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Quase metade das profissionais mulheres se sentem esgotadas, diz pesquisa 

Levantamento global da Deloitte sobre a sensação das mulheres no ambiente de trabalho aponta que a desigualdade de gênero foi agravada pela pandemia

Heloísa Scognamiglio, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2022 | 16h53

A pandemia de covid-19 continua tendo impacto na carreira e na saúde mental das mulheres, segundo pesquisa realizada pela Deloitte. De acordo com o estudo, quase metade (46%) das profissionais mulheres afirmam se sentir esgotadas. Outros 53% das profissionais dizem que seus níveis de estresse estão mais altos do que há um ano e 33% já tiveram que tirar folga por razões relacionadas à saúde mental. 

Em sua segunda edição, a pesquisa Women @ Work 2022 foi realizada globalmente pela Deloitte e ouviu, entre novembro de 2021 e fevereiro de 2022, cinco mil profissionais em 10 países, incluindo o Brasil. O objetivo foi explorar como as mulheres avaliam sua relação com o trabalho em meio à pandemia. 

Os números refletem como a carga das tarefas domésticas e parentais sempre recai sobre as mulheres, e não sobre os homens, segundo Venus Kennedy, sócia na prática de Strategy, Analytics e M&A da Deloitte e líder do Programa Delas, iniciativa que tem como missão fortalecer a cultura de equidade de gênero na emtpresa. 

“No trabalho remoto, há também uma dificuldade da profissional focar somente no trabalho”, diz Venus. “A atenção fica dividida entre casa e trabalho e, para quem tem filhos, entre os filhos e o trabalho. E as profissionais acabam entrando mais cedo e saindo mais tarde, e ficam naquele modo ‘sempre online’, sendo difícil separar a vida pessoal da profissional e estabelecer um equilíbrio. Todos esses fatores contam para essa sensação de esgotamento.”

A pesquisa também aponta alguns avanços, como o fato de 43% das mulheres se sentirem confortáveis para falar sobre saúde mental no trabalho e 44% afirmarem ter apoio adequado do empregador em relação ao tema. No entanto, as mulheres demonstram querer se afastar dos empregadores: 52% planejam deixar seus cargos nos próximos dois anos e 10% estão procurando novos trabalhos. Os principais motivos citados são o esgotamento (38%) e a remuneração inadequada (27%). 

Em relação à flexibilidade no trabalho, apenas 33% das mulheres disseram que seus empregadores oferecem opções de trabalho flexíveis, mas 94% acreditam que solicitar essa flexibilidade afetará a possibilidade de uma possível promoção, enquanto 90% acreditam que suas cargas de trabalho não serão ajustadas de modo adequado. 

Assédio e microagressões também aumentaram no último ano: 59% das mulheres passaram por uma das duas situações no trabalho, em comparação com 52% na edição anterior da pesquisa. Apenas 31% dos comportamentos foram denunciados. Ainda segundo a pesquisa, mulheres de minorias étnicas e mulheres LGBT+ têm mais chances de terem passado por microagressões. Alguns tipos de microagressões apontadas pelo estudo são: ter outra pessoa tomando crédito por sua ideia, se sentir subestimada por conta do gênero e ter menos oportunidades de falar em reuniões do que os colegas homens.  

Papel da alta liderança

Para Venus Kennedy, é preciso que as mulheres conversem mais com seus chefes sobre suas necessidades, como um salário mais alto ou horários mais flexíveis – mas, para isso, é preciso que a empresa tenha um ambiente acolhedor, em que a mulher sente que será ouvida e não prejudicada. É aí que entra o papel da alta liderança. 

"É preciso que essa questão de inclusão esteja incorporada à cultura da empresa. Nisso, a alta liderança é a chave. A alta liderança tem que criar essa cultura e a postura da alta liderança é que vai definir o ambiente na empresa", afirma. 

A executiva da Deloitte destaca que a empresa deve estar atenta à saúde mental das funcionárias e deve ter programas de apoio, além de políticas que ajudam a combater a desigualdade de gênero e que permitem o equilíbrio entre vida pessoal e profissional. "Mas o mais importante é como a alta liderança define o ambiente da empresa. Se a alta liderança não apoia o tema, nenhuma dessas outras coisas vai funcionar, porque o ambiente da empresa não será propício para isso", diz.  

Empresas líderes

Com base nas respostas das profissionais, o levantamento identificou que 24% das entrevistadas trabalham em organizações menos inclusivas, enquanto 5% trabalham para organizações líderes em igualdade de gênero, que criaram uma cultura corporativa verdadeiramente inclusiva e que promovem o bem-estar e a saúde mental. 

Comparando as duas amostras, as mulheres que trabalham para empresas líderes em igualdade de gênero têm níveis muito mais altos e melhores de produtividade, motivação, satisfação, saúde mental, bem-estar e lealdade ao empregador. Também têm níveis mais baixos de esgotamento (3%) comparadas às que trabalham para empresas menos inclusivas (81%). 

"Essas empresas estão focadas na saúde mental e na inclusão, por isso têm resultados tão melhores. Isso mostra que as medidas de inclusão têm resultados tangíveis", afirma Venus. 

"As empresas precisam ter políticas que permitam que as mulheres se mantenham no mercado de trabalho. As mulheres são metade da população e, se a empresa não tem mulheres, ela está perdendo talentos. Dados também mostram que empresas que têm mais mulheres na alta liderança, têm resultados financeiros melhores. É algo que toda empresa deveria ter em mente, como podemos manter as mulheres no mercado de trabalho e ter mais mulheres na alta liderança", diz a especialista.

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