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Quais são as prioridades dos conselhos de administração de empresas durante a pandemia?

Consultoria aconselha maior aproximação com equipe executiva e monitoramento de quatro áreas centrais para o enfrentamento da crise

Luísa Laval, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2020 | 12h06

Os conselhos de administração ganharam um protagonismo maior no enfrentamento da crise do novo coronavírus nas empresas. Além de assumir o papel de planejamento estratégico e monitoramento da execução de atividades, os membros devem se aproximar ainda mais do time executivo e propor alternativas para a retomada do crescimento.

Com a pandemia, especialistas em governança corporativa apontam que os conselhos de administração devem reforçar o olhar para estratégias de curto prazo, aprimoramento da gestão de riscos e fortalecimento da comunicação com investidores.

Uma das principais mudanças ocorridas na forma de atuação de conselheiros tem sido a frequência e duração de reuniões, como aponta o líder de Consultoria em Riscos e Governança Corporativa da KPMG, Sidney Ito. “Estamos vendo que os conselhos de administração estão muito próximos da empresa, não mais em reuniões mensais, como víamos antes, mas em reuniões muito mais frequentes e curtas, pois o conselho se sente responsável por estar próximo dos executivos e da própria gestão na condução do negócio. Estamos tendo uma mudança bem radical nesse sentido”, afirma.

Em estudo, a KPMG recomenda quatro áreas principais para que membros de conselhos de administração estejam mais atentos durante o período da crise: pessoas, negócio, estrutura e estratégias.

Pessoas 

Ao analisar estratégias com relação a pessoas envolvidas nos processos corporativos, Ito reforça como campo principal a preocupação com funcionários: “Esse é o grande componente: assegurar que os funcionários estejam em segurança. Eles têm de ter todos os meios de comunicação com a empresa e se sentir seguros nesse sentido. O conselho deve demonstrar preocupação especial com os que talvez não estejam trabalhando de casa e conversar com cada um individualmente”.

Em segundo lugar, o especialista recomenda que o conselho esteja atento para a comunicação não apenas com acionistas e parceiros, mas na forma como a empresa se reporta à sociedade. “Hoje, o grande stakeholder (participante dos processos empresariais) não é só o consumidor, mas todas discussões que se faz em relação à empresa, por exemplo, em mídias sociais. Deve-se prestar atenção em como isso é avaliado pelo público”, diz Ito. 

Negócio

Após a organização da cadeia produtiva e distributiva de produtos e serviços, o conselho de administração deve garantir que o processo não perca a qualidade e que o resultado seja entregue.

“É preciso ter certeza de que a matéria-prima, os serviços e suprimentos da empresa estão sendo atendidos e são suficientes, que a produção está funcionando e que os serviços estão sendo distribuídos adequadamente, mantendo a qualidade e não estão faltando. O conselho está olhando isso mais de perto por conta da crise e pode auxiliar os executivos para pensar em soluções”, diz o líder da KPMG.

Estrutura 

Quanto à estrutura do negócio, Sidney Ito recomenda a vigilância da área de TI, cobrança de dados atualizados sobre o caixa da empresa e o aprimoramento do setor de relações com investidores (RI).

“O conselho tem de cobrar que a estrutura de TI seja fortalecida e não caia com o maior número de colaboradores trabalhando de casa. Além disso, é muito importante garantir a segurança cibernética. Muitos ataques têm ocorrido em reuniões virtuais e se roubam informações de funcionários ou da própria empresa”, afirma o consultor. 

Em relação ao monitoramento de caixa, a KPMG recomenda que os conselhos verifiquem o nível de orçamento de acordo com o tempo que a empresa pode enfrentar a crise e procurarem todas as linhas de crédito possíveis. “Mesmo que não precisem dessas linhas, são uma reserva que há disponível”, diz Ito.

Os conselhos de administração devem redobrar a atenção quanto ao relacionamento com investidores. “O grande risco é de muitas informações desencontradas e inconsistentes. A própria estrutura do RI tem sido importante na hora de montar as demonstrações financeiras, de comunicar os números ao mercado, de informar sobre a própria assembleia, que agora pode ser digital”, afirma o líder da KPMG.

Estratégias

Como a pandemia provocou uma série de alterações em leis trabalhistas, Ito destaca como principal recomendação que os conselhos analisem os riscos da empresa e acompanhem de perto possíveis ações judiciais.

“É importante avaliar os potenciais litígios, porque hoje há tantas medidas provisórias e mudanças de regras que trazem incertezas e podem causar litígios no futuro. Então, algumas decisões que a empresa tem de tomar, o CEO não está tomando sozinho. O próprio conselho tem procurado o CEO para discutirem em conjunto as grandes decisões que precisam ser tomadas, e vice-versa”, conclui.

Pós-crise

A KPMG recomenda que o conselho de administração procure elaborar planejamentos que privilegiem a responsabilidade social da companhia, algo que a partir de agora será mais relevante na imagem e identidade do negócio.

“O conceito de ESG (ambiental, social e governança, traduzido do inglês) tem se tornado cada vez mais presente nas discussões de negócios. Ou seja, quem não pensar nas questões ambientais, sociais e na estrutura de governança do negócio não vai atrair investimentos. O marketing social, ainda mais em um momento sensível como esse, pode ser importante para mostrar o quanto essas empresas estão preocupadas com as pessoas de uma forma geral. Você vê menos marketing do produto, mas muito mais para mostrar o quanto a empresa e se insere e se preocupa com a sociedade”, aconselha Ito.

Além disso, o especialista da KPMG acredita que a própria maneira dos conselhos de administração de atuação ficará mais dinâmica e proativa na condução das companhias. “Antes, poucos conselhos de administração aceitavam fazer reunião virtual. Agora, ocorre uma mudança radical por obrigação, em que se tem de fazer as reuniões virtuais, e estão se dando bem, adaptando a duração e a frequência. Mudança é difícil para todos, e não sabíamos se daria certo. Mas, como todos foram obrigados a mudar e vimos que está funcionando, o que está acontecendo hoje vai se proliferar nos próximos anos”. 

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