Sam Mircovich/Reuters
Sam Mircovich/Reuters

Poucas empresas brasileiras têm planos de continuidade de negócios estruturados, aponta pesquisa

Levantamento realizado pela KPMG mostra que companhias ainda precisam avançar na implementação de um plano abrangente e centralizado

Heloísa Scognamiglio , O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2022 | 17h22

A crise trazida pela pandemia do novo coronavírus evidenciou a importância da governança corporativa, especialmente da gestão de riscos, para a operação das empresas. No entanto, poucas companhias brasileiras seguem as boas práticas de governança quando o assunto é o plano de continuidade de negócios. É o que mostra um levantamento realizado pela KPMG, que ouviu empresas de diversos segmentos entre maio e julho de 2021, e concluiu que menos de um terço delas possuem um plano de continuidade de negócios estruturado e abrangente. 

Das empresas participantes, apenas 27% foram classificadas no nível 3 de maturidade, o mais alto, em que os processos estão estruturados de acordo com as boas práticas de mercado; 33% das empresas foram classificadas no nível 2, em que o plano existe, mas os processos não identificam nem direcionam todos os eventos que podem afetar a continuidade dos negócios; e 40% estão no nível 1, em que a empresa não possui uma política de continuidade de negócios. 

 

O plano de continuidade de negócios é importante para mapear os riscos que ameaçam a existência da empresa. Todas as companhias estão sujeitas a eventos adversos, mas aquelas que estão bem preparadas para lidar com as consequências de momentos de crise saem na frente das que não colocam o gerenciamento de riscos entre suas prioridades. Com uma gestão de riscos eficiente e que inclui um plano de continuidade de negócios holístico e completo, as empresas conseguem sobreviver às crises com mais facilidade, garantindo a viabilidade de suas operações e evitando danos financeiros, de imagem e de reputação. 

Risco de planejamento descentralizado 

“Uma empresa é criada para atingir a perenidade. E a governança corporativa existe para garantir essa perenidade para todos os seus atores”, diz Luís Navarro, sócio-lider de Gestão de Riscos e de Continuidade de Negócios da KPMG. “O plano de continuidade de negócios, dentro da gestão de riscos, é muito importante principalmente nesses momentos de crise, como a pandemia, e de volatilidade da economia global. Constatamos nesses momentos que as empresas que têm esses planos se saem melhor”, destaca. 

Navarro explica que, em empresas que ainda não têm planos de continuidade desenhados e estruturados dentro de uma metodologia, é comum que protocolos existam espalhados em diversas áreas da empresa, de forma pulverizada, descentralizada e, muitas vezes, desconectada da própria gestão de riscos. No entanto, ele ressalta a importância de que isso evolua para uma visão unificada, para que haja um plano de continuidade de negócios único, centralizado e holístico, que considera o nível de maturidade da companhia, os principais riscos e os protocolos de recuperação já existentes. 

“Muitas empresas começam a criar esses planos de continuidade espalhados somente no momento em que são obrigadas, por um terceiro, como um fornecedor, por exemplo, ou pelos próprios órgãos reguladores. Ou então por um evento adverso. Geralmente o que fazemos ao chegar nas empresas é pegar esses planos que estão pulverizados e trazer isso para um protocolo unificado, que vai ser liderado pela gestão de riscos”, conta Navarro. 

Dificuldades no planejamento 

Mesmo que poucas das empresas participantes da pesquisa estejam no nível de maturidade mais alto do plano de continuidade de negócios, mais da metade delas (57%) apontaram que sua administração reconhece a importância, a necessidade e o valor agregado da implementação do plano. Mas essa implementação ainda esbarra em obstáculos. 

No levantamento, os desafios mais apontados pelas empresas para implementar o plano de forma completa e eficiente são: ausência de cultura em gestão de riscos e crises (apontado por 75% das empresas); existência de outras prioridades (68%); e falta de clareza em relação aos potenciais benefícios (46%). 

“Falta incluir isso na cultura da empresa”, fala Navarro. “E, de certa forma, principalmente nas empresas onde há esses planos espalhados em diversos setores, muitas vezes a diretoria não vê valor em trazer um consultor ou em fazer um trabalho interno de aglutinar tudo isso em um protocolo unificado. Infelizmente ainda há essas barreiras. Ainda dependemos desses eventos adversos, como a pandemia, para haver a preocupação e o interesse de unificar e haver um plano de continuidade abrangente.” 

Transparência

Para o executivo da KPMG, o mercado deve cobrar mais transparência das empresas em relação ao plano de continuidade de negócios e deve haver uma maior conscientização sobre o tema dentro das administrações. 

“Talvez falte um pouco que nós, que estamos em uma posição de bastante visibilidade na KPMG, levemos mais isso para o C-level [alto escalão] das empresas, mostrando todos os benefícios e oportunidades que a empresa perde ao deixar de lado o plano de continuidade de negócios”, diz. “Os eventos adversos estão aí, podem acontecer e nunca são esperados. Quanto melhor a empresa estiver preparada, melhor ela vai conseguir responder para conseguir garantir sua continuidade.”

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