Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Preocupação com causas ambientais e sociais nas empresas aumenta o volume de 'emissões verdes'

No BTG Pactual, apenas em janeiro e fevereiro deste ano o total de emissões sustentáveis de empresas da América Latina chegou a US$ 2,4 bilhões, quase o dobro de todo o valor de 2020

Niviane Magalhães, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2021 | 11h00

A pandemia da covid-19 sensibilizou o lado social das empresas e impulsionou o debate sobre o que tem sido feito sobre o tema, levando o ano de 2020 a bater o recorde de dinheiro levantado para causas sociais. Por consequência, foi um ano de "virada" para a discussão do tema ESG (sigla em inglês para os aspectos ambiental, social e de governança), que já estava em discussão há alguns anos. O resultado é que em alguns bancos as emissões sustentáveis de dívida foram maiores em janeiro e fevereiro deste ano do que em 2020 inteiro, mostrando a preocupação com as questões sociais também entre os investidores.

"Temos diversos contatos com ONGs e elas falam em recordes de doação em 2020, sentimento que é reforçado com os clientes. Esse movimento, até então, não era tão recorrente em termos de número de clientes nem tão relevante em termos de volume", aponta Mariana Oiticica, sócia do BTG Pactual e corresponsável pela área de Investimento de Impacto e ESG.

Nesse ambiente, as emissões verdes também aumentaram. "Nos meses de janeiro e fevereiro, o volume de emissões sustentáveis de dívidas foi maior do que no ano de 2020 inteiro", explica Mariana. Ela acredita que as captações sustentáveis no mercado brasileiro têm potencial para crescer de forma rápida. "A velocidade em que os mercados na Europa e nos EUA cresceram no quesito ESG não será igual no Brasil. Aqui será muito mais rápido, pois na Europa e nos EUA a expansão ocorreu devido a estímulos através de movimentos regulatórios. Aqui vamos crescer pela necessidade."

No BTG, apenas em janeiro e fevereiro as emissões sustentáveis de dívidas de empresas da América Latina feitas na instituição totalizaram US$ 2,4 bilhões, valor bem acima do US$ 1,245 bilhão atingidos em todo o ano de 2020 - em 2019 o número foi de apenas US$ 612 mil. O valor inclui empresas estrangeiras, mas a maior parte das emissões foi de companhias brasileiras.

Em abril, mais emissões estão indo para o mercado. Como mostrou o Estadão/Broadcast, a Natura está buscando US$ 1,5 bilhão no exterior através de títulos ligados a metas de sustentabilidade. Em outro setor, a Via Varejo tenta emplacar emissão semelhante, mas com investidores domésticos.

O sócio do BTG e responsável pela área de renda variável, Will Landers, comenta que a emissão de dívida atrelada a metas de sustentabilidade mostra o comprometimento da empresa com a causa. "Se elas não cumprem as metas, pagam taxas de juros mais caras", pontua. O setor de varejo é o mais recente segmento a aderir a essas emissões, "o que é muito construtivo, pois é uma tendência que dói no bolso", acrescenta.

Setor a setor

Algumas empresas já são consolidadas como referência em ESG aos olhos do mercado, como a Natura, que aborda as questões ambientais através de programas de reflorestamento, por exemplo, e demonstra um lado social forte e uma governança apurada. Porém, nem todas as empresas são tão bem vistas especialmente pela própria natureza do negócio, que dificulta boas práticas ambientais. Frigoríficos e mineradoras são exemplos frequentes.

No entanto, o analista de ações/ESG na JGP Asset, Marcos di Tullio, aponta que o Brasil é um País que tem privilégios do ponto de vista ESG, como uma matriz energética mais limpa do que a de muitos países ricos, e que tende a se beneficiar com isso. "Temos um setor de renováveis forte e temos bons ventos. Entre as empresas que ganham destaque estão Weg, Omega Energia, Aeris. Outro setor positivo é de educação, com a Arco Educação despontando na parte social", ressalta.

Do lado negativo, além de frigoríficos e mineradoras, os setores de óleo e gás e de siderurgia podem encontrar mais dificuldade para mostrar compromissos. Ainda assim, di Tullio destaca que eles sempre tendem a ter resiliência no mercado financeiro, na renda fixa ou na variável, por produzirem matérias-primas amplamente consumidas pelo setor de infraestrutura e pela população em geral. "Então, mesmo que a ação sofra devido à empresa não ser tão completa na questão ESG, ela ainda valerá a pena por ser de empresas grandes e essenciais."

Ainda assim, ele lembra que essas empresas podem sempre melhorar suas práticas. "Hoje fala-se bastante do uso do hidrogênio verde como substituto do combustível fóssil em uma siderúrgica. O valor ainda é alto, mas com o aprimoramento da tecnologia, vai barateando e tornando a empresa mais competitiva. O mesmo vale para os frigoríficos, que têm partido cada vez mais para a carne vegetal, com aprimoramento dos sabores", exemplifica.

No setor de óleo e gás, Landers, do BTG, enfatiza que, embora haja dificuldades para adequar a atividade a objetivos sustentáveis, metas de médio e longo prazo para minimizar o impacto ambiental são de extrema importância para o investidor. "Mais do que a atividade da empresa, é importante o que ela tem feito para reduzir os impactos."

Segundo o executivo, a comunicação das companhias é um dos pilares para disseminar as ideias, junto com a imagem que do País nessa área. "Claro que a questão do desmatamento na Amazônia, assim como o tratamento do País em relação à pandemia, são fatores que pesam na percepção do investidor."

Ainda assim, as perspectivas são positivas. "Muitas empresas já possuem um perfil ESG, mas falta uma comunicação mais efetiva. Devemos ver uma evolução a cada ano. Isso, daqui uns anos, deverá ser o normal e deveremos colher bons frutos, já que para o investidor estrangeiro, olhar empresas ESG é algo natural", pontua di Tullio, da JGP Asset.

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