Marcelo Camargo/Agência Brasil
Marcelo Camargo/Agência Brasil

Riscos regulatórios e operacionais são os mais relevantes para companhias brasileiras, aponta estudo

Os dois fatores foram citados por 64% das 300 companhias de 21 setores ouvidas pela KPMG entre janeiro e março deste ano, portanto, antes da fase mais aguda da pandemia no País

Mariana Durão, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2020 | 14h48

RIO - Os riscos regulatórios e operacionais são os que mais afetam os negócios no Brasil, aponta uma pesquisa da KPMG com cerca de 300 empresas de 21 setores. Esses são vistos como os principais riscos por 64% das companhias, seguidos por aqueles associados à execução da estratégia de negócios (42%), riscos de mudanças nas políticas governamentais para seu setor (34%) e econômicos (33%). Apenas quatro setores citaram questões socioambientais entre os cinco fatores de risco mais relevantes.

Obtida com exclusividade pelo Estadão/Broadcast, a pesquisa foi realizada entre janeiro e março deste ano, portanto, antes da fase mais aguda da pandemia da covid-19 no Brasil e do aumento da pressão de investidores em relação às questões ambientais, sociais e de governança (ESG). Das empresas participantes, 45% têm faturamento de mais de R$ 1 bilhão por ano.

O sócio líder de Gestão de Riscos e Crises da KPMG, Luis Navarro, credita o crescimento da importância de mudanças nas políticas governamentais dentre os fatores de risco citados pelas empresas à perspectiva de reformas e da realização de privatizações pelo atual governo. O risco foi citado por 42% das empresas e entrou ficou entre os cinco primeiros nesta edição, em substituição aos riscos de tecnologia da informação, que deixaram de fazer parte da lista prioritária, com 29%.

O levantamento mostra que uma fatia significativa das empresas brasileiras ainda tem um nível de maturidade do processo de gestão de riscos fraco (37%) ou sustentável (8%), abaixo da classificação intermediária (maduro, que soma 40%). Apesar da melhora na comparação com a edição anterior da pesquisa, realizada em 2018, quando o porcentual era de 56%, o dado permanece significativo. Aquelas que estão nos melhores níveis, integrado e avançado, saíram de 2% para 7% e 8%, respectivamente, somando 15%.

Dos 21 setores pesquisados, 15 estão no nível maduro de gestão de risco, com Transporte, Viagem e Turismo - muito afetados pela pandemia - liderando com 46%. Em segundo, estão Logística e Distribuição, seguidos por Energia, Recursos Naturais e Saneamento. Os segmentos classificados predominantemente como fracos em termos de gestão de risco são Educação; Entretenimento, Mídia e Editorial; Varejo; Terceirização; Agronegócios; e Alimentos e Bebidas.

"A gestão de riscos teve uma evolução nesses dois anos, mas bem tímida. E é uma melhora que vem da necessidade de atendimento a requisitos regulatórios. Ainda há muitos obstáculos (à implementação da gestão de riscos)", diz Navarro.

O principal desses obstáculos é a ausência de cultura sobre o tema (67%), afirmam as empresas participantes da pesquisa. Em seguida, estão a falta de clareza das corporações em relação aos benefícios potenciais (59%), a existência de outras prioridades (56%) e a falta de apoio dos executivos (31%).

Para Navarro, ainda há no Brasil um entendimento equivocado do conceito de risco, que está mais ligado à incerteza - e seu impacto na execução dos objetivos da empresa - do que a algo que deu errado no passado. O executivo defende que mapear riscos é uma forma, inclusive, de encontrar oportunidades. Num mundo em que tudo muda muito rápido e as corporações têm que se reinventar constantemente, conhecer e gerir os riscos é uma forma de blindar e dar vantagem competitiva à empresa, aponta a consultoria.

A KPMG classifica o cenário atual de "cisne negro": um risco que existe e cuja materialização tem impacto profundo, mas com probabilidade rara de ser desencadeado por um gatilho, nesse caso, a pandemia. Nessa hipótese, quem geriu riscos de forma robusta pôde se antecipar às perdas e/ou prever a melhor estratégia de retomada. Um exemplo é o das empresas que já haviam investido em uma estrutura de trabalho remoto antes de o modelo ser imposto pelo isolamento social.

"Na pandemia, as empresas que estavam mais preparadas e que saíram na frente foram aquelas com gestão e governança de riscos mais robusta", afirma Navarro. Para entender o que mudou na gestão de riscos corporativos em decorrência da covid-19, a KPMG planeja antecipar a próxima pesquisa sobre o tema para 2021. Hoje, ela é realizada a cada dois anos.

A percepção do executivo é que riscos ligados à sustentabilidade deverão ganhar maior importância na próxima edição do levantamento. "Essa questão tem que estar na pauta dos gestores de risco. Mesmo que o desmatamento, por exemplo, não represente risco direto para o meu negócio, pode ser um gatilho para outros riscos", diz, dando como exemplo a eventual decisão de um grande fundo de deixar de investir em companhias brasileiras.

Nesta edição da pesquisa, os riscos socioambientais ficaram em 10º lugar - empatados com os jurídicos - de uma lista de 25 opções de riscos listadas pela KPMG. Apenas empresas dos setores de Alimentos e Bebidas; Energia, Recursos Naturais e Saneamento; Logística e Distribuição; e Manufatura incluíram esse risco entre os cinco principais para seu negócio.

A pesquisa "Maturidade do processo de gestão de riscos no Brasil" inclui 24 perguntas com foco nos sete elementos da metodologia de gestão de riscos da KPMG. Entre os entrevistados, 43% são executivos ou membros de conselhos e comitês, um aumento de 6% em relação à primeira edição da pesquisa.

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