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Programa de mentoria abre porta para mulheres que querem entrar em conselhos de administração

Programa tem duração de um ano; inscrições vão até o próximo dia 29

Luísa Laval, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2020 | 05h00

No Brasil, a participação de mulheres em conselhos de administração de empresas ainda está abaixo da média mundial: no ano passado, elas ocupavam 10,5% das cadeiras de conselhos, enquanto a média de outros países analisados é 23,7%, de acordo com levantamento da consultoria Spencer Stuart.

Para reverter esse cenário, a WomenCorporateDirectors (WCD), a Bolsa de Valores de São Paulo (B3), o Instituto de Governança Corporativa (IBGC), a International Finance Corporation (IFC) e a Spencer Stuart se uniram para organizar o Programa Diversidade em Conselho, que vai selecionar 35 participantes que já tenham experiência ou tenham potencial de crescimento na carreira executiva.

O programa de mentoria tem duração de um ano e as inscrições podem ser feitas até o próximo dia 29 pelo site do IBGC.

O Programa Diversidade em Conselho é gratuito, mas a edição deste ano pede que a participante faça um curso do IBGC antes do início das atividades, que custa R$ 3.800 para não associadas do Instituto e R$ 3.000 para associadas. O valor arrecadado será revertido para a execução do próprio programa.

Para a coordenadora da atividade, Adriana Muratore, que foi selecionada em uma das edições anteriores, é uma oportunidade para dar um novo passo na carreira e influenciar o mercado de outras formas.

Além da participação em eventos e debates sobre temas como responsabilidade dos administradores, mercado de capitais e gestão de riscos, as selecionadas se reúnem periodicamente com um mentor experiente em conselhos de administração, com o objetivo de se especializar e ampliar a rede de contatos no mundo corporativo. Por causa da pandemia do novo coronavírus, as atividades previstas para esta turma serão realizadas de forma virtual.

“O grande objetivo do programa é ampliar a visibilidade dessas mulheres. Temos muitas mulheres qualificadas, até em transição de carreira para conselho, mas que não são conhecidas, porque o networking (rede de contatos corporativos) é diferente. Tem uma navegação diferente no mundo do conselho e no mundo executivo, e o programa faz muito bem essa transição, sobre entender o seu papel como conselheira em termos de conteúdo e comportamento”, afirma Adriana.

Cátia Tokoro tem mais de 25 anos de carreira executiva, especialmente nos ramos de telecomunicações e tecnologia da informação, e conta que participar do programa em 2018 abriu as portas para que pudesse ocupar vagas em conselhos de administração e outros comitês.

“O programa foi fundamental para me despertar uma série de temas que eram importantes para essa preparação. A experiência como executiva ajuda, e eu já tinha formação em governança com certificações, mas a mentoria me ajudou a entender muito a parte comportamental: o que esperar de uma reunião de conselho, como se preparar, como escolher bem o conselho e fazer um bom trabalho de diligência, e o que você pode trazer de valor para aquele colegiado”, diz.

Atualmente, Cátia atua como conselheira independente e é presidente do comitê de sustentabilidade da SulAmérica, participa do conselho consultivo da empresa especializada em inteligência geográfica Imagem Sistemas e da empresa especializada em mentorias Top2You.

Para Adriana Muratore, a pandemia de covid-19 pode ser um bom momento para pensar em como ampliar a inserção de mulheres em conselhos e buscar novas soluções para a continuidade das empresas.

“É um momento de transformação na humanidade como um todo. Estamos buscando soluções, que não são as mesmas de antes, e a diversidade é uma alavanca de resultado. Sou muito otimista: vamos inundar o mundo dos conselhos no curto prazo, no pós-pandemia. Isso é uma cobrança dos consumidores”, acredita.

A sócia da KPMG e co-presidente da WomenCorporateDirectors (WCD) no Brasil, Marienne Coutinho, reforça que a diversidade é hoje um dos pilares para a busca pelo equilíbrio ESG (ambiental, social e governança, em inglês), um dos principais indicadores de desempenho das companhias.

“Existe um movimento de busca pelo ESG, e não só o lucro pelo lucro. Olhando para esse ambiente da pandemia, as empresas que não estão cuidando dos seus profissionais, que estão olhando para o seu lucro e não para a sociedade, estão sendo inclusive rechaçadas pelos próprios consumidores. A diversidade proporciona um novo olhar para buscar soluções para todos, e não apenas para um grupo”, diz Marienne.

Além de apoiar medidas afirmativas, como a adoção de cotas para mulheres em conselho, ela acredita que empresas que tenham boas políticas de diversidade devam ser reconhecidas e cita o selo Women on Board (WOB), que tem apoio da ONU Mulheres e é concedido a empresas que têm, ao menos, duas mulheres no conselho de administração ou no conselho consultivo. "Temos percorrido caminhos difíceis, mas não menos eficazes e importantes.”

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