Três séculos de segurança para corruptos e ditadores

Aceito como princípio constitucional do país, o segredo bancário ajudou nodesenvolvimento suíço

Jamil Chade, correspondente em Genebra, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2014 | 02h04

Durante anos, malas de dinheiro entrando em bancos de Genebra, principalmente da Rue du Rhône, era uma prática constante. Mas elas não chegavam de qualquer forma. Para escapar do controle dos guardas de fronteira da França, país que praticamente circunda a cidade, as malas chegavam em barcos, usando as tranquilas e inquestionáveis águas do Lago Léman.

Seus clientes embarcavam em dias ensolarados em bancos do lado francês do lago e, tranquilamente, atracavam praticamente às portas de seus bancos, em meio a famílias em veleiros, crianças em pedalinhos e lanchas dos playboys locais. Nenhuma pergunta era feita.

Tabu até pouco tempo e aceito como um princípio constitucional da Suíça, o segredo bancário perdurou durante anos, atravessou guerras e permitiu a um país rural e pobre tornar-se num dos locais mais ricos do planeta.

Confidencialidade. Se a regra do sigilo absoluto era uma prática recorrente no final da Idade Média nas cidades suíças, ela apenas se transformou em uma lei em 1713. Naquele momento, o governo de Genebra proibiu que banqueiros dessem detalhes de seus clientes. Os correntistas teriam o direito de pedir compensações aos bancos e levá-los às cortes se a confidencialidade fosse quebrada.

Décadas depois, seria esse sigilo que permitiria que a aristocracia francesa transferisse suas fortunas para fugir da Revolução de 1789. Eles seriam apenas parte dos donos do capital no mundo que, de uma forma constante e atravessando gerações, depositaram seus recursos no pacato país alpino.

Séculos depois, um outro choque mundial consolidaria a regra do sigilo como uma lei nacional. Em 1934, o governo aprovou uma lei que impede o governo de interferir nos assuntos financeiros de seus cidadãos. Ou seja, saber suas contas.

Tratava-se de uma resposta à quebra da bolsa de Nova York de 1929 e que exigiu dos suíços medidas para mostrar ao mundo que era seguro depositar suas fortunas no país.

Outro episódio reforçaria a convicção dos suíços pelo segredo bancário: a partir de 1933, Adolf Hitler assumiu o governo alemão e ensaiou regras que estabeleciam pena de morte para um alemão que tivesse recursos no exterior.

Em uma questão de 70 anos, os bancos suíços passaram a controlar ativos cinco vezes superiores ao PIB do próprio país, criaram uma relação promíscua com os políticos locais e uma relação de confiança com criminosos, evasores, corruptos e ditadores de todo o mundo.

Os bancos tinham, ao mesmo tempo, as contas de ditaduras e de grupos de militantes que tentavam derrubar aqueles mesmos governos, como ocorreu no caso do Movimentação para a Libertação de Angola nos anos 70.

Traidor. Um suíço que atacasse a lei deveria estar pronto para bullying. Foi o que ocorreu com o sociólogo Jean Ziegler que, ao escrever sua obra A Suíça Lava mais Branco foi considerado um traidor pelo Parlamento, por revelar os bastidores dos bancos de seu país.

Mais recentemente, a quem questionasse as regras e alertasse que a Suíça estava ajudando a lavar dinheiro, os bancos tinham uma resposta pronta: o problema da evasão não é da Suíça, mas da relação de confiança entre seu cidadão e seu governo local.

"No mundo, muitos dizem que o dinheiro não tem cor", ironizou um ex-banqueiro, na condição de não ter o nome divulgado. "Na Suíça, ele não tinha ideologia, cheiro e nem origem", completou. 

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