que têm influência e elas chamam atenção ao se comportarem  de maneira diferente.

É possível medir essas transformações?

Existem ferramentas para medir o nível de maturidade cognitiva, emocional e interpessoal, tanto dos grupos quanto dos indivíduos. Medimos antes e depois de começarmos o trabalho. Em média, 70% das pessoas que passam pelo trabalho evoluem. 

Qual é o impacto para a empresa?

Em uma empresa, se começarmos com apenas 10% das pessoas em posições de liderança, temos um impacto gigantesco. Os desafios em que temos mais a colaborar não são aqueles operacionais, mas para os quais ainda não há resposta. O nosso trabalho será efetivo se as pessoas construírem soluções novas e inusitadas para os problemas que as empresas estão enfrentando.

O que pode acontecer com uma pessoa que não se adapta?

Uma das implicações do modelo tradicional é tratar as pessoas como se fossem propriedade da empresa. Por isso, se fala em retenção de talentos, plano de sucessão, plano de carreira, etc. Essa é uma linguagem mecânica, e as pessoas não funcionam assim. Eu diria que avançou muito nos últimos cinco anos a ideia de que temos contratos psicológicos com as organizações. 

O modelo integral faz a pessoa refletir sobre si mesma, sua vida, suas escolhas profissionais e, ao mesmo tempo, sobre para onde a organização está indo. Assim, ela pode escolher ir ou ficar. A premissa é a de um relacionamento adulto, e não infantilizado, em que as pessoas têm medo de perder o emprego.

Em um contexto de crise, qual é o ponto de equilíbrio entre diminuir despesas e investir em programas que deem retorno no longo prazo?

É óbvio que temos desafios, mas temos também um mercado interno que nos permite lidar com isso. Existem empresas que estão mal, porém há um dinamismo na economia que está um pouco invisível. Sim, há um contexto de crise, mas também empresas com visão de médio, longo prazo. Organizações que enxergam apenas o próximo trimestre não veem essas coisas. Felizmente, no Brasil, tanto empresas nacionais como multinacionais veem o que estamos passando como mais um ciclo.

Quais setores têm se saído melhor?

Empresas de tecnologia e de saúde vão bem, mas têm o desafio de se reinventar. No caso específico de saúde, as companhias vão sofrer com o aumento do desemprego, mas a abertura para o capital estrangeiro vai causar muitas mudanças. Na logística, há um movimento de consolidação que faz com que o setor também cresça. Com o dólar mais valorizado, o Brasil fica mais competitivo e o agronegócio, principalmente as companhias mais sofisticadas, têm se beneficiado disso.

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